A SOLUÇÃO FINAL

A escritora e cientista política judaico-alemã Hannah Arendt (1906-1975), em seu livro “A banalidade do mal”, relata o julgamento do tenente-coronel nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, responsável por coordenar a logística dos trens para o envio de judeus para o extermínio nos campos de concentração. Com base nos fatos desse julgamento, Arendt vai desenvolver, a partir de argumentos históricos e filosóficos, a categoria banalidade do mal: um mal sem nenhum vínculo demoníaco, mas um mal radical de natureza política, que torna os humanos seres supérfluos, sem a capacidade de pensar eticamente. Neles não há visão humanitária, há apenas a maldade radical.

Em 1942, no subúrbio alemão de Wannsee, em Berlim, realizou-se um farto jantar, convocado pelo diretor do Gabinete Central de Segurança do Reich, Reinhard Heydrich, cujo objetivo era o de garantir a total adesão e cooperação entre os chefes do governo nazista na implantação da Solução Final da Questão Judaica, pela qual milhões de judeus seriam deportados para a Polônia para serem eliminados nos campos de concentração nazistas. No final da reunião, Heydrich entregou a Eichmann as instruções firmes acerca de todos os protocolos. Tudo isto foi decidido em menos de 90 minutos. Estima-se que seis milhões de judeus foram exterminados pela Solução Final.

Enriquecidos pelas lentes que permitem rever e estudar este passado nefasto nazista, é possível indagar sobre o momento presente brasileiro: mesmo com todo o horror que estamos vivenciando, que forças sustentam Bolsonaro e o alimentam em manter-se na posição ideológica e pragmática em que está em relação à Covid-19?

Diversos teóricos partem da premissa de que a pandemia apresenta-se como uma espécie de “cálculo estratégicodo bolsonarismo, na medida em que o projeto de empobrecimento da população trabalhadora, concentração de renda dos capitalistas e desmantelamento do Estado brasileiro, visado pelo Golpe de 2016, levado à frente por Guedes, no campo econômico, e por Ricardo Salles, no campo ambiental, fica obliterado pela atenção nacional toda voltada para a tragédia da Covid-19, deixando temas fundamentais do debate público longe das luzes da mídia nacional, como foi o caso da PEC 186 votada e aprovada recentemente em total silêncio. Como disse Salles, “aproveitar a situação para passar a boiada”.

Assim faz-se da pandemia uma espécie de “bode expiatório” do empobrecimento socioeconômico da população, originalmente almejado pelo projeto civil-militar bolsonarista. Ou seja, quanto mais o capitão adiar a solução dos problemas da Covid-19, mais terá condições de colocar na pandemia e nos governadores as razões do empobrecimento da população.

Bolsonaro havia anunciado em 17 de março de 2019, setenta e cinco dias após a sua posse, em jantar com representantes da extrema-direita estadunidense, ao admitir haver chegado ao poder para levar adiante um projeto de desconstrução de inúmeras conquistas nacionais. Afirmou: “O Brasil não é um terreno aberto onde iremos construir coisas para o nosso povo. Nós temos de desconstruir muita coisa”. SUS, Universidades Públicas, Planos de carreira dos Servidores Públicos, Proteções Ambientais, Política de Valorização do Salário Mínimo, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Pré-Sal. Todas as conquistas sociais das políticas progressistas dos governos do Partido dos Trabalhadores – com Lula e Dilma – devem ser destruídas.

Não há uma visão humanitária, há o cálculo utilitarista. Pelos dados oficiais até o presente momento, no Brasil, 2,5% morreram do total de infectados. Bolsonaro tem esse número presente. Até ontem eram 11.871.390 infectados para 290.314 mortos. Ou seja, ele aposta friamente com seu discurso economicista para aquelas pessoas que não virão a óbito, não importando o horror das mortes, apoiado por Padres, Freiras, Pastores, Militares, Banqueiros, Ruralistas.

Em sua live do dia 18/03, quinta-feira, não dedicou sequer uma palavra de pesar e conforto aos familiares pelo falecimento do seu amigo e correligionário senador Major Olímpio, aos 58 anos, tima da Covid-19 naquele mesmo dia. Recentemente o seu mais novo ministro da Saúde, Queiroga, foi à mídia manter viva a polarização dizendo que vai visitar pessoalmente os hospitais. Um novo ator que entrou em cena para manter viva a tática semiótica bolsonarista. Estima-se que no final do ano teremos 700 mil mortos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .