A revolução na Libertânia – Parte 2/2

O novo modo de produção aos poucos ganhava espaços sociais e os trabalhadores assalariados ainda vivendo sob o tacão da extração de mais-valia já eram vistos como fura-greves. Os sindicatos, contestados na sua função de sindicalismo de resultados, passaram a não mais reivindicar salários e empregos, mas a fazer o chamamento aos seus associados que se incorporassem nas indústrias e fazendas de produção sem remuneração e voltadas para a produção destinada à distribuição gratuita.

À altura, o grande embate sindical se dava entre as direções adeptas da tradicional reivindicação de melhorias salariais cada vez menos fortes na correlação de forças com o capital, em face do numeroso exército de desempregados, de um lado, e do outro, as muitas direções sindicais que haviam abandonado a antiga sindicalização de resultados pela crescente sindicalização emancipacionista consistente numa produção social fora da lógica do valor e do mercado.
Nas décadas anteriores as manifestações de ruas haviam sido reprimidas com violência e muitas mortes haviam ocorrido.
O embate de então se dava entre uma população desarmada e ainda crédula na representação política burguesa, de um lado, e do outro, as forças militares do governo que não podiam atender aos reclamos da população por absoluta falta de meios (o dinheiro cada vez escasso do Estado falido) e falta de vontade política. Os confrontos haviam descambado para carnificinas infrutíferas.
A proporção de mortes nestes embates em praças públicas era de 50 mortes para um militar morto. O mais impressionante é que muitas vezes entre os mortos estavam parentes próximos dos militares que a troco de um soldo mensal se voltava contra uma população desesperada.
Entretanto, uma nova forma de pressão popular contra a tirania social e ecológica do capitalismo ainda renitente passara a tomar forma impulsionada pela facilidade de comunicação que o próprio capitalismo introduzira: a comunicação via satélite que criara a internet e os celulares baratos de última geração capazes de reproduzir imagens e comunicação instantânea.

Os celulares (cada pessoa tinha um e cada um vivia agarrado à telinha, que passavam a ter força comunicativa como nenhum outro veículo) traziam frases instrutivas, debochadas e revolucionárias que calavam fundo nas consciências populares, tais como:
– “a mercadoria é o ópio do povo”;
– “não trabalhe jamais”;
– “a emancipação do homem será total, ou não será”;
– “as armas da crítica passam pela crítica das armas”;
– “abaixo o realismo socialista, viva o surrealismo”;
– “a imaginação toma o poder”;
– “é proibido proibir”;
– “não mude os empregadores, mude o emprego da/na vida”;
– “pare o mundo que eu quero descer”;
– “pela autogestão da vida cotidiana”;
– “não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo”;
– “os sindicatos são uns bordéis”;
– “professores, vocês nos fazem envelhecer”.
Assim, a doutrinação social sobre como obter os meios de subsistência e como ajudar na sua produção semiclandestina ganhava espaço e, mesmo sendo fortemente vigiada pelo serviço de inteligência do governo, conseguia burlar tal vigilância (inclusive graças ao número cada vez maior de participantes em relação à vigilância e perseguição governamental).

Quando alguém era visitado em sua residência por um policial para comparecer a uma delegacia de polícia sob a acusação de cometimento de crime contra a economia estatal, já era comum a retaliação solidária dos vizinhos e de uma força comunitária anti-repressão que se criara em cada bairro. O comparecimento à delegacia se dava sob escolta de um grande contingente de pessoas que inibia a prática de arbitrariedades.

O lema então vigente passara a ser “mexeu com um de nós, mexeu com todos!”. O sentimento de defesa comunitária havia se difundido de tal maneira que as forças de repressão passaram a ficar temerosas e enfraquecidas nas suas ações arbitrárias.
Sob tal perspectiva, aos poucos foi sendo difundida uma estratégia de ação para derrubar definitivamente o sistema capitalista combalido e sua força política e policial estatal protetora. Já se sentia o apoio e a força propulsora da revolução.
Marcada a estratégia de paralisação para uma data explicitamente combinada, amplamente difundida e sem precisar de códigos clandestinos que seriam facilmente decifrados, ela consistia simplesmente numa anti-ação destinada à destituição do poder vertical do Estado e instituição de uma ordem horizontalizada de decisões, ou seja, convocava-se a todos para que:
– estocassem em casa alimentos não perecíveis, água potável, gás de cozinha ou lenha para o suprimento do consumo por longo período;
– ninguém saísse às ruas num isolamento social anti-capitalista;
– quando alguém fosse ameaçado de ser preso, que se prendessem os prendedores graças à ação de grandes grupos de cada comunidade e de modo que os tornassem incomunicáveis como forma de barganha e pressão, bem como pelo medo causado aos próprios agentes policiais militares do governo;
– que não se revidasse a qualquer forma de confronto bélico nas ruas (ficar em casa era mais eficiente, pois o capitalismo precisa dos braços humanos a serem explorados).
No dia programado pela internet as ruas amanheceram e continuaram vazias.
As indústrias e as áreas de serviço (comércio e prestadores de serviços) ainda inseridos na relação de trabalho remunerado pela dinheiro (a mercadoria das mercadorias, e a única sem valor de uso) não tinham braços para dar vasão aos interesses do capital.

Inicialmente o governo lançou um decreto no qual ameaçava com prisão à população que não comparecesse ao trabalho. Mas tal decreto não surtiu o efeito desejado uma vez que sequer haveriam prisões, contingente policial e viaturas para tal empreitada, e a população já havia percebido que a correlação de forças já lhe era favorável.

Após 30 dias de paralisação completa das atividades econômicas todo o sistema capitalista fundado na forma valor começou a ruir em face de que todas as mercadorias perderam o valor de troca, vez que a moeda oficial começara a perder completamente o valor e o escambo não se mostrara factível; o próprio mercado se deteriorara de tal forma que já se tornara um espeço meramente marginal.

60 dias após a deflagração da “greve geral dos braços parados”, como fora batizada, veio a capitulação do governo e a proposição de uma nova ordem jurídica constitucional previamente esboçada na qual:
– se abolira as moedas;
– se abolira a propriedade e se entronizara a posse e uso efetivos como critério de ocupação de imóveis e unidades de produção;
– se criara cupons eletrônicos de abastecimento individual capazes de suprir necessidades de consumo mensal;
– instalaram-se centrais de abastecimentos nos bairros e grandes centrais em cinco zonas da capital e uma em cada cidade menor;
– criou-se uma nova constituição e leis civis e penais consentâneas com a nova ordem estabelecida;
– passara-se a se utilizar toda a tecnologia de produção social e serviços existentes de modo a que todos fossem abastecidos comodamente;
– ninguém ficaria à margem do processo de produção e de modo a que com o menor tempo de esforço se pudesse aproveitar todo contingente populacional no suprimento das necessidades de abastecimento alimentar, energético, de água, de habitação (inclusive com a produção de materiais destinados às obras), de transporte, de remédios, de atendimento hospitalar, de lazer (o ócio produtivo haveria de estimular as artes, as descobertas científicas, os inventos engenhoso e práticos, as práticas esportivas nas mais variadas espécies), de informação midiática plural, isenta e sem remuneração, etc., etc. etc.

As descobertas científicas que vão desde a engenharia genética até as vacinas e remédios, deixaram de ser reserva de mercado das patentes e das empresas delas detentoras e passaram a ser acessadas mais facilmente pela população que agora melhor compreendia o fato de que em nenhum produto ou serviço existia um grama sequer de dinheiro.

A população passou a compreender claramente que o dinheiro, ao invés de proporcionar a produção de bens de consumo e o acesso a eles, correspondia justamente ao seu contrário, e que com o novo modo de produção tudo passara a se libertar do jugo castrador da viabilidade econômica para a produção.

Com o surgimento dos contras, que diante das dificuldades iniciais de implantação passaram a tentar solapar a nova ordem instituída, e criassem grupos de adeptos saudosistas do poderio econômico e político que se lhes haviam sido destituídos, a evidência da justiça social em curso e perspectivas de progressos coletivos e abrangentes que se iniciavam eram suficientes para a contraposição eficaz da tentativa de volta ao passado.
Libertânia, mesmo com as ameaças externas, passara a ser exemplo mundial e a respirar outros ares; sua população passou a sentir júbilo por ter feito a revolução e ter sido o primeiro país a se emancipar do jugo da escravização moderna e cruel do capitalismo.

Quando se conhece a justiça, a segurança, a satisfação do consumo, a sustentabilidade ecológica e comodidade socialmente proporcionadas não há tentativa de retrocesso à injustiça que prospere!

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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