A retórica bolsonarista

Em 1945, a União Soviética derrotou o fascismo através de uma falha estratégica de Hitler. Não é intenção deste texto apontar falhas ou vitórias em nenhuma das duas partes envolvidas no confronto, mas observar o que aconteceu depois: quando Hitler soube da vitória soviética sobre o seu exército, não hesitou em cometer suicídio. O “terceiro reich”, como gostava de ser chamado, viu-se em face de todos os crimes que cometeu e preferiu a morte do que pagar pelos seus atos. Na Itália fascista, Mussolini teve um final diferente do líder alemão; o fundamentalista italiano foi assassinado em praça pública, colocado de cabeça para baixo e linchado post mortem.

Umberto Eco, estudioso desses fenômenos populares, descreve em um de seus livros a essência desses movimentos totalitários. Para ele, o fascismo não possui uma ideologia concreta, uma “quintessência” ou “sequer uma essência”. Os fascistas não buscavam uma sociedade organizada por regras, moral. Em teoria, é muito parecido com o anarquismo, mas estes irão se diferenciar na prática.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil?

O bolsonarismo, como ficou popularmente conhecido o modelo de dominação intelectual de Bolsonaro em cima da massa brasileira, se assemelha muito ao que Eco entende como fascismo. O método de Bolsonaro dá-se de forma aleatória, buscando brechas para fincar suas raízes em alguma problemática social que exista. A corrupção que aconteceu nos governos petistas foi um solo fértil.

No debate que ocorreu no último dia 16 entre o atual presidente e o candidato de oposição, Bolsonaro deitou e rolou em sua retórica. Mencionou o petrolão, mensalão e muitos outros escândalos que surgiram durante os anos de governos petistas, mas vale ressaltar uma coisa: o PT pouco esteve envolvido nesses escândalos. Uma matéria publicada em 2021, quando Bolsonaro filiou-se ao PL, seu atual partido, mostra que a sigla estava no centro do Mensalão e foi denunciada por um de seus apoiadores no cenário atual, Roberto “Bob” Jefferson, impedido de ser candidato pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Por que Bolsonaro, hoje, se juntaria com pessoas que lucraram de escândalos de corrupção? É fácil responder essa: faz parte do seu plano. O fascismo é desorganizado por natureza; não se baseia em metas, métodos e moral para fazer sua política, mas em desestabilizar a sociedade a ponto de instigar uma “revolução”.

Onde quero chegar com isso? O bolsonarismo, em sua essência, é fascista. Uma bola de ideias desorganizadas que vai absorvendo mais e mais questões e necessita de caos para funcionar. Bolsonaro governa através do caos, criando cortinas de fumaça para esconder seus atos mais obscuros. Rebate suas acusações com falsas dicotomias, falácias, mente porque é a única forma de governo que conhece.
Sua metodologia, ao menos o que podemos observar, cultua tradições, ignorava o avanço tecnológico e a modernidade. Para isso, ele precisaria de uma nova fonte de saber: Olavo de Carvalho. O escritor que, por opção, refugiou-se no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, foi fundamental para criar a identidade de “antistablishment” que Bolsonaro veste como sua segunda pele. O atual presidente busca acolhimento em fundamentalistas religiosos para que, assim, possa perpetuar uma espécie de perseguição, colocar-se no papel de vítima.

Podemos observar também a ausência de pensamento crítico, agir antes e pensar depois. Goebbels uma vez declarou que sempre que ouvia falar de cultura pegava sua pistola. O pensamento, para os fascistas, é uma forma de castração. Dentro das universidades federais, temos solos férteis para o livre pensar, exploração cultural de novos horizontes. Fascistas não admitem isso. O publicitário nazista acreditava que as universidades eram ninhos de comunistas. O espírito crítico é uma forma de abraçar as diferenças, olhar para o futuro e o fascismo – ou neofascismo, fascismo eterno – não admite discordâncias.

Quando falamos de violência, entendemos ainda mais porque o fascismo precisa dela para existir. Uma sociedade pacífica não é palco para obediência, mas, sim, pensamento crítico, discussões civilizadas. Significa que o trabalhador pode entender cada vez mais sua importância na sociedade, discutir com seus iguais, organizar- se e procurar mudar sua realidade. Quando existe guerra, não há paz entre os iguais, consequentemente, não se rebelam contra os opressores.

Em suma, a retórica bolsonarista buscou muito do que foi o fascismo de Mussolini, Franco e Salazar para moldar suas ideias. Por mais que não exista uma fórmula concreta do que é o fascismo, todas se moldam em uma só ideia: a desordem.

Erico Cardoso

Erico Cardoso é jornalista e assessor. Apaixonado por política e linguística. Estudou na Universidade Federal do Ceará, foi membro do Comitê de Imprensa Internacional da UFC. Teve artigo publicado no livro “Ciências Sociais Aplicadas: Contextualizando e Compreendendo as Necessidades Sociais”, da editora Conhecimento Livre.

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