A MULHER DO FIM DO MUNDO VENCEU O PLANETA FOME – Ackson Dantas

Elza tem uma história, destas que se confundem com a maior parte do povo brasileiras. Senão por plenitude, tendo em vista que o sucesso na carreira denota um ponto fora da curva diante de tantas outras pessoas talentosas que se perderam na vicissitude da vida, mas por uma história de vida marcada pelo corpo de mulher e negra. Mesmo em sua carreira profissional, tal fato foi presente e óbice de um talento reconhecido internacionalmente.

Neste momento tenho a tentação de romantizar sua história, todavia, falar de Elza é falar de mulher! Negra e pobre que come o pão amassado por Deus e o Diabo, engole os sapos que as sinuosas curvas da vida apresentam e continua de pé, com a cabeça erguida, olhando para trás e falando dos seus. Uma Mulher que não esquece em nenhum momento toda a luta das outras mulheres, negras e, em sua maior parte pobres, entregues às asperezas cotidianas. Falar sobre Ela é discutir o papel da mulher, papel político, diante de uma sociedade que, em pleno 2019, se configura ainda mais conservadora e patriarcal. A história de Elza se confunde com a de outras tantas, submetidas ao olhar machista e misógino que lhes imputa uma forçosa submissão. Temos no Brasil um ministério para a mulher, a família e os direitos humanos –  e que isso tem a ver com a luta das mulheres?

O feminismo, por outro lado, ocupa um papel híbrido e conflitante na sociedade, apresentado como motor do desvirtuamento da família, pelos conservadores e conservadoras, mas que no fundo foi e é um garantidor ou no mínimo um movimento de conquista de igualdade de gênero. Por falar em igualdade de gênero, tema bastante complexo, é pouco debatido com o aprofundamento cabível – sem falar na luta da mulher pelo direito ao seu corpo.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), na edição do Atlas da Violência de 2019, a taxa de homicídio de mulheres cresceu acima da média nacional. A pesquisa ainda aponta que a taxa de homicídios contra as negras é 28.3% maior que as não negras. São 5,6 mulheres negras assassinadas a cada 100 mil habitantes, enquanto 3,6 não negras morrem para cada cem mil habitantes. Elza é um símbolo das que conseguiram driblar a violência de gênero e sobreviver.  Nem por isso, ou exatamente por isso, se omite em falar dos abusos vividos por tantas outras.

Se analisarmos a sociedade brasileira como um todo, perceberemos que a ideia patriarcal e o machismo estão ainda bastante presentes nos lares, nas ruas e no trabalho. As políticas públicas de defesa da mulher são quase inócuas, mesmo que muito já se tenha conquistado em relação a direitos – a diferença ainda é muito grande. É importante pontuar que a lei Maria da Penha trouxe uma retaguarda jurídica nesta defesa, no entanto sua implantação não foi procedida de ações complementares. Faltaram incrementos na lei que acompanhassem as transformações sociais e enfrentassem as burocracias cotidianas. Além disso, uma política de difusão dos direitos da mulher, deveria se apresentar como algo in perpetuum.

Em uma de suas músicas um retumbante grito é dado em direção à agressividade masculina “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” faz parte da música Maria de Vila Matilde e intenta apoiar mulheres a não aceitarem o comportamento violento de seus companheiros. É bem verdade que esta música também é uma denúncia da própria violência que sofreu, mas, ainda assim, também é uma forma de não silenciar ao mundo o que passou, de mostrar que se deve enfrentar as dificuldades e não se calar.

Política é o exercício de participação em sociedade, de construção social, ser político é ser cidadão crítico e participativo. Neste sentido, falar Dela é falar de política. Política exercida no cotidiano, nas falas e atitudes. Seus álbuns repletos de músicas reflexivas sobre a realidade e as condições de vida de toda essa gente são atos de bravura e resistência diante de um país excludente. Vale ressaltar que as letras nem sempre são de sua autoria, no entanto em sua voz encontram ressonância, nascem a partir de seu corpo interpretações viscerais e retumbantes.

A Mulher do fim do mundo não se furtou e fez de sua arte uma forma de combate. “Na avenida deixe lá, a pele preta e a minha voz. Na avenida deixa lá, a minha fala, minha opinião” (trecho da música A Mulher do Fim do Mundo).  É no seu canto que reverbera um contundente discurso, agindo politicamente com sua arma, seu talento, sua voz. Assim se constitui uma história de luta e inspiração para tantas outras pessoas identificadas com a cor da pele, com seus cabelos erguidos, com a exclusão social vivida.

O planeta fome, todos os dias, mata pessoas a sangue frio. A morte por inanição deixa os desassistidos da sociedade combalidos, pobres corpos vagueiam até os derradeiros suspiros. As políticas econômicas liberais do governo atual estampam a aura da salvação, com patrocínio de empresários e grandes mídias impulsionam o Brasil ao quadro acachapante da miséria. O planeta Brasil a cada dia aumenta mais a distância entre os pobres e miseráveis e os ricos.  Elza é um ponto fora da curva, venceu a fome e ergueu seu império, embora carregue no corpo e na memória a perda de filhos pela falta de uma necessidade básica – “o de comer”.

“Eu não vou sucumbir”, assim canta Ela na música Libertação, como uma tentativa de bradar ao mundo a sua resistência e encontrar eco nas ruas para combater o fato triste que vive o país. Segundo o IBGE, em 2018, o Brasil bateu recorde de pessoas vivendo em situação de miséria, são 13,5 milhões de sobreviventes com renda mensal per capta inferior a 145 reais. A reforma trabalhista do governo Temer, tão anunciada como um divisor de águas para o povo, em nada modificou a situação. Na contramão do prometido, tornou precária as condições de trabalho e salário, além de não aumentar o número de empregados no país. Com o presidente atual, a marcha de desconstrução dos direitos trabalhistas e da possibilidade de se aposentar ganha corpo e já deixa um lastro de desesperança entre os mais humildes.

Há tanta coisa a falar da vida desta Negra guerreira e tanto a refletir sobre as questões sociais envolvidas, que precisaria de dois ou três volumes de livro para sintetizar tudo isso. Por hora vou colocar na radiola o LP “Planeta Fome”, abrir uma garrafa de vinho, me alimentar da voz do milênio (como a elegeu a BBC Londres) e planejar revoluções!

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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