A OPORTUNIDADE PERDIDA, por Rui Martinho

O município de Maracanaú foi escolhido para sediar um projeto de segurança pública. Trata-se de ação interinstitucional, com a participação da União, Estado e Município. Estava em jogo um investimento vultoso, algo como duzentos milhões de reais. Além da ação policial, na forma de enfrentamento do crime, havia, no conjunto do plano, a previsão de iniciativas de natureza social. Consta até que dois colégios militares estavam entre as metas. Maracanaú perdeu o projeto. O investimento agora será em Paulista, cidade da Região Metropolitana de Recife. A perda é das mais sensíveis. A segurança pública em nosso Estado encontra-se em péssima situação. A Área metropolitana de Fortaleza apresenta índices alarmantes de criminalidade violenta. Os recursos do Estado não são abundantes. A perda faz muita falta.

Diante do prejuízo, surgem as indagações de sempre: como isso pode ter acontecido? Quais foram foram os motivos do redirecionamento do plano para a cidade pernambucana? A suspeita de influências de natureza partidária e até pessoal foram aventadas. Mas se o Ceará tem um governador filiado ao PT, o governador de Pernambuco é integrante do PSB, que também é partido de oposição ao governo Federal, isto é, encontra-se na mesma situação que o Ceará, quanto a este aspecto. Outra suspeita foi levantada contra o Secretário Nacional de Segurança, do Ministério da Justiça, o general Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, cearense. Teria um alencarino interesse em prejudicar o seu Estado natal? Qual seria a motivação? O general foi candidato ao governo do Ceará, tendo disputado com o governador Camilo Sobreira de Santana. A acusação é de antogonismo com o governador. Mas se antagonismo fosse a motivação seria no sentido de trazer o investimento para o nosso Estado, fortalecendo a liderança de um prefeito rival do governador.

Um dos argumentos assacados contra o general era exatamente o de que o objetivo seria fortalecer Maracanaú, município governado por lideranças que se opõem ao governador. Trata-se de um argumento que destrói a ele mesmo. Caso fosse esse o propósito o investimento teria sido mantido. O processo judicial conhece a figura da reconvenção, pela qual o polo passivo da ação pode formular acusação contra o polo ativo, trnsformando-o igualmente em réu. Cabe a analogia: o general pode “reconvir”, acusando quem o acusa. Diria o general: as dificuldades ou o descaso do governo do Estado diante da iniciativa que beneficiaria Maracanaú, seriam apenas para prejudicar politicamente o prefeito adversário. Temos aí uma suspeita amparada em fatos objetivos, tais como a ausência do governador no encontro com o enviado da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Só depois que a Secretaria aludida, desde Brasília, procurou contato com o governador, não sendo atendida, é que o titular da SSPDS compareceu ao encontro de trabalho com o representante da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

O governador cearense indagou, em correspondência oficial, em face do projeto, quais seriam os critérios para a escolha do município de Maracanaú. Critérios integrantes dos projetos são postados publicamente nos endereços eletrônicos dos ministérios e suas respectivas secretarias. A indagação assume contornos de pergunta retórica, tendo mais o sentido de afirmação do que de interrogação. Certamente o esmagamento da oposição no Ceará pelo governo, deixa o governador alerta em face da possibilidade de uma ação semelhante por parte de Brasília.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.