A MINA

A superfície sumia na forma de luz distante e em minutos tudo o que se veria seriam as lanternas sobre os capacetes dos mineiros, além do mórbido balançar dos cabos do elevador da velha mina. Uma rotina cumprida à escuridão, falta de ar… de espaço… de vida… Opalo cruzava o olhar com os demais e seu coração não produzia dialogo. Todos sabiam que, ao abandonarem a superfície, seus mundos não seriam mais os mesmos. Trocavam o brilho do sol pelo trabalho negro mas necessário.

Metros mais fundo os ruídos das picaretas na rocha e o triste lamento dos mineiros anuncia a chegada de Opalo ao seu obscuro algoz. Prontamente todos estavam a trabalhar. Mecânicos, mudos, separados por medos e por uma cultura precária e linguajar módico.

Entre uma tosse e outra, Opalo divisou um estranho brilho dentre as rochas. Diferente de todos os metais e pedras habituais, este artefato não só brilhava por reflexo da tênue luz da lanterna de seu capacete como em sua ausência. Era um milagre.

A pele de Opalo, enegrecida por poeira e pelo tempo, regozijava-se da tão inusitada e verde luz do objeto. O rude mineiro mergulhava na imensa beleza daquele verde intenso. Percorria um universo de moléculas e ligações atômicas totalmente alheias à sua realidade. Era um momento mágico em que não era necessário entendimento nem conceitos. Era só sentimento. Um sentir sem fronteiras e de uma intensidade que Opalo não ousava nem sonhar.

Lembrou-se ele de sua esposa e filhos. Se fosse dado a eles compartilharem deste momento… No mundo de fantasia de Opalo, sua pequena família veria todo suor de seu rosto ser recompensado como que por encanto. Estava feito.

Opalo veio à tona, emergindo de seu universo paralelo, e se viu percorrendo o enorme corredor distorcido pela fuligem. Uma por uma as lanternas dos capacetes iam direcionando-se ao estranho objeto em suas mãos.

Chegando ao chefe do setor disse reflexivo:

– Durante todos estes anos trabalhei a duras penas. Desgastei incessantemente meu corpo físico em troco de um pouco de seu Deus-vil-metal. Afoguei meus sonhos e de meus familiares na esperança de construir o que chamam de futuro, sendo ungido apenas pelo delicado e raro toque de finos fios de esperança. Fui um homem justo e resignado, mas agora há algo diferente. Descobri esta linda pedra e penso ser ela o motivo de toda a minha busca. Conheço o lugar de onde pode ser apanhado mais um pouco dela e sei que isso mudaria a vida de todos desta mina. Assim sendo, resolvi que quero finalmente e em definitivo ir à superfície deste lugar, pois foi de lá que todos nós saímos e é lá em verdade nossa única origem e destino. Antes, porém, quero mostra r-lhe como e onde conseguir tal objeto.

O homem deu-lhe as costas com um ar indiferente. Seus olhos treinados a se saciar do sofrimento daqueles que trabalhavam na mina não sintonizaram a magia do objeto. Não foi capaz de vê-lo. Ele que já fora mineiro e que, a custo de muita submissão “subira” ao posto de guarda de mina, contentava-se agora em oprimir seus antigos companheiros como uma forma de redenção torpe de seu gênio.

Opalo buscou ainda avisar a cada um de seus companheiros do ocorrido, mas triste foi sua conclusão quando notou que ninguém estava interessado em se desfazer de seus afazeres cotidianos. Depois de admirada a pedra e seu brilho, punham-se a trabalhar como se nada tivessem visto ou ouvido.

Sendo assim, Opalo pôs-se a escalar através da íngreme fenda do buraco do elevador. Metros e metros pelos hesitantes calços feitos na rocha. Momentos de angustia e solidão. O medo da morte se confundia com o questionamento: Por que fazer aquilo? Opalo esforçava-se para subir e para não pensar, visto que sua mente o atraiçoava a rápido galope. Mesmo quase caindo por três vezes, o persistente mineiro reformulava sua cautela.

Chegando então ao topo da mina teve de fazer um enorme esforço para atravessar o buraco estreito que dava acesso ao tão almejado exterior. Esgueirou-se com insistência para sair do útero da terra, brotando na superfície em meio a lama, vegetação e a forte chuva que se fez, como que fecundando a terra em sua homenagem.

E Opalo foi feliz de volta ao seu lar… Ao seu verdadeiro lar.

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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