A primeira vez que eu mudei, por JESSIKA SAMPAIO

Deadline. Se você conhece essa palavra já deve ter ficado aperriado ou aperriada com o trabalho a entregar. Essa sou eu hoje. Estou mais uma vez de mudança, a sexta em pouco mais de três anos e com um pouco de atraso com meus compromissos literários. Não passei seis meses em cada lugar, passei 3 em um, 1 ano em outro, 9 meses em outro… Para alguém que ficou mais de 20 anos no mesmo apartamento, com móveis imóveis (eram projetados), cada mudança é uma nova oportunidade de criar um mini paraíso. Um recomeço e reconhecimento de si e do que realmente se precisa.

Quando mudei de país, no início do ano, tive que decidir o que trazer em 23 quilos despachados e 12 quilos na mão. A mala passou um pouco do peso, mas deu certo. Trouxe livros, bota de trilha, algumas poucas roupas, minha lancheira do Star Wars, minha mochila, meu computador, creme de cabelo, rapadura, massa para tapioca e cuscuz. Mesmo sem crer em Deus quase rezei para que minha mala não fosse parar na imigração. Como eu iria explicar que cearense leva comida para onde vai com um inglês fuleragem que eu trazia na cabeça?

As coisas caminharam bem mesmo sem a reza, mas até hoje acho que foi a reza de mainha e da minha avó. Sei que ainda tenho cuscuz, tapioca e rapadura, inclusive, agora enquanto escrevo como um pedacinho de rapadura. Vim para morar por um tempo na casa de uma amiga em Diepenbeek, cidade pequena de Limburg,  e agora vivo em Hasselt, capital de Limburg.

Dessa vez moro com o boy. Estou aqui na Bélgica arriada os quatro pneus por um rapaz que gosta de vídeo game, é tímido e estranha quando fico muito tempo calada. Fico feliz por me permitir isso, mas voltando… As mudanças. A minha primeira foi para a casa de uma amiga, sempre meus amigos queridos.

Levei um colchão, roupas, dois gaveteiros, uma mesa de estudo, minha TV pequena e fiz a mudança com minha cunhada. Não queria homem envolvido em nada daquilo. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento que fodeu minha cabeça e fazer coisas por mim e “sozinha” era necessário. Lembro tanto da primeira noite. Demorei a pegar no sono, mas foi uma noite muito boa, exceto pela briga da vizinhança. Teve até polícia no meio.

O que mais tenho aprendido com as mudanças é aproveitar cada momento da estadia. Sim, estadia, pois estamos nessa vida terrena por um período limitado e cada momento é passageiro.

Então a cada novo lugar, uma nova estadia. Entender como meu corpo vai funcionar naquele lugar e definir o que vale manter da antiga vida são coisas que me fazem crescer como bicho gente. Acho que três coisas eu trago comigo desde a primeira mudança: o desejo de um lugar para estudar/escrever, guarda-roupa organizado, espaço para livros e um lugar limpo. Com isso minha cabeça funciona melhor e acabei de perceber enquanto escrevo.

Hoje precisei fazer muitas coisas pela primeira vez, não sobre a mudança em si, pois ela vem acontecendo há um tempo, mas aqui tudo tem que ser explicado, se pessoas vão morar juntas é preciso que o governo saiba, principalmente se for estrangeiro. Fui à prefeitura, fui à advogada, fui a um jardim japonês para passear com o boy e pedi sozinha, pela primeira vez, peixe frito (Sempre que peço comida me vem uma agonia de vir a comida errada, mas veio certa). Não há necessidade de muita coragem para se fazer uma coisa pela primeira vez, mas é necessário estar disposto a aprender, escolher o que fica para si e a acolher as responsabilidades. Mas um coisa eu falo pra vocês, mudar nos faz mais leves, tanto na cabeça, como nas coisas. Ter menos, muitas vezes, é ser mais.
Mudar, pra vocês, faz crescer ou temer?

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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1 comentário

  1. Luana Monteiro

    Oi Jessica! A mudança pra mim, apesar de vir acompanhada de alguns medos, me faz crescer! Adoro mudar, não tanto de espaço físico, mas de pensamentos, hábitos… Sempre que estou prestes a uma grande mudança me vejo analisando o que deve ser mantido e o que deve ficar apenas na memória. Me renovo e aprendo principalmente a conhecer aquilo que me faz bem. Grata pela leitura do seu texto. Um abraço.

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