A RAZÃO DA DOENÇA EM COMPANHEIRO ACÁCIO – por Clauder Arcanjo

Não o vi ontem, muito menos hoje. Preocupado, mandei recado por um amigo comum e, de repente, a notícia: Companheiro Acácio tivera graves problemas de saúde. Cuidei de ir ao seu encontro. Já se achava, graças a Deus, em casa, depois de quase uma semana internado com o quadro de um AVC isquêmico.

— Acácio!?…

Ele encheu os olhos de lágrima ao me ver; sempre fomos derretidos, de nascença. Costumávamos brincar, solfejando a música do Zeca Baleiro: “Ando tão à flor da pele / que qualquer beijo de novela me faz chorar…”.

De imediato, abracei-o, fortemente.

— Você está proibido de nos dar este tipo de susto, velho Acácio!

— Em primeiro lugar, coloquemos tudo nas bases certas, não sou velho. Ouviu-me? — Alertou-me Acácio, britanicamente.

E abriu uma janela de riso em um rosto pálido ainda. Na certa, pensei, consequência da internação hospitalar.

Ofereceu-me um café donzelo, o que de pronto aceitei; e passamos a conversar na cozinha. Um ambiente prático e bem mobiliado, cada coisa no seu devido lugar. Companheiro é um dos homens mais metódicos e ordeiros que conheci, e não seria um simples AVC que o tiraria de prumo, pensei cá comigo.

Pôs a água na chaleira de ágata e narrou, ao seu modo, o acontecido.

— Amigo Clauder Arcanjo, a vida é algo deveras frágil. Desculpe-me o lugar-comum. Fui à Festa Literária de Paraty, onde esperava discorrer acerca de um tema que me é muito caro: “Literatura e resistência”, e o corpo me pôs nos braços do esquecimento, da desmemória.

— Da desmemória, Companheiro? — Indaguei-o.

— Meu amigo Arcanjo! Sim, da desmemória. Ou do esquecimento, se você prefere. Explico. Acordei na sexta, 12, tomei meu café ainda na madrugada, tirei a barba com vagar, sempre refletindo acerca das coisas da vida (fato que me é corriqueiro), e entrei no chuveiro para tomar o meu banho frio, quando… — Calou-se e, de pronto, baixou a face lívida, como a mergulhar num silêncio frio das catedrais.

— Acácio, caso lembrar tudo ainda lhe…

Ele elevou a mão esquerda, como a me pedir um tempo.

— Falar, lembrar, revisitar… dói, mas constrói o novo, bem sei. Não posso fugir dos meus dramas, tenho que encarar meus espectros, caso queira sair de tudo ainda mais forte! — Vituperou, quase em foros de mercurial tribuno.

De socapa, ri satisfeito. O velho Companheiro é madeira que cupim não rói, pensei comigo.

Com pouco, sereno e didático, discorreu acerca de sua falta de memória mal entrou no banho, da brancura que invadiu a sua mente, da perda de sentido de posição e referência, da sensação de náufrago num mar de escolhos.

— A literatura tem me cobrado muito. Aliás, a vida tem me exigido muito. Os tempos de hoje, Clauder Arcanjo, não têm sido fáceis para aqueles que sentem tudo no corpo e na alma. A desesperança a aumentar a minha pressão arterial, o peso da falácia dos políticos a corroer a articulação dos meus joelhos, a eleição das causas menores pelos representantes do povo a estourar as minhas artérias, e… eu tenho limites. Eu tenho limites!… E meu corpo extenuou-se e, por muito pouco, não recebi a passagem para o encontro definitivo com o barqueiro Caronte! — Gritou-me, em desespero.

Abraçamo-nos e choramos novamente, juntos.

— Não fale mais, amigo Acácio. Por favor, não abordemos mais isso. Você agora está bem e vai se cuidar. Quando me falaram do seu risco de morte, eu pensei: Acácio nem sabe que seu óbolo é falso e que, caso fique frente a frente, nas águas turvas e revoltas do Hades, com Caronte, ele nos devolverá o seu corpo e o seu espírito ao perceber que sua moedinha é falsa. Sim, pode rir; precisamos muito de você, seu cabra. Você nos representa muito. Você não é um, é cem. Cem com “c”, não com “s”. — E gargalhamos, hiperbolicamente.

Ao voltarmos para a saleta de seu apartamento, eu reparei que, sobre a mesinha junto à velha cadeira de balanço, repousava a nova edição da obra Fronteira, de Cornélio Penna.

— Não seria o caso de uma leitura mais leve, Companheiro Acácio? Sem falar que essa nova edição trouxe algumas falhas… — Intrometi-me, professoralmente.

— E você entende da relação do AVC com a literatura, Clauder Arcanjo? Pelo visto, se estivesse sob os seus cuidados médicos, com certeza me prescreveria O pequeno príncipe. Estaria eu certo? — Atacou-me.

Recolhi meus argumentos, limpei as lágrimas que desceram para a garganta, enxuguei a face cinquentona e concluí: “Não há mais homens assim. Deus há de o manter, por muitos e muitos anos, entre nós.”

Cuidei de me despedir, alegando compromissos outros.

Antes de sair, Companheiro Acácio chamou-me ao canto; e me confidenciou, rodriguianamente:

— Toda mediocridade literária será castigada! Isto, de hoje em diante, é caso de vida ou morte para mim.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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