A Quimera dos Bons Hábitos – por LUANA MONTEIRO

Marcos Marciano era um jovem engenhoso. Na sua cidade, no interior do Estado do Ceará, era conhecido pelos seus inventos. Construções de todo tipo, feitas em madeira, metal e até engenhocas em papel Marciano fazia.

Certa vez foi convidado por uma equipe de cientistas para auxiliar o fabrico de uma grandiosíssima engenhoca que poderia ir para o espaço. Se foi, Marciano de fato não sabe. O que não é bem uma informação relevante já que todas as vezes que dava seu currículo quando alguém lhe questionava sobre um trabalho ele afirmava que o tal artefato fora para espaço e que de lá mandava muito suporte para os ilustres cientistas.

Aquele havia sido um trabalho de muito orgulho para Marciano, apesar dele não o ter inventado, mas reproduzido de vários documentos trazidos pelos estudiosos. Marcos gostava mesmo era de criar, “- algo muito novo e muito ilustre”! respondia ele quando alguém questionava sobre qual seria o novo invento.

Já tinha criado uma variedade de coisas que uma dúzia de cabeças não poderia ter pensado. E disso ele muito se alegrava. Tinha desenvolvido um sistema de coleta e separação de lixo, um sistema de reciclagem de plásticos, um mecanismo rápido e barato de reaproveitamento de águas utilizadas dentro de casa. E agora Marcos Marciano pensava em fazer um observatório do céu, dizia ele que seria o novo cinema da garotada da cidade. Ele gostava mesmo era de observar as estrelas.

Marciano sabia de tudo. O que Marciano desconhecia era que tinha um hábito que deixava todo mundo enfurecido. Sabe aquele costume ruim que depois que a criança cresce não tem quem mude? Então assim era Marciano, ele não conseguia fechar portas.

Tanto invento criado, tanto conhecimento acumulado, mas Marciano não conseguia interpretar a complexa função que poderia ter uma porta. Por onde ele passava, podia ser pela porta da frente da casa de algum conhecido ou do próprio banheiro, alguém tinha que ir logo atrás de Marquinhos para não correr o risco de deixá-la aberta. Antes a vizinhança se preocupa e dizia – “Marquinho olha a porta! De nada adiantava. A pobre mãe de Marcos então, como sofria! Passava os dias a fechar porta atrás de porta pelos lugares onde o filho havia passado. Na geladeira então… essa havia recebido horário de funcionamento e para acessá-la, Marcos Marciano precisava da porteira oficial, a senhora sua mãe.

Certa vez indagado desse seu hábito por um colega da região, Marcos se pôs à primeira vez a pensar profundamente na questão. Depois de alguns minutos, eufórico, encontrou uma solução: ora, mas veja que bem eu trago, eu deixo as portas abertas para que boas coisas entrem. No fim das contas eu abro portas! A frase final Marciano ficou a repetir, “eu abro portas!”

Ele não percebeu o seu mal, gastou seu pensamento para garantir que seu hábito era no mínimo benéfico. A cidade continuou incomodada com a mania louca de seu conterrâneo e Marciano recebeu o carinhoso apelido de “o homem que não fecha portas”.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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