A PANDEMIA E AS TRANSFORMAÇÕES DAS CIDADES- O QUE PENSAM OS PREFEITURÁVEIS

O ritmo de crescimento acelerado e continuo de cidades globais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Londres e Paris, nos dava a sensação de ser irrefreável e que nada deteria sua evolução. Havia, entretanto, um vírus no caminho, na trilha do desenvolvimento desordenado das metrópoles, do embrutecimento, da indiferença e da atomização das pessoas a pandemia da covid-19, que fez o mundo parar e pedir literalmente para respirar, pois faltaram até os ventiladores mecânicos, para que essas cidades acudissem seus doentes! Quem diria?

Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, os conceitos de globalização, urbanização, e desenvolvimento com prosperidade, auferiram cada vez mais relevância, especialmente desde os avanços tecnológicos, que permitiram a comunicação on-line para a formação do que Manuel Castells chamou de sociedade em rede.

A concepção urbana das grandes cidades, assentada na divisão por setores, nomeadamente daqueles onde suas economias são geradas, a principal característica é a separação entre os locais de trabalho, áreas residenciais, ricos e pobres, pretos e brancos, pontos de convivência, consumo,cultura, entretenimento, e dos espaços públicos, conforme conhecemos hoje. Tais áreas serão objeto de significativas intervenções, a fim de prepará-las para outros momentos de crise, como o que se vivencia agora.

Arquitetos, urbanistas e formuladores de políticas públicas em todo o mundo estão dedicados a estudar novas configurações urbanas, especialmente para o setor de transporte nas maiores cidades do Globo, objetivando superar as várias limitações que essa concepção tradicional demonstrou após o bloqueio conduzido pelo coronavírus.

Antes da pandemia, as cidades viviam o boom do surgimento de novos formatos de mobilidade urbana, compartilhada e conectada, oferecendo várias outras opções de transporte, mais convenientes e ecológicas, para os deslocamentos diários de suas populações, como alternativa ao precário e tradicional sistema público de ônibus, trens e metrôs.

É cediço o fato de que o aparecimento dessa endemia planetária, com seu alto poder de contágio e letalidade, interrompeu a vida cotidiana de milhões de pessoas na Terra, com repercussões econômicosociais em todos os setores das atividades, fazendo despencar o emprego do transporte público para o mais baixo nível, em décadas, com agudo influxo financeiro  para o sistema, exigindo, talvez, a mais significativa  das intervenções no setor.

A permanência do vírus entre nós, até que uma vacina nos assegure imunidade sólida, nos impôs o medo de contaminação, aumentou a nossa sensibilidade em relação à higiene e ao contato físico, o que é inevitável no transporte urbano, no mundo, especialmente no sofrível sistema em funcionamento nas metrópoles brasileiras.

Com a diminuição do poder aquisitivo da maioria da população, e a depender do tempo que essa crise perdurar, esses fatores ameaçam o surgimento do ecossistema de mobilidade urbana, em ascensão antes da pandemia. Por tal pretexto, é necessário,especialmente, que se fortaleça e diversifique o sistema  público de transporte, para atender com segurança, também sanitária, as populações.

Mesmo com todas as deficiências, ninguém discorda da ideia de que o transporte público é o único que oferece mais acessibilidade, o que está a exigir dos governos nacionais, estaduais e municipais, bem como dos investidores do setor, a restauração, em si, da confiança do público, com vistas a situá-lo de volta aos trilhos, em combinação com os novos modais de mobilidade citadina, pois que configura um setor vital para a recuperação econômica das regiões urbanas.

Agora que as cidades, obrigatoriamente, vão ter que promover amplas intervenções urbanas, para atender às novas exigências impostas circunstancialmente pela covid-19, nossas casas tiveram que passar por outras reconfigurações, e se transformaram em ambientes de trabalho remoto e de lazer, assim como os restaurantes se converteram em locais que produzem alimentos para entrega em domicílio, e os tradicionais locus laborais serão  cada vez mais temporários, crescendo a tendência pela consolidação do que os urbanistas estão chamando de bairro de 15 minutos.

Nessa nova configuração, as escolas, o comércio, hospitais e farmácias, bem como os serviços e os parques públicos, devem situar-se a uma distância de, no máximo, 15 ou 20 minutos, a , o que nos dá a dimensão das várias adaptações que as cidades terão que promover, para se adequarem aos novos desafios urbanos que estão por vir, para que se insiram nessa nova concepção de tendência menos centralizada.

Examinando a ideia urbana de Fortaleza, que ainda está a centenas de quilômetros para se tornar uma cidade de configuração “bairro 15 minutos”, visto que no curso do tempo o crescimento desordenado foi empurrando a população trabalhadora cada vez mais para longe dos seus locais de trabalho e dos serviços, vale lembrar que,bem antes da pandemia, a formulação do projeto – Fortaleza 2040, inspirado e coordenado pelo ex-deputado Eudoro Santana, secretário do INPLANFOR, que reuniu arquitetos, urbanistas e pesquisadores das mais diferentes áreas para pensar a cidade, de certa forma foi a antecipação de que era urgente pensar a cidade para os novos tempos que viriam.

Essa complexa realidade exige a incorporação dessa nova concepção urbana, na atualização do projeto, e impõe aos candidatos a prefeito, nas próximas eleições, pôr em relevo o debate sobre esse novo modelo de cidades. Deve ser dito que, para a decepção coletiva da cidadania, a menos de 90 dias do primeiro turno do evento eleitoral, com os précandidatos em intensa campanha pelas mídias digitais, nenhum deles exibiu, até agora, o que pensam e o que conhecem sobre o tema, se é que já ouviram falar a respeito. Conhecer, debater e assumir o compromisso com essa ideia na sucessão, é uma exigência que se impõe a todos.

Deve ser afirmado que esse conceito de descentralização já estava em discussão antes da pandemia, em cidades como Portland, nos EUA, e Melbourne, na Austrália, e agora assume relevante destaque no debate político, dando novo impulso ao planejamento urbano, na perspectiva de desconcentração da densidade demográfica, dos serviços e da administração pública.

Em sua campanha para reeleição, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, prometeu transformar a Capital francesa, bastante adensada, com 21 mil residentes por quilômetro quadrado – em uma cidade de “15 minutos”. Para termos uma ideia do que isso significa, comparando com Fortaleza, dados de 2019 indicam que nossa densidade populacional é de 8,546 mil habitantes por quilômetro quadrado, pouco mais de um terço em relação à Cidade-Luz.

O desafio expresso para os formuladores de políticas, arquitetos e planejadores urbanos é[…] como harmonizar densidade com desagregação, e o desmembramento das populações de forma que ainda permita os encontros casuais que impulsionam grande parte de nossa vida urbana”. Em uma pandemia como essa, a resposta é descentralizar os ambientes urbanos, pois, como assevera o arquiteto e urbanista Moritz Maria Kart, “[…] uma cidade centralizada não consegue lidar com os bloqueios”.

Em um contexto de colapso temporário das cadeias de abastecimento global, desertificação das ruas e das movimentadíssimas avenidas, em todas as grandes cidades, convido o leitor a imaginar uma supercidade à prova de pandemias, que abrigue milhões  de pessoas, sem potencializar a propagação de um vírus. Como seria?

Alguns, certamente, priorizariam o espaço para os pedestres, com jardins flutuantes”, e avenidas bem arborizadas, enquanto outros prefeririam que se priorizasse um transporte coletivo e individual, ecologicamente correto e socialmente distante, com ciclovias suspensas por entre os arranhacéus, levando os ciclistas ao trabalho pida e seguramente etc.

Em crises como essa que, em maior ou menor grau, atinge a todos, afloram as mais criativas ideias e os sonhos mais impensáveis, de como poderíamos tornar nosso ambiente de convivência mais seguro, confortável e convidativo para se viver.

Com a covid-19, surpreendentemente, esses sonhos e ideias com citadas características, decerto, se farão realidade, poissão parte do planomestre “sala de estar urbana”, do Centro de Tecnologia de Quianhaí, no sul da China, projetado pelos arquitetos britânicos Rogers Stirk Harbour e Partners(RSHP), ainda em 2018, e faz parte do plano de larga escala para reformar áreas da grande baía de Guangdong HongKong – Macau, uma das conurbações mais populosas do mundo.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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