A guerra chinesa é mercantil

Não importa em que grau a China se abre para o mundo exterior e admite capital estrangeiro, sua magnitude relativa será pequena e não pode afetar nosso sistema de propriedade pública socialista dos meios de produção.”
Deng Xiaoping

O capitalismo está a se desintegrar, e não é pela força das armas operárias dirigidas por um partido político… mas pela própria autofagia das suas contradições que estão a impulsionar a espécie humana no sentido da busca de uma relação social viável e fora da forma valor.

É claro que o capitalismo não vai cair de podre, pois se for necessário ele conduz toda a humanidade para o abismo sem fazer a autocrítica da própria forma… mas aí a luta darwiniana da preservação da espécie colocará as condições revolucionárias objetivas que, aliadas a uma práxis teórica e crítica corretas, poderá conduzir a humanidade à transformação necessária e ao novo patamar de sua existência!  

As teses que defendemos têm encontrado convergência com a realidade, e com bastante celeridade, ainda que os fatos históricos careçam de mais tempo do que o ciclo de vida de um ser humano para a sua completa configuração.  

As guerras continuam a acontecer, como é o caso da tentativa de anexação da Ucrânia pela Rússia; retaliação desproporcional de Israel aos Palestinos da Faixa de Gaza; e a mais recente tentativa de anexação pela
Venezuela da região de Essequibo na fronteira da República de Guiana, para ficar apenas em três exemplos bem atuais.  
Mas há outros componentes proporcionados pela guerra concorrencial de mercado que merece atenção e que não necessariamente deva derivar para confrontos bélicos, ainda que tal possibilidade esteja sempre na pauta do dia, vez que é da natureza do capitalismo o domínio pela força, quando isto não é possível pela troca de valores das mercadorias (compra e venda destas).  
Já dissemos em outra oportunidade que a China está solapando o capitalismo pelos seus próprios fundamentos, em razão do chamado crescimento rabo de cavalo, para baixo!  

À China não interessa a ocupação política e anexação de territórios pela força das armas, mas pela ocupação econômica.

Não que a China queira intencionalmente o fim do capitalismo selvagem que pratica, mas, ao contrário, foi o mecanismo que optou com a chegada de Deng Xiaoping ao poder político em 1976, e como leito natural de sua teoria de adaptação econômica à realidade chinesa de transição de um capitalismo de estado agrícola para um capitalismo liberal industrial de mercado, caminho que podia e deveria ter sido trilhado de modo deferente, negando o próprio capital.  

A China buscou conquistar o mercado a partir da produção e venda de mercadorias com produção barata (trabalho abstrato de baixo custo e incentivos fiscais) e qualidade que se aperfeiçoa com o passar do tempo.

Tal mecanismo, realmente retirou grande parte da sua população do campo, onde vivia rudimentarmente, para as cidades, num processo de industrialização acelerado, e com isto criou um expressivo segmento de aristocracia operária e de serviços (a que se costuma chamar de classe média burguesa) conquistando os mercados mundiais e se tornando compradora mundial de comodities a serem manufaturadas e revendidas com valor agregado.  

Entretanto, o crescimento chinês se baseou num processo de endividamento que a tornou refém da necessidade de altas e permanentes taxas de crescimento que se evidencia como impossíveis de ocorrer, o que a obriga a uma fuga desesperada para a frente, provocando a dessubstancialização da massa global de valor e com isto a paralisia da capacidade de reprodução aumentada da dita cuja, sem a qual toda a engrenagem capitalista emperra e evidencia a sua inconsistência lógica e disfunção social.  

A chamada nova rota da seda chinesa, tentativa de uma pretensa salvação da economia chinesa, consiste num programa de expansão da produção de mercadorias no hemisfério sul, com a exploração das riquezas minerais dos empobrecidos países situados na região (Ásia, África, América Central e do Sul) e concessão de créditos a juros ainda mais altos do que os praticados pelo FMI, numa tentativa de formação de um novo bloco capitalista hegemônico pretensamente capaz de evitar o colapso anunciado.  

A China, dita comunista, quer se salvar a partir de antigos pressupostos capitalistas, contra os quais fez a revolução maoista em 1948; um paradoxo que somente confirma a força ditatorial da lógica funcional do capital quando não extirpada pela raiz.  

Agora, a China apresenta a sua mais nova arma ao mundo capitalista: a invasão do carro elétrico chinês.  

As antigas empresas automobilistas ocidentais que se instalaram na China fabricando carros à combustão fóssil buscando competitividade na mundial guerra concorrencial de mercado em face dos baixos salários ali praticados e dos incentivos fiscais, e ganharam bilhões em lucros, agora veem a carruagem virar abóbora.  

As empresas chinesas adquiriram tecnologia e agora fabricam veículos elétricos que representam o futuro, não apenas por conta do correto apelo ecológico de não emissão do gás carbônico da atmosfera (CO²), que polui as cidades apinhadas de veículos de particulares e provocam o chamado efeito estufa (retenção de calor que aquece o Planeta), mas, principalmente, pelo baixo custo de produção.

O baixo custo de produção dos carros elétricos chineses decorre de fatores conjugados, como baixos salários, subsídios ficais e baixo custo das baterias, que representavam anteriormente cerca de 50% do custo total de um veículo.  
A aquisição chinesa de minas de lítio, cobalto (na África) e manganês nos países do hemisfério sul tem permitido o baixo custo da produção das baterias elétricas, cuja fabricação a BYD tem muita expertise em razão de que seu início empresarial se deu justamente na fabricação desse produto fundamental para a fabricação dos carros elétricos.  

Para se ter uma ideia da dessubstancialização do valor dos veículos, e seu consequente preço no mercado automobilístico, basta dizer que a BYD (iniciais de Build Your Dreams, ou construa os seus sonhos), maior indústria chinesa de veículos, está deixando a Tesla estadunidense e a BMW alemã no chinelo.
Um veículo de modelo mais simples pode chegar a ser vendido por até U$ 10.000,00, significando uma incompatibilidade de custos de produção para os seus concorrentes.

Dessa forma, a exportação de carros elétricos chineses ganhou o mundo, e provocou um frisson não apenas na cadeia de produção dos países da União Europeia e Estados Unidos, mas em toda a indústria mundial voltada para a exploração, exportação e distribuição de gasolina e óleo diesel no atacado e no varejo.  
Até fabricas de marcas tradicionais europeias são vendidas aos chineses que assim operam com produtos com os antigos nomes e reconhecida credibilidade, sem que os consumidores saibam que se trata de produto de fabricação chinesa.  

Mas o incômodo comercial que causa desemprego e produção de capitais válidos para as regiões que outrora foram exportadoras de veículos e que agora se tornaram importadoras dos mesmos tem provocado preocupação com os subsídios que o Estado chinês concede às suas empresas, e já se movimentam com medidas protecionistas porque o livre mercado somente vai até onde a vida comercial assim o permite.  

Nada mais keynesiano do que um liberal clássico no governo quando as regras do capital determinam a proteção estatal das suas economias em queda.  

A China ao crescer solapando a massa global de valor e causando o desemprego estrutural provoca uma disfunção social tão gigantesca que termina por atingir o seu próprio crescimento e decreta a sua própria paralisia estrutural, não sem antes provocar um tsunami no sistema de crédito bancário que roda em falso com créditos estatais insolváveis cuja insolvência será o começo do fim.
Como disse Marx, “o capital cava a sua própria sepultura”.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;