Aceitar favores de fornecedores é correto ou não?, por Luís Eduardo Fontenelle Barros

O panorama político brasileiro, que já estava aquecido na semana passada, atingiu quase o ponto de ebulição na sexta-feira de manhã com a condução coercitiva do Lula pela Polícia Federal. Um procedimento legal, suportado por mandado judicial, virou um acontecimento midiático e provocou reações de todo tipo imaginável e não imaginável. Até troca de sopapos entre partidários do Lula e cidadãos contrários aconteceu, diante das lentes magnificadoras da televisão sedenta por audiência.

O que mais me preocupou, no entanto, foram as manifestações sobre o procedimento! Foram discutidos todos os aspectos da forma em que a condução coercitiva aconteceu, mas quase ninguém discutiu o fato. A entrevista do próprio Lula após o depoimento foi da incitação à luta às lágrimas, mas, em nenhum momento ele tratou do assunto do qual estava sendo acusado. Se é inocente, por que não explicou os fatos?

A imprensa foi pródiga em divulgar a evidência de uma série de favores prestados ao Lula por fornecedores do Governo, a grande maioria composta de réus confessos na Operação Lava Jato. O interessante é que esses favores não foram negados, apenas a forma como estavam sendo tratados! A questão que permanece, pelo menos para mim – apenas um economista – é saber se aceitar favores de fornecedores é legalmente correto ou não? Isso é passível de consequências legais ou não?

A questão deveria ser simples. Os favores ocorreram ou não? Isso merece punição ou não? O resto é cortina de fumaça para que essas questões não sejam tratadas. Mesmo com a meu renitente otimismo quanto aos seres humanos, tenho dificuldades de acreditar que uma empreiteira vai pagar despesas de uma autoridade, reformar propriedades dos amigos dele e outros favores como reconhecimento dos serviços prestados à Nação. Pareceria mais lógico se fossem contrapartidas a favores feitos à essas empreiteiras. Favores ilegais, na medida em que a maioria de seus dirigentes estando fazendo acordos de delação premiada ou de leniência. Ora, é razoável supor que uma empresa privada, que tem como missão maximizar o lucro dos seus acionistas, vai gastar dinheiro com uma autoridade se não for como uma contrapartida por benefícios auferidos?

Admito que posso estar raciocinado errado, mas não consigo identificar o erro. Não compreendo é como tantos brasileiros ainda continuam discutindo a forma como as acusações estão sendo tratadas e não questionam se as acusações são pertinentes ou não! Do jeito que as coisas vão, penso que só falta serem convocadas como testemunhas de defesa o Papai Noel, o Pinóquio ou, como opção nacional, o Saci Pererê. Talvez essas testemunhas possam atestar a inocência dos fatos.

Luís Eduardo Fontenelle Barros

Economista e consultor empresarial.

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