A UNIÃO DA TRIBO

Nasci num lugar pequeno, rico e bem distante. Minha família era grande e unida como uma tribo. Vivíamos felizes, malgrado as dificuldades da sobrevivência.

Certo dia resolvi viajar para bem distante. Ganhar a vida com mais facilidade e apoiar os que ficavam era o meu objetivo. A decisão de largar a “tribo” foi pra mim dolorosa.

Antes de partir, passei dias e noites imaginando e sentindo a dor da separação. Muito triste, olhava para nossa casinha simples e acolhedora, ouvia o diálogo de meus pais que suavam para nos criar com decência e educação.

Pensativo, com os olhos lacrimejando, escaneava com a mente o semblante e a maneira de ser de todos os meus irmãos e meus pais … num esforço ingente de levar alguns fragmentos  na memória e na alma. Fazia isso também com os animais e com as plantas que faziam parte do meu mundo.

Minha cabeça ardia com o desejo de buscar conhecimento e profissionalização. Queria ser “gente”, no dizer do povo antigo.

Na véspera da viagem chorei baixinho com saudade e medo do novo mundo … que se apresentava como uma incógnita para mim.

Ficava confuso em pensar como seria conviver com pessoas diferentes e atender telefone. Imaginar andando de ônibus me dava prazer.

Naquele tempo não havia televisão; telefone só nos grandes centros. A comunicação dava-se por cartas e telegramas. Os correios eram desorganizados e as correspondências freqüentemente atrasavam ou não eram entregues.

Tudo isso ampliava o mundo e estreitava as mentes. Pequenas distâncias, eram longos caminhos. Cada ano parecia comprido demais e cada dia muito curto, dado a vida artesanal e comunitária. A palavra felicidade era muito conhecida e usada. A palavra “stress” ainda não havia nascido.

Certo dia, já distante, recebi um telegrama. Tive medo de abrí-lo, pois telegramas eram caros e usados em casos especiais.

Temi ter perdido um de meus entes queridos.

Indaguei: – Quem terá morrido, meu Deus?

Com o coração acelerado, minha mente disparou: Papai, mamãe, Gilvan, Nisa, Darci, Maíse, Nilde, Gilza, Beto, Bevan, Denise, Adélia, Afonso, Mai, Nei, Deth?

Respirei fundo e com as mãos trêmulas abri o telegrama. Fiquei feliz ao ver a linda letra da mamãe (1):

Parabéns pelo seu aniversário, Gilmar.

Amamos você.

Afonso, Maria e seus irmãos.

Jamais imaginaria. Meu aniversário havia ocorrido há 32 dias. Mesmo alegre, chorei com saudade.

Hoje é Sexta-feira Santa. Brindo meus irmãos e  amigos com o texto:

A UNIÃO DA TRIBO … que é um pouco de mim e da minha família.

FELIZ PÁSCOA!

(1) Entendo ter havido uma falha no sistema de transmissão pelo código morse utilizado pelos correios

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.