Absolutamente impossível

“Qualquer Religião, que se utiliza da linguagem da transcendência para alcançar fins particulares, deve ser chamada de Política”.

Alienar é transferir a posse de alguma coisa que me pertence – um bem – para outra pessoa. Trata-se portanto de um processo objetivo de transferência de algo de alguém para outrem. Quando trabalhamos visualizamos o objeto a ser produzido pelo trabalho – imaginamos – e com esta visualização passamos a deseja-lo. Assim, imaginação e desejo informam o corpo, que se põe inteiro a trabalhar, por amor ao objeto que está sendo criado. Quando o trabalho é concluído, o criador contempla sua obra, vê que é muito boa e descansa.

Todavia no neoliberalismo, o trabalhador não trabalha para si, mas para outro. Logo, o trabalhador tem de alienar o seu desejo, porque o seu desejo passa a ser o desejo do outro para o qual trabalha. Em segundo lugar, o objeto a ser produzido pelo seu trabalho – juntamente com as condições pelas quais o trabalhador realiza seu trabalho – não é resultado de uma decisão sua. Ele não está gerando um filho para si, mas para outro. Consequentemente, este tipo de trabalho cria um mundo não para os operários, mas para os capitalistas, para a classe dominante. No capitalismo, bom é ser capitalista, dono dos meios de produção.

Para as organizações capitalistas o importante absoluto é o Lucro, mesmo se para isso elas precisem derrubar florestas; provocar devastações ecológicas; incentivar a venda de armas em alta escala; criar leis que penalizem o trabalho humano pela baixa remuneração e pela insegurança previdenciária e seguridade social; promover genocídios por meios os mais diversos, tanto pela ausência de políticas sanitárias, como por guerras biológicas ou mediante o incentivo de uma cultura de ódio às minorias. Portanto, é um sistema promotor da alienação total.

Não é necessário pensar muito para compreender que os interesses destas duas classes – capitalistas e trabalhadores – não são harmônicos. Aqui se encontra a contradição máxima do capitalismo: o capitalismo cresce graças a uma condição que torna o conflito entre trabalhadores e capitalistas inevitável. O problema não é de natureza moral, nem de natureza psicológica. A Alienação é a força movente do capitalismo. Nenhum salário, por mais alto que seja, eliminará a Alienação. Trata-se de uma lei tão rigorosa quanto a lei da química que diz: comprimindo-se o volume de um gás a pressão aumenta; expandindo-se o volume, a pressão cai. É a lei que Bolsonaro e Paulo Guedes impõem em sua política econômica: “Salários comprimidos ao seu mínimo, pela ampliação do alto desemprego, produzindo lucros capitalistas expandidos ao máximo”. Este é o objetivo central do casamento entre bolsonarismo e neoliberalismo visado pelo Golpe de 2016.

Como já expressamos em artigo passado (Onde deve ser discutida a religião), a crítica da religião é “a condição preliminar de toda a crítica”, uma vez que a religião, como afirma Marx, é a Teoria Geral deste mundo em que vivemos, revestida de uma forma popular e espiritualista. A religião é o compêndio enciclopédico, sua justificação moral, seu consolo e legitimação. De fato, quando um oprimido, das profundezas do seu sofrimento existencial, exclama: “é a vontade de Deus!”, cessam todas as críticas, todas as razões, todos os argumentos questionadores do seu padecimento, e as injustiças estruturais e históricas transformam-se em “mistérios” de desígnios insondáveis. Sua própria miséria diária deve ser suportada pacientemente como uma provação à espera da salvação eterna de sua alma.

Por outro lado, os poderosos deste mundo utilizam as mesmas palavras sagradas – a vontade de Deus, a inspiração do Espirito Santo etc. – para legitimarem as atrocidades por eles tramadas: “Deus acima de todos”, afim de que nada se altere, nada se transforme, e que os trabalhadores continuem se afogando dia após dia no vale de lágrimas da dominação.

Ontem, 10, a partir das 20h30, ocorreu uma reunião virtual com aproximadamente 40 pessoas, expressa pelo desejo de uma pequena Comissão composta de quatro cidadãos, envolvidos na militância em movimentos cristãos católicos, de apresentarem o resumo do encontro presencial que mantiveram com o fundador da comunidade terapêutica Fazenda Esperança (Guaratinguetá- SP) – frei Hans Stapel – para os signatários de uma Carta a ele endereçada, em protesto pelo seu posicionamento público no dia 18 maio passado, no encontro oficial no Palácio do Planalto de lideranças cristãs católicas com Jair Bolsonaro.

A primeira constatação apresentada pelos membros da Comissão, no preâmbulo de suas falas, foi o vazamento (não identificado o seu agente) antecipado da Carta, permitindo a Stapel preparar-se antecipadamente para a reunião. Após duas horas de diálogo da reunião virtual de ontem, algumas afirmações expostas chamam particular atenção. Primeiramente Stapel, na conversa com a Comissão, sempre se referiu a Bolsonaro como alguém com forte inspiração espiritual, que professa palavras de muita sabedoria, guiado pelo Espírito Santo. Em segundo lugar, o frei franciscano contra-argumentou à Carta, afirmando que o seu posicionamento público no dia 18 de maio, de “estar junto” a Bolsonaro, encontra eco em um grande número de bispos católicos, em muitos membros da Fazenda Esperança e em muitos membros do Movimento dos Focolares, as duas associações católicas às quais ele pertence como membro interno. Por fim, diante das críticas públicas que são feitas às comunidades terapêuticas religiosas, devido ao obscurantismo com que muitas delas atuam suas terapias, Stapel afirmou que “não importa quais são os métodos utilizados, mas sim os resultados obtidos”.

Quando olhamos para a conclusão eleitoral de 2018, no segundo turno para presidente da República, o município de Guaratinguetá, sede da Fazenda Esperança, deu mais de 78% dos votos para Bolsonaro. Isso significa dizer, grosso modo, que de cada 100 paroquianos católicos, 78 foram bolsonaristas naquela cidade. Qual seria, então, a influência destas duas associações católicas, das quais Hans Stapel apresenta-se historicamente como liderança real e simbólica, nesse número tão expressivo de votos bolsonaristas? E diante da catástrofe social e cultural a que o Brasil está submetido desde o Golpe de 2016, aprofundada violentamente com a chegada do bolsonarismo ao poder, indaga-se: o que realmente move esses atores católicos a aderirem tão fortemente ao fascismo-bolsonarista? Qual a força que a sua religião cristã exerce sobre seus corações e mentes para manterem-se tão decididamente fiéis ao bolsonarismo?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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