A MÚSICA: ou seja… – por CARLINHOS PERDIGÃO

O campo musical – ao menos em relação ao recorte aqui expresso – é um universo ao mesmo tempo técnico e emotivo, simples e complexo, singular e pluralizado, solitário e coletivo, local e mundial, próximo e distante. Toda essa miríade de percepções diversificadas em torno dessa linguagem se aplicam nas variadas áreas em que ela se faz presente. Vejamos:

Historicamente, como linguagem humana, a música enfatiza a livre expressão e a criatividade de uma pessoa, que pode utilizar a voz e o corpo como instrumentos musicais. Além disso, ela igualmente desenvolve a percepção e as memórias rítmicas e auditivas, bem como conecta o ser humano aos elementos culturais de uma localidade. Ou seja: a música é, portanto, muito mais do que sons com ritmos, melodias e harmonias, os três pilares na qual se concretiza.

Como linguagem intrínseca, ela exige uma entrega por parte do instrumentista, sendo essa entrega compreendida em termos de técnica, mas também de emoção. O trabalho na carpintaria musical solicita, portanto, uma forte conexão com o estudo. E tanto melhor se a perspectiva pedagógica estiver ancorada na questão estética – possivelmente – ali presente.  Nessa perspectiva, entende-se o esteticismo como algo relevante em torno da conexão que o receptor da mensagem tem ao acessar uma composição – a música deve, portanto, dar prazer, gozo, podendo ser estimulante, relaxante; ou então um elemento de reflexão, e a partir daí será esclarecedora, significativa. Ou seja: o estudo musical deve servir ao pesquisador para que ele possa traduzir em sentimentos – em sua maior definição! – e em possibilidades de meditação sua habilidade e destreza ao tocar.

Tal contexto enseja compreensões – e delimitações – sobre a simplicidade e o elemento complexo que envolve tal linguagem. A singeleza que ela propicia abarca diferentes faixas etárias: desde as atenções de um bebê para as primeiras ressonâncias a que ele presta atenção, aos sons melodiosos de um espetáculo jazzístico, ou circense, ou de cultura popular, ou de… Música! Ou seja: é tudo melodioso, cândido, gostoso de se ouvir… Mas complexo em sua produção, em sua construção enquanto linguagem humana, que deseja “tocar” nas pessoas, levá-las a cantar e a dançar o mundo…

O que se destaca nesse aspecto envolve não apenas a linguagem musical, mas também como ela circula no mundo e é percebida pelo ouvinte. Como o pesquisador e filósofo da linguagem russo Mikhail Bakhtin, em torno da perspectiva dialógica da língua – já deixou claro: só há um emissor porque existe um receptor. Ou seja: a música toca em quem a constrói e a quem se destina. Simples, complexa e humana, demasiadamente humana…

Por sua vez, a singularidade e a pluralidade concretizam-se em termos também da construção de quando é elaborada. Portanto, singular porque uma composição é única, e em vários aspectos: no estilo, na instrumentalização que utiliza, na expressão do seu discurso fônico, enfim, nos objetivos e na forma que teve ao ser produzida. Plural porque tem o poder de tocar a muitos (e aqui não entram questões exatamente relacionadas ao sucesso), sendo construída como uma teia de notas que mexem com o cognitivo e com a alma do compositor. Ou seja: a música tem visceralidade, ainda que, muitas das vezes, seja midiaticamente transportada como simples passatempo comercial, como tão bem delimitaram Theodor Adorno e Max Horkheimer na obra Dialética do Esclarecimento, em 1947, ao teorizarem em torno do conceito de indústria cultural. Nesse sentido, compreende-se ser essa linguagem reduzida à condição de mero produto consumível, e pior ainda, veiculando preconceitos contra, por exemplo, as minorias sociais…

Já os aspectos relacionados às questões de solitude e de agrupamento focam em questões ligadas ao meio social. Se muitas vezes é produzida solitariamente, como canal de expressão polifônica tem o poder de juntar pessoas, as quais, ouvintes, interpretam-na com significados os mais diferentes possíveis, já que esses conceitos são dependentes das experiências de vida de cada um. Ou seja: a música abarca contextos sociais subjetivos, mas também políticos, econômicos e culturais.

A questão social igualmente se faz presente nos aspectos de ela ser uma linguagem local e mundial. O leitor e a leitora já compreendem: cantar o seu quintal nem sempre representa algo particular. Ao contrário, todos sabemos que os seres humanos mudam apenas de endereço. E nas esquinas da vida se encontram em meio ao amor, e também ao caos. Se somos arquétipos de nós mesmos, que nos encontremos num show de rock´n´roll, ou quem sabe, num espetáculo de blues, ou ainda, no meio de um solo tonitruante de bateria, instrumento-essência para este cronista. Ou seja: a música tem o poder de nos refletir, tornando-se, nesse sentido, um elemento identitário de nossa inconcretude…

Ela ainda pode tornar-se algo próximo ou distante. E nesse ponto entram pontos relacionados com espaços e territórios, com o coração e com o gosto de cada um. Assim: nos tempos atuais, a música é próxima, pois a oferta dela acontece praticamente 24 horas por dia. Portanto, para onde nós vamos: ela está lá, presente. Tal situação foi relatada a este pesquisador por um dos maiores estudiosos de bateria no Brasil, o amigo Aristides Cavalcante. Para ele, esse excesso de música cansa. E é assim que também vejo. Nesse ponto: que ela fique distante! Ainda mais por conta da importância do silêncio, cheio de significados e polifônico, quase sempre. Por outro lado, a proximidade dela igualmente ocorre em outras instâncias, principalmente em nossa memória afetiva, acentuando a sensibilidade e o entendimento sobre nós mesmos; afinal: quem canta seus males espanta… Ou seja: quando em equilíbrio com as aspirações do ouvinte, a música pode ser catalisadora, alimento nobre dos nossos amores.

Em tudo isso, mesmo sendo apenas uma linguagem das tantas que os seres humanos produzem e têm acesso, a música não deve ser ignorada. Pois… Ela significa. Ela mexe com a gente. Com os nossos sentimentos. Com os nossos desejos. Com as nossas aventuras sagradas e/ou profanas. Assim, funciona como uma espécie de trilha sonora da vida, abrandando dores, libertando espíritos, servindo como companheira de sentimentos, de cantos, de poesias, de danças, de orações e de volúpias! Ou seja: ela é vital!

Carlinhos Perdigão

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OBS.: texto dedicado ao amigo Aristides Cavalcante – um verdadeiro mestre da bateria, estudioso incansável desse instrumento e um músico virtuoso, na maior acepção que essa palavra tenha. Além dele, dedico esta crônica à Ana Maria Perdigão – pianista e pedagoga cearense que, nos anos de 1980, esteve à frente do PRODIARTE, um projeto que levou o estudo de Artes (a musical inclusive, para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio no Ceará). Esse reconhecimento que faço a ela, minha mãe, mesmo que post-mortem, surge em forma de agradecimento por tudo o que representa em minha vida. Afinal, devo basicamente a ela a descoberta da linguagem artística, que me fundamenta enquanto pessoa.

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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2 comentários

  1. Carlinhos Perdigão

    Carlinhos Perdigão

    Grande Sérgio!!! Muito obrigado pelo comentário!! Vc é uma grande cara, e daqueles amigos inesquecíveis! Abração de quem o admira!!

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