A Guerra contra à Natureza tem nome: (DES)envolvimento.

Para escrever sobre a guerra à natureza, poderia me valer de várias fontes, como o profundo desequilíbrio dos oceanos, a emissão desenfreada de CO2 ou simplesmente falar das desigualdades econômicas. Contudo, tratarei de listar a origem dos fatos. Importa dizer que decretar guerra à natureza é reproduzir o soberbo comportamento do comandante de um navio que teima em não mudar de rota, mesmo tendo à sua frente uma imensa rocha.

Esses dias, tal vaidade voltou à tona, desta vez nas palavras da governadora do estado de Nova Iorque, kathleen Courtney Hochul. Segundo ela, “estamos em guerra contra a natureza”. A palavra guerra soou muito desproporcional, sobretudo quando colocada em um contexto em que esforços diplomáticos vêm sendo imprimidos para conter grandes desequilíbrios naturais, popularmente conhecidos por aquecimento global.

Ora! A decretação de uma guerra é feita a um perigoso inimigo que põe em risco sua vida. Ao fazê-la, devemos imprimir todas as forças para vencê-lo, até eliminar tal perigo. Mas, como fazer se o inimigo somos nós mesmos? A resposta está em um subtítulo do Livro “A Casa Comum, A espiritualidade, O Amor” onde o teólogo L. Boff quase chega a gritar: “terra e humanidade é uma só coisa!” Por isso, decretar guerra à natureza é guerrear contra à humanidade, em particular, e contra toda a comunidade de vida, em geral.

Talvez alguns organismos internacionais, mesmo sem forças para agir, já entenderam. Basta recordar as palavras do Secretário Geral da Nações Unidas António Guterres no último 22 de abril, por ocasião do dia mundial da Terra, quando sustentou que “precisamos parar com a nossa guerra contra a natureza” Nesse mesmo sentido, seguem as palavras do presidente do conselho europeu Charles Michel, para quem igualmente “é hora de parar a guerra contra a natureza”.

Em tempo, o formato do pensamento da governadora novaiorquina não é novo. Ele tem origem no atual modelo de (des)envolvimento. Aqui, vale recordar que a palavra (des)envolvimento significa negação ao envolvimento. Infelizmente com o tempo, sua semântica sofreu adaptações linguísticas para ganhar um aspecto positivo, até se fazer o centro do argumento para sustentar o antropocentrismo moderno. Nascido junto ao capitalismo, o (des)envolvimento serviu de base para a produção de uma sociedade desigual, sobretudo quando ganhou um adjetivo de “econômico.”

Para maquiar o desequilíbrio entre os países – forçado inicialmente pela primeira guerra mundial, seguida de uma profunda crise econômica e finalmente pela segunda grande guerra – arquitetou-se uma imensa rota de fuga; uma indecente armadilha nomeada de aliança para o progresso, ou simplesmente “teoria da ajuda”.

De forma resumida tal mecanismo fora criado pelas Nações Unidas para enviar recursos de refinanciamento aos países destruídos pela guerra que eles mesmo causaram. De prática financista, sua funcionalidade dava-se em cobrar juros maiores a quem podia menos pagar. Por resultado deu-se o maior endividamento dos países pobres que a história já registrou. Mais tarde tal mecanismo virou o que conhecemos por Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS – cujos resultados não poderiam nem ser positivos, nem tampouco sustentáveis. Mantenho meu argumento pelos resultados dos objetivos 1 e 2, destinados a acabar com a fome e a pobreza no mundo. Ao contrário do esperado, estes dois indicadores nunca estiveram tão ruins. Nessa toada, não serão cumpridos em 2030.

Aqui cabe lembrar as profundas palavras do sociólogo egípcio Samir Amir para quem “os ODS nada mais podem reproduzir que um apartheid global pela exploração primitiva e pilhagem dos países em desenvolvimento”.
Em nível local, “a guerra à natureza” está por trás da morte de vários ativistas ambientais. Desde Chico Mendes, passando pela missionária americana Dorothy Stang e mais recentemente as escandalosas mortes do funcionário público Bruno Araújo e do jornalista britânico Dom Philips, são alguns dos exemplos. Esta guerra é retratada na famigerada foto do então ministro do meio ambiente Ricardo Sales ao comemorar o contrabando de árvores. Isso mesmo: comemorar contrabando! Está devidamente expressa em cada servidor ambiental perseguido, em cada negação de direitos aos povos originários e tradicionais. Está sintetizada nos desmontes das políticas de proteção do meio ambiente levadas à cabo pelo governo Bolsonaro. Isso é a própria guerra a natureza.

Ao invés de decretar guerra devemos cuidar da natureza. Ao contrário da dominação e do acúmulo, deveríamos tratar a natureza como mãe. É ela quem nos alimenta, quem nos sustenta. Não há sociedade apartada da natureza, pois somos parte do mesmo sistema e, por isso, decretar guerra à natureza é decretar guerra a nós mesmos.

Como bem disse o teólogo brasileiro L. Boff, “o universo inteiro se fez cúmplice na produção do ser humano… Forjando os principais elementos que entraram na sua composição” a isso o autor induz ser: “a grande cumplicidade cósmica.” Então, como podemos agora decretar guerra à natureza, se ela, como alui nosso autor, “é um superorganismo que articula dimensões físico, químico e ecológico” e tal articulação produz o perfeito equilíbrio que nos garante a vida?

Em outro trecho do seu livreto, o professor brasileiro destaca ser preciso “darmo-nos conta de que podemos ser destruídos”. Segundo ele, isso pode acontecer “não por algum meteoro, nem cataclismo, mas pela irresponsabilidade da ação humana” que de forma violenta suga todos os recursos e riquezas naturais da terra, até que esta conheça sua exaustão.

Finalmente, é preciso responder se estamos de fato em guerra contra a natureza. Quero responder que sim. De fato, estamos em guerra contra a natureza e acrescento: já perdemos! Por isso, não devemos nos assustar com as palavras da governadora americana. Ao seu modo guarda coerência com o modelo econômico de (des)envolvimento – palavra bonitinha para traduzir o antropocentrismo. Mas, gostaria de alertar que o que deveria nos assustar é a insistência em continuar tal guerra, mesmo tendo à frente um imenso e obscuro penhasco.

Rafael Silva

Professor da Universidade Federal do Ceará e Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra - UC.