A IGNORÂNCIA É UMA DOENÇA

Ignorar é a pior forma de ser excluído no mundo para o qual não se sabe os seus por quês. Você é conduzido como se estivesse vendado e acredita que tudo é do jeito que está porque Deus quis. Se for pobre, e o rico lhe explora, é porque sempre foi assim. E vai se alienando da vida até se anular por completo do princípio de uma existência fraterna e coletiva.

Quanto mais ignorante, mais propenso às ideias cristalizadas e desprezo pelas mudanças. Quanto mais alienado, mais doente social e mais afeito às estruturas de poder excludentes. O sonho, quando os tem, é de pertencer ao poder através de bens materiais ou posições de mando. Geralmente, pessoas assim não desconfiam que estejam enraizadas numa visão de mundo autoritária e discriminatória, onde os outros não fazem parte do seu mundo, pois são guiadas pelo egoísmo em forma de estrutura familiar rígida, muitas vezes camuflada pelo uso errado da religião, que funciona, antes, como um escudo para autoproteção, completamente desvinculada dos princípios do amor ao próximo, quando este é de fora do seio familiar. 

É sintomático como a maioria dos deputados que votaram a favor do Impeachment da presidente Dilma usou como argumento a frase “pela minha família” etc. Se esta estratégia de invocar a família é uma forma de exaltar o papel da unidade familiar, por outro, a falta de moral, de ética e o alto grau de criminalidade dos deputados “família” indicam uma deturpação do sentido original da palavra. Arruinaram o termo ao tentar identificar o voto à expressão “pela minha família”, no sentido estrito para o qual dirigiam seu discurso. E parece que, quanto mais atrasadas são as famílias, mais propensas ao discurso autoritário, rígido e excludente elas se portam. E, coincidentemente, usam a família como núcleo para manutenção de um status quo baseadas no egoísmo e na manutenção da materialidade como força de condução de princípios morais.

Pobres de espírito se tornam aqueles que se mantêm fiéis ao que crêem ser os valores materiais como condutores de uma moral familiar. Filhos criados assim não se importarão com a humanidade, não desenvolverão espírito fraterno ou se envolverão em projetos de alcance exterior ao seu mundo familiar. Darão importância aos sobrenomes e manterão isso como forma de valorizar uma unidade que ignora a diversidade na qual estamos inseridos.

Pobres de matéria serão usados pelos pobres de espírito para validar esse modelo que os torna peças de uma engrenagem viciada. Pessoas são transformadas em coisas e reificadas como objetos com valor de troca, que dão lucro quando beneficiarem aos que enxergam o mundo pela ótica do utilitarismo. Assim, serão mantidas as fortunas e a ideologia de enriquecer para dar um mundo (material) melhor para os descendentes. 

Para os pobres serão ofertadas migalhas, nacos de conhecimento em condições precárias, sobejos de valores associados ao fracasso da pobreza e da determinação divina de classe. A ignorância é uma doença que produz maus políticos, canalhas e pobres de espírito, que querem a todo custo um lugarzinho no banquete da luxúria moral e da displicência ética. 

A humanidade precisa urgentemente do conhecimento para se humanizar, caso contrário, continuará fabricando o lixo humano de si mesma.

Carlos Gildemar Pontes

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza - Ceará Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Vencedor de Prêmios Literários nacionais, regionais e locais. [email protected] Tem 23 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 (Coleção Alagadiço Novo, v. 29) – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Literatura Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) - Conto Super Dicionário de Cearensês, 2000; Literatura (quase sempre) marginal, 2002 – Crítica Literária.; Os gestos do amor: magia e ritual, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, 2005 – Ensaios; A essência filosófica do amor, 2014 – Filosofia/ Comportamento ; Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto

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