A solidão de um não espaço, por Jessika Sampaio

Estar sozinha para mim é sinônimo de quietude, falar sozinha e me escutar, dormir bem e abraçar quem sou com meus pensamentos conturbados e tomar as próprias decisões enquanto aguardo a responsabilidade com o peito aberto. Tanto é que uma das minhas necessidades como bicho gente é viajar só. Quando digo às pessoas que gosto de viajar, ir ao bar, cinema, teatro, praia e afins sozinha sempre vejo a expressão ou mesmo a frase do quão solitário isso deve ser. Só que eu não consigo enxergar dessa maneira e, por conta e com os anos, ressignifiquei a solidão.

Conheci alguns estados de solidão: aquela acompanhada com alguém que não te ama, a de ter medo de se aceitar, a de ser abusada na infância durante a calada da noite por alguém que deveria me proteger e mesmo assim me sentir culpada e suja, a de ser testada desnecessariamente e subestimada no trabalho, a de não saber o que fazer em crises de ansiedade e a de ter uma autoestima abalada pela sociedade e achar que não mereço viver. Em resumo, minha solidão se chama ‘não pertencimento’.

Não pertencer a mim ou a um lugar, não me reconhecer pessoa, não reconhecer os louros das vitórias ou a oportunidade de estar viva.
Estando aqui na Europa já tive a sensação de não pertencimento, de não saber onde morava, de morrer de saudades do cheiro de mainha, dos abraços dos queridos, dos carões da vó, do cheiro de praia e dos chamegos dos gatos. De todas as dores a saudade dos gatos era e é a que me fazia e faz chorar durante as pedaladas e agora enquanto escrevo.

Sinto falta deles não só pelo fato egoísta de não os ter mais por perto, hoje eles estão sendo muito bem cuidados por D. Fátima, conhecida como ‘mainha’, mas para eles não pude explicar a minha decisão. Fazer dois gatinhos tirados da rua entenderem que escolhi estar longe, mas que mesmo assim ainda os amo, é complicado. Eu sei que isso é coisa de gente, que a gente põe nossos sentimentos nos bichos, mas é sobre mim que falamos e sinto isso.

Ao longo dos dias aqui percebi que essa era mais uma responsabilidade a ser abraçada, foi minha escolha, minha viagem, meu sonho de adolescente de atravessar oceanos e pisar em outras terras. Sempre que recebo vídeos e fotos deles fico feliz em como eles estão adaptados e amando mainha, que hoje, com quatro felinos, já admite a possibilidade de virar a ‘véia dos gatos’ num futuro próximo. Ela amanhece com Corisco em seus pés, Dadá em uma costela, Flor na outra e Amon-rá em sua cabeça. É uma cena engraçada de imaginar. Quando falo em trazê-los para cá, ela começa um discurso do quão adaptados eles estão na nova morada, acho que eles já são dela.

Dias atrás uma pessoa no Instagram falou sobre a solidão de morar fora de seu país, ela contou que é não estar perto nos melhores e piores acontecimentos. É saber pesar quem se é, é entender que muitas vezes as notícias chegam atrasadas, não se vai a nascimentos, aniversários ou mesmo velórios,  e essa também é a solidão que muitas vezes sinto aqui.

Este ano a missão de “ficar  para titia” será cumprida com sucesso, mas não estarei perto para segurar a mão de minha cunhada, de meu irmão ou meu sobrinho após o nascimento. Este ano mainha termina a construção de sua casa e não estarei lá na inauguração, mas sei que terá um quarto para mim. Este ano meu avô faria 100 anos, seria massa reunir familiares, brigar por política e comer bem muito. Acompanharei tudo de longe, mas feliz por eles e por mim.

Nunca me considerei de um lugar só, acabo tendo características e absorvendo conhecimento de todos os lugares que já pisei. Tenho meu farol, porto seguro e identidade firmados no Ceará, mas sei que me adapto e aprendo mais pelo mundo. Muitas vezes me vejo como uma árvore que conheci na Amazônia. Não lembro o nome, mas ela vai “andando” e à medida com que faz isso, cresce. Vou explicar – o Sol é algo disputadíssimo na Amazônia, pois as árvores são de grande porte, então quando uma cai ou abre-se uma clareira, há muita disputa de crescimento de folhas e galhos para conseguir aquela brecha de Sol. Essa árvore que citei “cria” raízes para o lado do sol e “muda de lugar”. Suas raízes não são fixas, ela procura as melhores oportunidades e caminha até elas.

Agora minha vida é nesse país menor que o Ceará, mas onde encontrei muito amor, acolhimento e luz para mover minhas raízes, não literalmente, porque pense país pra não ter Sol. O não pertencimento dói. Aqui precisei, mais uma vez, ressignificar minha solidão para que minhas raízes continuem a crescer.

*Texto escrito com a ajuda dos pensamentos de Jessica Miranda, socióloga política, filósofa estoica, feminista radical e melhor perfil para seguir no Instagram (@petit_oiseauu), do Podcast Mamilos – É impossível ser feliz sozinho – e da música Tudo Outra Vez – Belchior.*
Minha rede branca, meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo saudade como o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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