A razão de Clauder Arcanjo – CLAUDER ARCANJO

Fui informado de que, em virtude do meu convívio no tratamento de Covid-19 do Companheiro Acácio, eu deveria cumprir quarentena.

Quis me indispor contra tal orientação médica, mas a razão falou mais alto e aqui estou, recolhido neste quarto da rua Mateus Mendes, 75. Longe de tudo e de todos, a receber a refeição quase por debaixo da porta.

Quatorze dias? indaguei ao Dr. Tito Arcanjo.

Sim. Nem um dia a mais nem um a menos. Por sua e pela nossa saúde respondeu-me, sem dar margens a espichar a conversa.

Cerquei-me da companhia dos livros. Liguei para a minha Biscuí e solicitei a presença de Dostoiévski, Tolstói, Machado de Assis, Lima Barreto, Clarice Lispector, Joseph Brodsky, Moreira Campos, Drummond, Gullar, Miguel Torga, Cecília Meireles…

Chegaram ao final da tarde dentro de uma sacola asséptica. Todos os volumes ensacados e, como conheço minha esposa, esterilizados. Acima deles, um bilhete: “Eu te amo. Logo estaremos juntos. Da sua amada Biscuí”. Uma lágrima quis acusar a minha emoção, engoli-a; em seguida, recitei um verso de Vinicius de Moraes: “Em tudo ao meu amor serei atento…”.

Clauder Arcanjo, Clauder Arcanjo?!

Alguém me chamava lá fora. Fui à janela com vistas à Praça do Poeta (o quarto era no piso superior da nossa residência), a fim de identificar quem me convocava. Imagine, caro leitor?

Sim, acertou, o Companheiro Acácio. Fazia-se acompanhado  da legião da Scotland Yard de Licânia (SYL).

Oi, pessoal, tudo certo? Aonde vão assim, mascarados? incitei-os, tentando extrair um ar de graça do meu árido isolamento.

Em primeiro lugar, Arcanjo, um dos nossos montará guarda frente à sua residência; não se atreva a descumprir as ordens da quarentena. Em segundo, estruturamos três contingentes de ataque à pandemia em Licânia. Aproveito para lhe explicar o plano: um dos grupos ficará sob o comando do eminente Cabo Jacinto Gamão. Ele será o responsável pelo fechamento das fronteiras da província, bem como de vigiar as ruas no que tange ao lockdown. O segundo, capitaneado por mim, realizará as pesquisas científicas para a cura desse mal. O terceiro, reduzido e liderado pelo protofilosófo João Américo, expedirá os decretos, as recomendações, assim como o bloqueio das fake news que porventura queiram atrapalhar o nosso trabalho.

E eu, onde me incluo? perguntei.

Tão logo acabe a sua quarentena, Clauder Arcanjo, você se juntará à equipe do João Américo. Como é chegado às letras, proponho que seja o encarregado de emanar os informes à sociedade licaniense. Por ora, cuide-se. Daremos notícias! falou em linguajar de comando, voltando-se aos que o acompanhavam, a bradar:

Valorosos combatentes! Dividam-se, a partir de agora, conforme o acertado na reunião desta manhã. Não se esqueçam de serem fiéis ao juramento prestado à SYL. A crise é enorme, todavia bem maiores são a força e a energia da união. Nunca Licânia deveu tanto a tão poucos, saibam que assim nos agradecerão. A História não pranteia os fracos. Morte à Covid!

Um toque de corneta rompeu a quietude daquele fim de tarde, assanhando o passaredo e debandando o agrupamento em torno de Acácio.

O anúncio da noite iminente banhava de sangue o Serrote da Rola. Um silêncio se fez companheiro meu ao retornar para a minha rede. Abri Humilhados e ofendidos, de Fiódor Dostoiévski, e entreguei-me à leitura. Por entre a prosa do notável russo, lembranças dos sofrimentos, que presenciei ao acompanhar o internamento do Acácioassomavam-me à mente, a quererem se intrometer nos dramas e tragédias a se darem em São Petersburgo.

O sono não me vinha. Se os olhos queriam pesar, um choro varava os ares de Licânia, seguido do toque cavo do grande sino da Matriz de Sant’Anna a anunciar mais um óbito pelo coronavírus.

Inquieto, contei até a casa das vinte badaladas. “Meu Deus! Vinte perdas somente num dia?!

Levantei-me, vesti-me depressa, decidido a ganhar a rua. “Não posso ficar aqui, entregue ao prazer da leitura, enquanto a morte grassa pelo meu torrão!”

Mal abri a porta, Aristides, armado com duas baladeiras, uma espingarda soca-a-soca e um cacete de jucá, ordenou-me, generalescamente:

Volte, continue a sua quarentena, senhor Clauder Arcanjo!

Mas, amigo Aristides, você me conhece, não aguentarei ficar isolado a assistir à Mulher da Foice promovendo tanta desgraça nos lares!

Entre. Cumpro ordens do Comandante Acácio. Não queira que eu recorra ao império da força e

Enquanto Aristides falava, senti que ele descuidou-se do bloqueio do portão; eu, liso como um muçum, pensei: “Vou escapar!”, e fiz carreira.

— Ai!…

O cacete de jucá atravessou o meu caminho, levando-me a cair em “profundo sono, sono que, até então, não me socorrera.

Sim, amigo leitor, eu levei uma cacetada no alto do cocuruto. Aristides fora rápido que nem um ninja no uso do cacete.

Estou agora sendo arrastado para o interior da minha cela. Atordoado, não poderei continuar este relato.

Darei notícias no capítulo seguinte.

“Ô cacetada porreta!” entreouvi.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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