A locomotiva chinesa está parando

O capitalismo tem limites previamente fixados de expansão, e este é o seu ponto de inflexão que abrange o seu ciclo histórico de nascimento, vida e morte, que agora foi atingido.  

A paralisia da locomotiva chinesa que foi colocada em movimento após o seu período de possível crescimento sob os fundamentos capitalistas (a China jamais foi comunista, ou sequer se encaminhou para tal negando as categorias capitalistas como se imaginava ou se pretendia após a revolução maoista de 1949), comprova tal limite expansionista, e já não há nenhuma região do Planeta que possa absorver uma demanda de consumo capaz de dar sobrevida minimamente sustentável à relação social sob a forma-valor.  

Como sabemos, a economia globalizada está de tal forma integrada que basta uma gripezinha na economia de num país medianamente importante para que seja afetado todo o conjunto de relações da economia mundial.  

Quando se trata, entretanto, de um país como a China, que é o segundo PIB do mundo, com cerca de US$ 12,2 trilhões, o resfriado facilmente se transforma em pneumonia grave, e quando isto se transforma em epidemia, mais do que se tomar antibióticos, faz-se necessário vacinar a população.  

O nome dessa vacina é a superação da forma-valor.

Esperava-se que após a crise de demanda causada pelo confinamento populacional chinês e mundial causado pela epidemia de covid19 houvesse um crescimento da economia mundial e chinesa numa escala correspondente às perdas havidas. Não é o que está acontecendo.

O PIB chinês cresceu apenas 0.4% no último trimestre (abril a junho de 2023) e o yuan (ou renmimbi, como quer seu governo e a turma do BRICs, com relações comerciais sob tal moeda) caiu para o nível mais baixo em 16 anos, e nos Estados Unidos, primeira economia mundial, no mesmo período trimestral houve um crescimento do PIB de apenas 0,1%.  

O resultado pífio do trimestre, havido após os bons resultados do primeiro trimestre chinês e estadunidense colocou água na fervura. A economia mundial tem vivido de voos de galinha seguidos de quedas expressivas e duradouras que apontam para uma recessão na economia mundial.  

As consequências disto numa economia mundial que ainda tenta se recuperar do abalo de 2008/2009, quando os Bancos Centrais do Estados Unidos, União Europeia e Japão tiveram que socorrer a falência do sistema bancário com moedas sem valor, é sintoma de que há algo no ar além dos aviões de carreira.
A paralisia no crescimento econômico chinês, que foi enfaticamente prevista não apenas por nós em vários artigos, mas por analistas mais lúcidos e menos vinculados ao sistema capitalista, era previsível.  
Nas últimas três décadas a China obteve um crescimento médio anual de 8,7% graças aos seguintes fatores:
–  abertura de mercado ao livre comércio mundial;  
– uso de tecnologia trazida por empresas capitalistas multinacionais em busca de trabalho abstrato barato tangidas pela concorrência mundial de mercado;
– endividamento alto (que hoje corresponde a preocupantes 300% do PIB anual) com taxas de juros atraentes para investidores internacionais; e,
– incentivos fiscais.  
Para fazer face ao custo financeiro de tal empreitada há se crescer permanentemente sob taxas elevadas de PIBs anuais, o que, evidentemente, não é factível após o esgotamento da capacidade de expansão inicial havida proporcionado pela concorrência mundial de mercado.  

Cumprida a etapa de crescimento no mercado de livre concorrência pela China graças aos valores e preços baixos de suas mercadorias, muitas delas fabricadas por empresas ocidentais ali instaladas, observa-se uma consequente queda no crescimento do PIB, que evidentemente não poderia continuar nos mesmos níveis eternamente.  

Acontece que o crescimento “rabo de cavalo” chinês, ou seja, reduzindo a massa global de valor e extração de mais valia, tem consequências danosas à economia mundial e que termina por afetar a própria economia chinesa.

O que se vê hoje na China é uma deflação representada pela queda de valor e de preços das mercadorias;  
– uma crise imobiliária representada pela queda na venda de imóveis e inadimplência dos adquirentes de unidades habitacionais;  
–  aumento da taxa de desemprego cujos dados deixaram até de serem publicados;  
– crise no setor financeiro com a inadimplência de pagamentos aos rentistas de ganhos de investimentos.
A inadimplência das incorporadoras imobiliárias como a Evergrande e Country Garden se espalhou e contaminou os fundos de investimento com valores expressivos da ordem de US$ 2,9 trilhões (cerca de 1/3 do PIB brasileiro).

Recentemente a empresa fiduciária Zhongrong Trust não pagou cerca de US$ 19 milhões de produtos de investimentos fato que causou manifestações de rentistas em frente aos escritórios desta empresa na China, o que provocou a fuga de capitais para investimentos diretos nos títulos dos governos locais causando estresse no sistema bancário chinês com corte nas taxas de juros que causam paralisia nos investimentos (que antes foi de US$ 586 bilhões e agora foi simplesmente zerado).
Outro fator inesperado que atinge a China é a crise demográfica causada pela queda da população chinesa. O nível de fertilidade chinês caiu de 1,30 nos anos anteriores (muitos anos atrás, na China rurícola era ainda bem maior por conta dos braços a serem usados na agricultura familiar) para 1,09, ou seja, observa-se um decréscimo na população chinesa.
No ano de 2022 observou-se pela primeira vez uma redução da população chinesa num total 850 mil pessoas segundo o censo demográfico.  

Além disso há um processo de envelhecimento da população, fator que causa desequilíbrio na previdência social chinesa (tal fenômeno é mundial e conspira contra a lógica capitalista que precisa de mão de obra assalariada jovem para custear os aposentados envelhecidos).
Todos os fatores antes elencados se conjuminam com um quadro de ameaça de recessão econômica mundial graças à alta das taxas de juros para conter a inflação nos países ocidentais (notadamente nos Estados Unidos, nos quais a emissão de dinheiro sem valor para conter a crise do subprime de 2008/2009 trouxe efeitos colaterais danosos).  

Na China ocorre um processo de deflação de preços das mercadorias, fato que associado à queda do PIB, é motivo de preocupação ainda maior do que a inflação. Em economia a estagflação (deflação e paralisia econômica) é a pior das crises.
É sob tal conjuntura que ocorre uma guerra envolvendo a Rússia invasora e aliada da China contra a Ucrânia apoiada pelo ocidente que cada vez mais consome recursos abstratos e vidas humanas numa demonstração genocida de um sistema apodrecido.  

Somando-se a crise econômica chinesa e estadunidense com a crise militar russo-ucraniana e africana (quase todo dia um grupamento militar derruba um governo por lá) junto com a crise ecológica do aquecimento global, não é difícil se concluir que estamos no ocaso de um modelo de relações econômicas globalizado que precisa ser superado com métodos nunca ainda pensados, mas que se resumem numa única alternativa: usar o saber da humanidade em seu próprio proveito e não para tentar salvar a lógica obsoleta das relações sociais ditadas pelo capital.
Quando se exclui da vida social o tal critério da viabilidade econômica para o fazer social em seus vários níveis (satisfação de consumo nos seus vários níveis; educação e cultura libertadoras e edificantes; e solidariedade humana), descortina-se um universo imenso de possibilidades de reestruturação da vida sob parâmetros verdadeiramente humanistas.  
Ou acabamos com o processo tautológico e vazio de sentido humano da valorização do valor ou ele acaba conosco.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;