A PROJEÇÃO – Jair Cozta

 

Certa vez, nos primeiros anos já trabalhando como produtor cultural, recebi uma ligação de uma produtora executiva de filmes, especificamente. Alguém com quem eu havia trabalhado em um projeto me indicara para colaborar como assistente de produção em um filme de um importante cineasta cearense.
Na ligação, a voz de contralto de uma mulher me dava bom dia, apresentava-se e fazia o convite. À época, os recursos eram menores, as condições eram muitas. Não recusei e fui, assim, organizar-me para uma não tão curta estadia na região que tem por nome Cariri, mais especificamente a cidade de Crato, no Ceará.
O trajeto era longo, horas infinitas como as estrelas se sucederam no ônibus que saiu de Fortaleza. Cheguei em Juazeiro do Norte, peguei um outro ônibus e segui para o Crato, município vizinho.
Ao chegar na casa alugada para a equipe de produção do filme, deixei as malas em um dos quartos e corri para a sala, onde auxiliaria a produtora na realização de um teste de elenco com meninos de idade inferior a 12 anos. Seria o papel do protagonista do roteiro a ser produzido. Por ter experiência com teatro e por ser uma equipe de “um por todos e todos por um” (comum no mundo malabarístico da produção artística no Brasil), lá fomos eu, a produtora e o diretor selecionar os candidatos.
O diretor optou por trabalhar com um elenco composto quase que predominantemente por pessoas residentes da cidade, o que é um desafio, digamos… homérico! Um ato lindo e digno, mas desafiador. A maioria das pessoas não possuía experiência com atuação para cinema nem para televisão. Porém, para nossa alegria em forma de cala-te boca, o Cariri é um polo de cultura e arte – múltiplos artistas era o que não faltava. Havia, inclusive, famílias cuja trajetória das últimas quatro gerações era repleta dos mais sublimes artistas do teatro de rua, palhaços e dançarinos.
Na triagem, montamos o elenco e encontramos figurantes. Mas eis o problema: a criança protagonista não havia se revelado ainda. Muitas crianças sugeridas por inúmeras pessoas e nenhum menino que pudesse desempenhar o tal papel. No terceiro dia, como se Jesus ressuscitasse e se apresentasse a nós, eis que surge um menino interessado em fazer o teste. Aliás, a mãe parecia mais interessada do que ele. Contava, sem sequer fazer uma pausa para engolir a saliva, o quanto ele era desinibido, inteligente, expressivo e como se apresentava bem nos eventos da escola.
Demos a oportunidade para a criança mostrar seu potencial. Meia hora depois, era ele o ator para o papel de protagonista. Chamava-se Abel.
Abel decorou a primeira parte do texto do roteiro em dois dias – as crianças são surpreendentes. Queria voltar no tempo só para me dar umas dicas de estudos e prevenir a defasagem de alguns conhecimentos que tenho hoje em vida adulta, mas a vida só segue, nunca para totalmente e nunca volta (retrocede arquetipicamente, mas nunca volta ao mesmo ponto onde nos equivocamos).
As primeiras gravações foram um milagre. O menino correspondia a todas as orientações da direção e da produção. Naquele lugar, pelo que sei, o improvável só poderia ser um milagre. Parecia que, naturalmente, Abel entendia todos os estímulos que dávamos a ele para criar um personagem forte e presente em cena. Não era uma inteligência científica, mas a sabedoria que só na infância conseguimos deter. A infância é o reino da imortalidade e, nele, toda criança é capaz de grandes proezas artísticas e sensíveis.
Mas como a maioria dos milagres, sempre há o pagamento da promessa para a graça concedida. Não custou muito para nosso ônus divino ser cobrado.
O filme já estava em um processo extremamente adiantado de produção, o que significa que os recursos para isso estavam também sendo gastos. Não tão repentinamente, o Abel, nosso pequeno estreante, começou a se sentir exatamente como o cinema e a TV prometem: sentia-se uma estrela.
Começaram os atrasos, as notícias trazidas pela mãe de que ele faltava às aulas na escola e usava o filme como justificativa… Era grave e as tentativas de conversar pareciam não surtir efeito. A criança começou a empregar uma espécie de tortura chinesa durante as filmagens, exigindo pequenos absurdos, recusando toda comida que não fosse a que ele gostaria de comer, não querendo usar o figurino por não gostar do tecido ou da cor e, pior, interrompendo as gravações para pedir qualquer coisa que viesse a sua cabeça.
A exemplo, certa vez Abel recusou-se a continuar no elenco do filme se não arranjássemos de imediato um pote de sorvete com pedaços de abacaxi para ele.
“Mas tem que ser aquele com pedaços de fruta, que nem da propaganda!”, exclamava com ar imponente.
Era uma novidade na época, e em todos os cantos o maldito sorvete com pedaços de frutas era a notícia. Não estranhe a exaltação, caro leitor. Abel não se chamava Caim à toa. Nasceu para ter esse nome, Abel, e tirar o sossego de alguns com sua altivez de um semideus ou com sua vaidade de um príncipe nascido sob o signo de leão e sucessor da coroa de algum reino escandinavo. Era tão consciente de suas qualidades que parecia sempre inabalável; só chorava para atuar em uma cena ou para nos chantagear de alguma forma durante as gravações.
O nosso desespero era: onde conseguir a promessa da televisão na cidade? Era isso o sorvete com pedaços de abacaxi. Por azar a novidade acabara nas sorveterias do Crato. Lá foi-se a produção comprar o sorvete em Juazeiro. Acabara lá também. Seguimos para Barbalha sem esperanças – mais um milagre: tinha o sorvete. Colocamos em duas caixas de isopor para não derreter no trajeto escaldante. Voltamos. As camisas suadas. Tenho sustentado a promessa de nunca comer sorvete com abacaxi e nem ter filhos desde então.
Retornamos com o sorvete. Abel abriu um sorriso parecido com o sol saindo às cinco da manhã, em seguida o sorriso desceu 20 graus como que desapontado:
“Ah, esqueci de pedir para ver se tinha o de morango. Depois pensei que o de morango seria melhor.”
Respirando fundo como um dragão antes de lançar chamas pela boca, fui à cozinha, peguei colheres, xícaras, tomei de Abel o pote de sorvete e servi o bendito delícia de abacaxi, como o chamaram depois, a todos. Sentamos no chão e comemos o sorvete inteiro com a fome de quem tenta entender a infância, mesmo tendo eu passado por ela e sinta que a revisitarei para sempre. Ávidos não só por entender aquele menino conscientemente lúcido de seus poderes naquele momento, certo de que, àquela altura, jamais poderia ser substituído, mas também por compreender a dimensão do que nós mesmos podemos causar na vida de uma criança. Tínhamos que escolher entre ele e o filme que já estava com metade dos recursos gastos. Ainda que não fosse uma escolha, tínhamos que escolher Abel pela responsabilidade que socialmente herdamos quando compactuamos com essa forma de enxergar o mundo e de entender o poder que se tem.
A produtora executiva não o suportava. Para ela, o menino era um pequeno demônio cheio de vontades e sem limites. Ela culpava os pais, muito embora eu acreditasse que ele também agia assim com os pais. Há quem crie os próprios pais antes mesmo de criarem a si mesmo. Há quem entenda o poder e queira desfrutar dele porque nós, o mundo, dizemos que é assim que as coisas são. O nosso papel ali, como artistas, era dar uma outra perspectiva para aquele menino cheio de desejos, alguns distorcidos por uma indústria que narra formas de vidas desesperadas, autodestrutivas e egocentradas.
Costumo dizer que aquela experiência com o filme foi o mais próximo de uma obra cinematográfica que vivi por lampejo dos movimentos divinos. Hoje não atuo em produção executiva de filmes. A outra produtora mudou de profissão – não sei se por medo do pequeno Abel, que cresceu e formou-se na primeira turma de teatro de uma instituição público local, segundo me disseram, ou por achar outros lugares para realizar-se.
De minha parte, exceto o sorvete de abacaxi que saiu de meu cardápio, não mudei muito de espectro profissional, mas carrego a lição do menino que me ensinou como estamos imersos na neurose coletiva de poder, da qual uma criança sequer consegue sair ilesa senão pela sensibilidade de alguém que nunca quis crescer de fato e que tenta olhar o mundo, ainda que teimosamente, sob a ótica de uma criança lúcida.
Recentemente me veio, assombrosamente e no meio de uma noite calorenta, o desejo de ser pai, como sendo acometido meu coração pela mão de Nanã após me ver amando um atípico rapaz meio Oxóssi meio Oxum. Tive medo de ver crescer minha possível filha neste mundo como ele ainda está. Voltei a dormir e sonhei quebrando uma antiga promessa que fiz: nunca mais comer sorvete de abacaxi.

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é concludente do Curso de Bacharelado em Letras pela UECE, sendo também revisor de textos, poeta, ilustrador e ativista queer. Atua como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza desde 2016 e foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca. Idealizou o primeiro Festival de Canto de Fortaleza realizado em 2017 e 2018

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