A privatização tucana, a pausa petista, a ponte para o futuro do centrão e a agenda do Posto Ipiranga

Terceiro ano do governo Bolsonaro, eleito em 2018. Entra o país em 2021 com duzentos mil mortos na pandemia e um enorme desencanto com o desastre da gestão em todas as áreas. Não há absolutamente nada a comemorar ou mesmo a  registrar de positivo nesses dois anos de bolsonarismo. A começar pela economia, tudo parece piorar, desmoronar, destruir-se, atrasar. Não há uma única liderança administrativa ou política a ser minimamente aplaudida ou reconhecida no governo federal.

O que segura o governo, então, que só recebe oposição nos assuntos menores e irrelevantes, e no que importa continua apoiado pela imprensa e pelo que se chama mercado? Um olhar em perspectiva ajuda a mostrar o que para muitos é óbvio faz tempo.

Fernando Colllor puxou a conversa do choque de capitalismo, a embalagem luxuosa para a privatização. O mercado queria as estatais. Collor cai, Itamar nem aceita conversar sobre o assunto, FHC retoma tudo, mas entrega menos da metade. Lula e Dilma botam o dedo no suspiro. Temer recomeça e agora Guedes promete aloprar e, literalmente, vender tudo.

A turma petista era realmente ruim de transa, os caras não sabiam conversar e negociar os grandes projetos dos grandes investidores, eles eram meio sem jeito para essas tratativas, bons, mesmo, nessas ocasiões e para esses objetivos, eram os tucanos, os caras tinham charme e facilitavam o processo. O único problema destes bichos emplumados: eles eram lentos. Em oito anos, aconteceu menos da metade do que se planejou. Mas, como eles diziam que iam ficar vinte anos, pelo menos, no poder, todo mundo acreditou e teve paciência. Deu no que deu.

Entram os petistas e empatam o samba. Ganham quatro eleições seguidas. Quatro eleições iguais: mesmos adversários, mesmos discursos, mesmas campanhas, mesmo país, mesmos eleitores, mesma mídia, mesma justiça eleitoral. A paciência acabou, claro, ninguém é de ferro. Foram 12 anos de espera inútil, os investidores não aguentavam esperar mais quatro.Foi preciso recorrer ao tapetão, já que não dava pra ganhar nas quatro linhas.

Foi aí que se desenhou a Ponte Para o Futuro, que, justiça seja feita, os petistas recusaram, mas o Temer encampou na boa, sem bronca, sem constrangimentos, sem fazer maiores questionamentos. Mas também não executou a íntegra, conseguiu passar só parte “da boiada”. Aí é que entra o Posto Ipiranga e sua negociação com o candidato em que ninguém acreditava (só que a partir de um certo momento quem importa passou a acreditar, afinal, tinha que tirar do Planalto “aquela gente” radical, ou seja aquela gente ruim de transa).

Depois deste resumo resumido, estamos nos aproximando da metade do mandato do Capitão e seu Posto Ipiranga (ou será o inverso, o Posto Ipiranga e seu Capitão?) e a “Agenda” vai se arrastando. Ainda não privatizou a Eletrobrás, ainda não entregou totalmente o pré-sal, ainda não implantou a Capitalização na Previdência (com financiamento garantido de uma CPMF), nem os Correios e por aí vai. Para não dizer que não falaram de flores, passaram estes dias o tal Marco do Saneamento, vá lá. O fetiche do Guedes é o mercado de previdência de 500 bilhões de reais por ano, ele quer privatizar, impor a capitalização individual e garantir a desoneração da folha para as empresas com a recriação da CPMF. Este é o pacote completo que ele parece ter prometido ao sistema bancário privado.

O problema parece estar numa encruzilhada entre sustentação política e agenda econômica. Se a agenda econômica for entregue, a sustentação política fica sem uma perna. Se não entrega a agenda econômica, de que adianta dar sustentação política? A quem interessa andar ligeiro, a quem interessa andar devagar? Uma coisa é certa: não parece ter boa chance quem aposta no conflito entre o Posto Ipiranga e o Capitão. As coisas ganham dinamismo próprio e a economia sempre se entende com a política.

Só que a banda não para de tocar  e a dança continua. Uma dança macabra de doença e morte, de declínio econômico e destruição administrativa lenta (mas firme), surda (mas profunda) e generalizada (para onde você olha há fogo, fumaça e entulhos). O ambiente até entre as pessoas está passando de tóxico a radioativo.

Depois do 6 de janeiro até algumas pessoas menos inteligentes passaram a compreender que o Brasil está sendo destruído. E que estamos prestes a passar do ponto em que não há mais retorno.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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