A sanha assassina de Putin

Como é triste constatar que em nome do marxismo se fez uma revolução contra a tirania czarista e que ao invés de caminharmos para aquilo que foi preconizado pelo próprio Marx, ou seja, uma sociedade comunista, sem estado, sem dinheiro, sem partidos políticos, e com igualdade de oportunidades e direitos, ocorreu uma decomposição de propósitos a ponto de termos oligarcas riquíssimos e um estado governado politicamente por um plutocrata assassino.  

Já se contam às dezenas de pessoas mortas misteriosamente e coincidentemente são aquelas que de alguma forma ameaçam o poder político de um homem que quer se perpetuar nesse mesmo poder de modo absolutista, em um país que mantém vivas e atuantes todas as categorias capitalistas, e que persegue, prende e mata seus opositores.

Não se justifica a invasão da Ucrânia e as mortes de civis por misseis aleatórios (crianças e velhos aí incluídos) apenas por não querer ser membro da tirania russa, e que acena para o ocidente com relações amistosas com a Otan, não menos capitalista e belicista, e que congrega países sob a forma política da democracia burguesa, uma aparente liberdade política na qual o absolutismo do capital predomina.

Nessa guerra absurda, à qual Putin denominou de Operação Especial, eufemismo que somente denuncia a sua falta de escrúpulos e tergiversação em dar o nome correto a uma agressão imperialista, já há dissenções entre o povo russo quanto à sua necessidade e que ameaçam o seu poder absolutista.
É neste cenário que vemos acontecer a morte de Alexei Navaldy, um corajoso opositor de peso (apesar das restrições que se façam a alguns dos seus posicionamentos xenófobos), que já havia sido alvo de tentativa de assassinato, mas que voltou à Rússia para lutar e que fora preso, condenado e mandado para uma prisão no ártico para lá ser assassinado.

Outras mortes sem explicações convincentes vêm ocorrendo, que passamos a enumerar de magnatas, políticos, mercenários e executivos de estatais, além de perseguições a jornalistas e pessoas influentes, todos mais ou menos dissidentes dos caminhos da guerra:
– o empresário russo Ivan Pechorin, principal gerente da Corporação para o Desenvolvimento do Extremo Oriente e do Ártico, foi encontrado morto em Vladivostok, no dia 10 de setembro de 2023;
–  o presidente da Lukoil, segunda maior petrolífera do mundo, empresa de capital aberto, Ravil Maganov, morreu no final de agosto de 2022, após cair da janela de um hospital de Moscou;
– outro alto dirigente da Lukoil, Alexander Subbotin, morreu um maio;
– o chefe da estatal de energia Gazprom, Leonid Schuylman, foi encontrado morto em sua casa de campo, perto de Leningrado;  
– Gennadi Lopirev, general russo que chefiou a construção de um palácio para Putin avaliado em R$ 6,3 bilhões, foi encontrado morto na prisão;
–  o magnata russo Pavel Antov, dono de uma empresa do ramo de suínos, foi encontrado morto em viagem à índia, e dois dias depois de um amigo de viagem morrer sob as mesmas condições;
– Andrei krukovski, diretor da estação de esqui Krasnaia Poliana, morreu após uma misteriosa queda de um penhasco;
– Serguei Protosenias, ex-vice presidente da empresa de gás natural Novatek, morreu em abril 2022, em missão na Espanha, juntamente com sua mulher e filha;
– Vladislav Avaiev, um multimilionário russo, foi encontrado morto juntamente com sua mulher e sua filha, em Moscou;
– Vasili Melnikov, bilionário da empresa de medicamentos MedStom, foi encontrado morto juntamente com sua mulher e dois filhos, na cidade russa de Ninzhni Novgorod;
– Yevgeny Prigozin, miliciano chefe do Grupo Wagner, mercenário a soldo do governo de Putin, antigo amigo de Putin, morreu em acidente de avião junto com outros assessores dele após ter contrariado e até ameaçado o Kremlin;
– Mikhail Watford, um bilionário russo, nascido na Ucrania, foi encontrado morto em Surrey, na Inglaterra, em fevereiro de 2022;    
  Em todas estas mortes misteriosas, por acidentes inexplicáveis e envenenamentos de pessoas influentes nos destinos econômicos e políticos russos, há um ponto em comum: a não adesão completa ou até mesmo discordância com o antigo membro da temida KGB (agora sob a sigla FSB),

Vladimir Putin, que há 23 anos está no poder (contando o tempo como Primeiro Ministro de Boris Yeltsin), e que quer continuar até 2031 ou enquanto viver.  
Dissemos em artigo publicado no início da invasão à Ucrania que Putin já havia perdido a guerra naquele momento, mesmo considerando a enorme diferença de forças bélicas e contingentes de militares da Rússia em relação à Ucrânia.  O resultado bélico previsível não se confirmou totalmente e a guerra se prolonga por dois anos.
Mesmo que Putin consiga ganhar a guerra ou apenas manter sob suas garras a parte leste da Ucrânia invadida por ele, isto não será positivo no balanço de perdas e ganhos, do ponto de vista econômico e geopolítico.

Disse isto porque a Rússia apesar de ser um país de dimensões territoriais gigantescas (a maior do mundo, com cerca de 17 milhões de km², o dobro do Brasil), e com baixa densidade demográfica (143 milhões de habitantes enquanto o Brasil tem 210 milhões), considerando o seu tamanho, e capacidade de se fechar intramuros para sobreviver, o seu povo deveria sentir profundamente o isolamento que viria a seguir (e que já está ocorrendo), especialmente num país que tem relações capitalistas externas e internas que necessitam de conexões com a economia capitalista globalizada.  
Mesmo que a China venha em seu socorro, por interesses geopolíticos do capital, e faça uma conexão com o restante da Ásia populosa, incluindo-se a Índia, que hoje é o país mais populoso do mundo, a Rússia de Putin deixará de ter algum protagonismo no cenário mundial para se submeter a uma nova ordem de blocos hegemônicos capitalistas que está a querer se consolidar num estágio de falência global.  

O capitalismo é canibalesco, e a disputa de mercado induzida por sua lógica, não permite solidariedade sem troco, e a pobreza de quem fica para trás logo aparece vitimando a maioria dos trabalhadores abstratos.  
Isto se o país de Putin, que tem a bomba atômica e está a ameaçar a humanidade, sentindo-se acuado, não acione a seu poderio bélico nuclear, e a humanidade seja destruída, ou ainda, se o aquecimento global não ocorra de modo a inviabilizar a vida animal e vegetal do nosso Planeta.

Ou superamos o capital e construímos uma nova ordem de convivência pacífica e solidária, ou vamos terminar despencando no abismo para o qual estamos sendo conduzidos pela insanidade de uma lógica de produção e organização sociais belicista e letal.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;