A hora da convergência

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.”

William Shakespeare

​Há momentos na história em que as divergências de condução da superação da crise econômica e política ficam de lado, para que nos fixemos num ponto consensual. O #fora Bolsonaro ganhou uma expressão de unidade majoritária que está deixando atônitos os recalcitrantes defensores do retrocesso civilizatório, hoje flagrantemente minoritários.

Quando vemos um Deputado como Kim Kataguiri, do Democratas e do movimento Brasil Livre, para o qual os pressupostos liberais de defesa da ordem capitalista e da democracia burguesa com viés de direita constitucionalista são cláusulas pétreas, se junta a movimentos sociais de pauta específica sem questionamentos (como movimento de mulheres, antirracistas, sindicalistas, lGBTQI+, religiosos, de partidos de direita e de centro, torcidas de futebol, grupos culturais, etnias indígenas, MST rural, MST urbano, e até com a turma da cracolância) numa rejeição uníssona, a constatação é óbvia: Boçalnaro, o ignaro, já não mais governa!
As manifestações de grandes contingentes humanos confirmaram o que as pesquisas de opiniões públicas (todas) já haviam detectado: caiu a ficha dos brasileiros em relação ao Boçalnaro, o ignaro.

Quem o sustenta é uma base parlamentar que usa a sua fragilidade governamental para exercer o seu tradicional fisiologismo. Mas, como todo oportunista, cessada a oportunidade e a conveniência, eles mudam de lado com a mesma facilidade de quem troca de roupa após uma dia extenuado de trabalho.

Mas o caminho do impeachment é mais político do que jurídico. No campo político ele ainda resiste graças ao fisiologismo do centrão que representa um cancro na vida brasileira, e é aí onde reside o problema de tempo de tramitação e aceitação parlamentar de vontade política de quem se beneficia politicamente de um governo frágil; mas isto também tem limite.

Razões jurídicas existem aos montes, e as mais proeminentes são a diretriz governamental de DESMATAR, MATAR, e agora FURTAR, numa rima pobre a catastrófica. São elas:
– DESMATAR – Os crimes ecológicos são graves e se constituem como lesa humanidade, vez que contribuem para a agravamento do aquecimento global já evidente, causado pela emissão de gases na atmosfera pelos grandes capitalistas, como Estados Unidos e China, pontuando neste aspecto;

MATAR- o negacionismo, que transformou o Brasil, no país com mais mortes por coronavírus em relação à sua população e que caminha também para um macabro campeonato em termos de números absolutos (nos aproximamos dia-a-dia dos 600.000 mortos dos Estado Unidos, já que a proporção de mortes diárias entre nós e eles diminuiu vertiginosamente);

FURTAR – agora os fortes indícios de venda ilegal de madeira da Amazônia e tentativa de superfaturamento e contratação de compra de uma vacina antes mesmo de ser aprovada pela Anvisa, e rejeição de tantas outras mais baratas, fizeram cair o ultimo bastião de falsa moralidade anticorruptiva do governo (comparadas com as atuais, as rachadinhas eram troco num passado de mandatos parlamentares medíocres).
Mas o procedimento parlamentar do impeachment é muito mais político do que jurídico e, portanto, somente a mobilização popular e o vigor das denúncias de corrupção e de negacionismos aos tratamentos científicos podem, conjuntamente, abreviar a queda de um governo que já não governa, mas é capaz de nos arrastar por longos 18 meses de agonia.
O governo que aí está desde cedo propôs um autogolpe. Gostaria de constranger o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal com apoio militar e popular que lhe desse aparência de um governo civil com poder de mando totalitário. Esta era a pretensão.

Mas o Brasil não é uma republiqueta das bananas fácil de se dobrar como pensaram os energúmenos oportunistas de direita de plantão, pois amadurecemos neste últimos 57 anos (do golpe de 1964 até hoje), de tantas marchas e contramarchas no seu processo político.

Em que pese a sua repugnante desigualdade social, somos um país continental de 210 milhões de habitantes e economia significativa, senão em termos de números absolutos, mas em termos de fornecimento de matéria prima em alimentos (cereais e carnes) e minérios (ferro, petróleo e outros), e alguns manufaturados (automóveis, aviões, máquinas, etc.), as primeiras como mercadorias que não agregam tanto valor como os manufaturados, mas que representam muito como riqueza material para os países importadores.

Não poderia, assim, se dobrar a aventureiros sem raízes políticas doutrinárias mais consistentes, e que entendiam poder governar com um Ministério de energúmenos canastrões de direita com seus discursos de ódio e de desconstrução de tudo que é ganho civilizatório e ainda orientados por teorias exotéricas de almanaque astrológico.

É incrível como nestes 2 anos e meio tivemos figuras como Abraham Weintraub, na Educação; Ernesto Araújo, nas Relações Exteriores; Ricardo Salles, no Meio ambiente; Pazuello na Saúde; para ficarmos apenas nos exemplos mais eloquentes da obediência cega à idiossincrasia primária de alguém despreparado para a Presidência da República.

Se os mais preparados fracassam pela inconsistência mesma de governar a escassez de recursos governamentais capazes de prover as demandas sociais, fruto de uma anemia mundial e regional econômica crescente, não seria um militar indisciplinado e parlamentar medíocre, orientado por alucinações doutrinárias exotéricas que sequer entende, que iria conduzir o Brasil a um porto seguro.
Boçalnaro, o ignaro, tentou inadvertidamente o autogolpe, mas não recebeu apoio militar e popular capaz de lhe dar suporte. Agora tenta sobrevier ao mandato, e já se desespera diante da certeza que o seu discurso ultraconservador e de bravatas superficiais já não cala nem mesmo nas consciências menos esclarecidas.
Não há clima para rupturas institucionais de direita, no estilo militarista, diante das manifestações de repulsa ao desgoverno. 2021 não é 1964, e não é um governo reformista como o de Jango Goulart quem está no poder político, mas um representante do que há de mais retrógrado no capitalismo, e ainda oriundo das hostes militares (mesmo que seja dela defenestrado exemplarmente). O seu vice-Presidente é general de alta patente, não esqueçamos.

O caminho mais curto e eficaz para a retirada de Boçalnaro, o ignaro, é a denúncia pelo Ministério Público Federal junto ao Supremo Tribunal Federal pelo cometimento de crime de responsabilidade; e para isto se faz necessário que haja um clamor popular e de organizações da sociedade civil neste sentido para que tal iniciativa force o MP a romper as amaras da inércia do procurador chefe contra quem o escolheu para tal cargo.

Não que um General como Hamilton Mourão represente esperanças de um governo eficaz, até porque não há governo eficaz dentro da estrutura de mediação social e governamental capitalista; mas será um exemplo de que o Brasil não aceita conviver com retrocessos políticos.
Todo apoio às manifestações #fora Bolsonaro!

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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