A guerra deles e a nossa

Parece que foi ontem. Estava eu em uma clínica de fisioterapia com a minha mãe (que se recupera de uma cirurgia no cotovelo feita em dezembro) quando fico sabendo pela Televisão que Putin invadiu a Ucrânia naquele mesmo dia pela madrugada do horário de Brasília.Uma senhora que estava ao meu lado na sala de espera exclamou ”Guerra! Em pleno 2022! Que Deus nos proteja!”. Talvez ela não entenda que sua perplexidade com aquele fato narrado pela Rede Globo represente toda uma complexa falha da linha política ortodoxa dos últimos 30 anos no Ocidente, que nos prometeu que as sociedades baseadas em uma economia de mercado são pacíficas e a guerra é algo que ficou no passado da humanidade, quando as pessoas se encantavam com ideologias como o fascismo, o nacionalismo ou o comunismo. A democracia liberal resolverá todos os nossos problemas e a globalização tornará todos ricos, cosmopolitas e democratas. Doce ilusão.

O século XXI voltou a se preocupar com coisas que pensávamos que eram de tempos remotos como pandemia, golpes de estado, eleições em suspeita e guerra. O que mais está por vir? Não sei. O que essa guerra demonstra sobre alguns aspectos de nossa sociedade? Falo um pouco sobre isso em parágrafos seguintes.

Primeiro, vamos aos fatos. Em 24 de fevereiro de 2022 a Rússia iniciou uma ofensiva militar por terra, mar e ar contra a sua vizinha  Ucrânia. Em seu discurso para a televisão,  o presidente Putin afirmou que o objetivo da ocupação não era tomar o território dos ucranianos e sim salvar o país do ”nazismo”. Volodymyr Zelensky, presidente Ucrâniano, declarou Lei Marcial e exortou seus compratiotas a pegarem em armas. Ao longo do tempo cidades ucranianas como Luhansk, Sumy, Kharkiv, Chernihiv e Zhytomyr sofreram pesados ataques das tropas russas. A partir do dia 25 de fevereiro, cronologicamente o segundo dia da invasão, os russos passaram a se concentrar em cercar a capital Kiev, centro do poder político e financeiro da Ucrânia. As cidades de Mykolaiv,Melitopol e Berdiansky foram atacadas e o líder da República da Chechênia Ramzan Kadyrov declarou apoio à Rússia, enviando tropas para lutar contra os ucranianos. O Ocidente reagiu iniciando o envio de armas para o exército ucraniano e as sansões contra a Rússia iniciaram-se. Algumas rodadas de negociações foram realizadas, em geral, sem muito sucesso. Um perpétuo jogo de ”eu ganhei, você está perdendo” entrou em ação, com a mídia russa servindo de linha auxiliar do governo e a mídia tradicional dos países ocidentais (incluindo o Brasil) orquestrando uma narrativa maniqueísta de ”Putin malvado” contra nós os ”bonzinhos democratas”.

No momento em que escrevo este texto (inicialmente numa quinta-feira 21 de abril de 2022) muitas baixas foram contabilizadas no dois lados do conflito e o horror da guerra chegou e mostrou seu rosto desumano. No lado Ucraniano, com o apoio das grandes potências, o que se defende é que a ofensiva russa não conseguiu lograr êxito, que Putin subestimou a resistência ucraniana e que, mesmo se vencerem  militarmente, os russos não conseguiram domar a Ucrânia, em razão de um aumento do nacionalismo neste país. No lado russo, autoridades militares afirmaram  que venceram a batalha pela cidade de Mariupol, onde o que restou do exército ucraniano se concentra em uma grande siderúrgica. O governo russo veicula que sua campanha de ”desnazificação” corre bem e há boatos de que internamente o dia 9 de maio já é tido como o ”dia da vitória”, servindo de propaganda para o presidente Putin se declarar o vitorioso do conflito e consolidar seu poder.

Não quero descrever ”lições da guerra”. A guerra é, em geral, sempre uma manifestação de violência (masculina) exacerbada e muitas vezes injustificável com fins de dominação e supremacia de uns sobre outros. É assim historicamente. Apesar das várias inovações tecnológicas advindas dos conflitos, no fim quem sofre mais são as pessoas inocentes. Não temos mocinhos na guerra atual, mas temos vítimas e elas são em sua maioria gente comum e inocente.

Me atrevo, entretanto, a listar ao leitor certas considerações que tive ao me deparar com o desenrolar do conflito russo-ucraniano.

1. Algo que ficou bastante claro para os observadores do conflito é a forma seletiva com que o governo da Ucrânia categoriza seus refugiados, gente que pode ir embora da zona de guerra, baseando-se em critérios raciais.Em um vídeo que se tornou viral dois estudantes negros, uma caribenha-britânica e ele nigeriano não conseguiam embarcar nos trens estabelecidos para evacuação apenas por que os policiais definiram que a prioridade na fuga era para os ”ucranianos de verdade” ou seja, pessoas brancas. Ademais vimos que os países da Europa Ocidental abriram suas portas (acertadamente) para as pessoas que fugiam do conflito prometendo moradia e benefícios sociais em seus países. Por que não observamos tal mobilização nas Guerras no continente Africano e nos conflitos patrocinados pelas grandes potências? Iraquianos, Afegãos, Sírios, Sudaneses e tantos outros não merecem a mesma consideração que os Ucranianos? Aqui no Brasil muita gente se solidarizou e rezou pelas vítimas da invasão de Putin mas não se importa com as vidas perdidas nas invasões de Bush e Obama. Infelizmente parece que a cor da pele e a religião ainda influenciam o modo com que os ocidentais e os brasileiros (faço questão de separar, pois, para o senso comum do chamado primeiro mundo, o Brasil é um país emergente e não passa disso) solidarizam-se com o outro. Será que um dia isso vai mudar?

2. Outro ponto que me chamou atenção foi a falta de cuidado com que a mídia tradicional brasileira tratou o conflito. Considero Putin um tirano e a invasão liderada por ele um crime. Agora,  daí a achar que os países desenvolvidos não têm  culpa no cartório e podem posar de paladinos da moral e da democracia é outra história. A expansão da Otan era algo que a há muito tempo os analistas destacavam que podia gerar um conflito sério. O insuspeito Henry Kissinger já falava em 2014 que o território Ucraniano deveria ser neutro como a Suíça, para evitar um conflito em larga escala.

Guerras, Invasões e desrespeitos aos Direitos Humanos, infelizmente, são absurdos que EUA, França, Reino Unido, Alemanha e outros países da União Europeia cometem quando seus interesses econômicos e Geopolíticos estão em risco. Putin aprendeu a lição com seus rivais do momento, o que de forma alguma justifica sua agressão, mas dá um panorama geral para a questão. O programa Fantástico, da rede Globo, um dia desses fez uma espécie de dossiê sobre a vida do líder russo; brinquei com uns amigos que parecia que eles estavam falando de um traficante perigoso como Fernandinho Beira-Mar ou Marcola tão grande era o maniqueísmo e sensacionalismo da matéria. Isso para não falar dos debates da GloboNews em que a palavras das autoridades americanas é tida como a verdade universal e em nenhum momento as agressões promovidas pelos EUA são levadas em conta.Guga Chacra, jornalista que trabalha em Nova York, certa vez ousou comentar que a expansão da OTAN era um erro; foi duramente repelido por Carlos Alberto Sardenberg que, visivelmente alterado, afirmou que o colega o estava ”defendendo a ação de Putin”. Esse é o nível da discussão na grande Mídia. Que pena!

3. O presidente do PCO (Partido da Causa Operária – sigla minúscula eleitoralmente, mas que ultimamente tem conseguido certo relevo nas redes sociais) foi taxativo ao comentar o conflito; — A esquerda brasileira deve apoiar Putin na luta contra o imperialismo norte-americano. Qualquer morte causada pelo anti-imperialismo é café pequeno frente a destruição promovida pelas forças imperialistas. O dito cujo, Rui Costa Pimenta, com discurso duro e dogmático, ao meu ver, representa o que tem de pior numa certa tradição do socialismo real, que remonta o que teve de mais lamentável na experiência soviética, como a prisão e morte de opositores e pessoas que por algum motivo eram tidas como traidoras. A linha do partido é uma lei que não pode ser desrespeitada, os inimigos do povo estão bem definidos e devem ser combatidos sempre e etc. Neste cálculo, as pessoas inocentes que morreram são apenas ovos que devem ser quebrados para que o Omelete fique pronto – e o discurso ultramilitante não perca a coerência. O tom sinistro destas percepções escancarou a falta de humanismo de certos atores políticos que figuram no debate nacional.

A guerra deles – os europeus- é pela disputa geopolitica que definirá o futuro,  o poder global das nações. No fundo a Ucrânia é apenas uma peça no tabuleiro estratégico de EUA, China, Rússia, Reino Unido e União Europeia que busca definir quem tem mais força na ordem internacional. A nossa guerra – me refiro a nós que estamos no Brasil e nos interessamos pelo debate político internacional – é pelo estabelecimento de valores democráticos que nos guiem em nossas interpretações sobre os fatos globais, sem dogmatismo e subserviência a quem quer que seja.

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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