A pandemia e a normalidade

Em tempos de pandemia, de crise mundial, de colapso (temporário?) de toda uma forma de vida, as prioridades em geral são revistas, as pessoas se tornam mais sensíveis. A Covid-19, causada pelo novo Coronavírus, tem tido esse efeito ao redor do globo. Meu objetivo com esse texto é dividir algumas reflexões de caráter eminentemente político que acho importantes a partir dessa situação toda.

Primeiro, uma ressalva. Tem muita gente irritada com oportunistas que se utilizam da crise para fazer política, se promover. Também repudio essa atitude. Do que se trata aqui é de pensar o mundo a nossa volta a partir de um contexto de crise sem precedentes. As crises, como sabemos, geram oportunidades. Mais do que isso, elas também geram o encontro de mundos que em geral não se conectam, geram um tipo de condensação social que em uma sociedade fragmentada como a nossa proporciona condições melhores para processos de autoconhecimento, de reflexão sobre nós mesmos. Pensar o mundo, nesse contexto, não só é correto como é necessário. A crise abre uma janela para dentro, para olharmos a sociedade como um todo de outro lugar.

O vírus é invisível, como todos. E pode impactar todo mundo, como todos. Como sempre, numa sociedade desigual, impactará muito mais contundentemente quem é pobre, obrigado a pegar transporte público, sem saneamento básico, sem reservas financeiras, sem condições de parar de trabalhar na informalidade, sem acesso à informação. Entretanto, há uma diferença com relação ao Coronavírus no Brasil: ele chegou aqui de cima para baixo, primeiro entre os ricos (vindos da Europa sobretudo) e só depois chegou a um processo de atingir a totalidade das camadas sociais e, aos poucos, vai se espalhando por todo o país. Isso – o fato de impactar a todos, e no nosso caso ter chegado primeiro nos ricos – fez com que logo de início fosse considerado como um fenômeno total. Era quase um consenso que toda a sociedade deve se preocupar com ele: do governo aos empresários, dos trabalhadores aos estudantes, dos desempregados aos aposentados… todos! Digo quase porque um ou outro irresponsável, entre eles o presidente da república, minimizava a gravidade da situação.

Sendo algo considerado total e limítrofe, todas as camadas da sociedade são obrigadas a lidar com a verdade. Muitas coisas que ficam escondidas atrás de ideologias aparecem como verdades inexoráveis. Primeiro, os mercados não dão conta de solucionar a crise: o Estado tem que atuar firmemente! A lógica do lucro pelo lucro, inquestionável em tempos ‘normais’, é imediatamente condenável e a solidariedade social (inimiga do individualismo e do ‘cada um por si’ incentivado diariamente) passa a ser exaltada, ou pelo menos vista como absolutamente necessária. O tão criticado Sistema Público de Saúde é um alento, o teto de gastos é imediatamente questionado, começam a propor renda básica universal. Aos poucos, a incapacidade aliada de mau-caratismo do Presidente da República ganha uma dimensão impossível de se ignorar, e as verdades vão vindo à tona: não podemos permanecer sob o comando de Bolsonaro. E não, não era a mesma coisa. E sim, foi uma tremenda irresponsabilidade deixar esse grupo crescer como cresceu. Nesse mesmo cenário de verdades que se impõem, ultraliberais apelam ao sistema público, neoliberais abandonam a lógica individualista, a ciência retoma sua importância e a coletividade volta a prevalecer diante do individualismo.

Tudo se justifica diante da emergência e do medo gerado no andar de cima. Mas como estavam os tempos “normais”? Como era o Brasil há duas, três semanas, antes do Coronavírus chegar? Em 2018, morreram mais ou menos 5500 pessoas de fome no Brasil. É uma média de 15 por dia. Em tempos normais, quase um bilhão de pessoas passa fome no mundo. Em tempos normais, um bilhão e meio de pessoas convivem – e grande parte delas morre – com doenças tratáveis, banais. É na base desses ‘tempos normais’ que o Coronavírus chega. Quando as coisas voltarem ao ‘normal’, mesmo com o trauma gigante que ele deixará, podem ter certeza de que a tendência das elites no Brasil e no mundo será a busca pela recuperação das taxas de lucro, novos ataques aos serviços públicos e o seguimento da retirada de direitos. O medo das elites passará, e a ‘normalidade’ – com fome, miséria, desigualdade, sofrimento generalizado – voltará com toda sua força.

A crise nos mostra as verdades. É nosso papel encará-las e lutar pelas transformações que achemos pertinentes. A crise da Covid-19 desmascara muitas hipocrisias e derruba muitas máscaras. Que sejamos capazes e corajosos o suficiente para encarar a fundo as consequências que, hoje, em tempos de “emergência”, poucos têm coragem de negar: serviços públicos como saúde, educação e transporte devem ser de qualidade, de acesso universal e totalmente gratuitos! Todos temos direito a saneamento básico, a água limpa, a comida. Taxas de lucro absurdas são totalmente condenáveis, juros altíssimos de supostas dívidas que condenam países inteiros por décadas não têm sentido do ponto de vista da civilização. Jornadas de trabalho podem e devem ser reduzidas e as decisões sobre os rumos dos nossos países devem ser tomadas cada vez mais coletiva e democraticamente. Podemos e devemos ter outra sociedade, não só por conta da doença que nos ataca agora, mas porque nossa normalidade era brutalmente perversa. Ela já estava em crise de novo antes do vírus, e já estava buscando suas soluções piorando ainda mais a vida dos setores populares.

Essa pandemia vai nos deixar muitas lições. Que a principal delas seja um desejo coletivo por nunca mais voltarmos àquela “normalidade”, porque, como diziam alguns sinais luminosos nas ruas por esses dias, aquela normalidade – chamada capitalismo – era justamente o problema. Que a lembrança da importância do comum trazida pelo Coronavírus sirva como semente para a construção de outra sociedade.

Rodrigo Santaella

Rodrigo Santaella

Rodrigo Santaella é educador e militante do PSOL. Formado em Ciências Sociais pela UFC (2010), com mestrado em Ciência Política na UNICAMP (2013) e doutorado em Ciência Política na USP (2018), é professor do Instituto Federal do Ceará no Campus Caucaia e do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas da UECE.

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