“A GENTE NÃO SABEMOS ESCOLHER PRESIDENTE”

I. O VERMELHO VESTE A PRAGA?

Ontem, sexta, já nas primeiras horas da manhã, no retorno da primeira “corrida” que faço em dias úteis aos colégios dos meus netos, na condição de “vô-torista” (função sem qualquer remuneração tilintante, escritural ou virtual), ali, na esquina da Gustavo Sampaio com a José Jatahy, bem próximo ao semáforo, em mercadinho de pequeno porte, de uma única porta de acesso – entrada e saída –, aos fundos um singelo e bem sortido balcão de padaria, dirijo ao seu Zé, o dono, o meu já recorrente pedido: quatro pães carioquinhas (os mais “assadinhos”, de casca crocante), uma tapioquinha de coco (exclusividade da minha eterna parceira) e um minicuscuz tipicamente caseiro, a ser embebido em leite quente, cuja degustação me faz retornar aos idos tempos em que o meu pai cultivava roçados em quadras invernosas, lá pras bandas do Coió, na querida e saudosa Baturité, e nós – eu e o Olavo, meu irmão mais vivido – “manivelávamos” o moinho em que se trituravam, em não menos de três estágios, os grãos de milho secos, postos de molho depois da debulha e por algumas horas até torná-los menos rigorosos e exigentes no processo estritamente manual, de que se obtinha uma massa de qualidade, a qual mamãe transformava em pão-de-milho deveras substancioso. Eis, pois, o ingrediente básico do cardápio de nossos saudáveis jantares em família. Há mais de meio século.

Até aí tudo bem. Ocorre que, de repente, percebo, à minha esquerda, a presença de outro freguês, certamente “mais da casa” que eu, de pé ao lado do balcão, à mão esquerda uma sacolinha transparente com uma dezena ou dúzia de pãezinhos, a direita livre para os movimentos gestuais em favor do palavreado que convicto enuncia, o corpo atlético de quarentão, vestido em calça jeans em preto sob processo de desbotamento natural, cujas pernas encobrem quase totalmente um par de tênis gastos pelo uso e sem cor definida, na parte que sobra à vista do observador, e camiseta de gola redonda ou careca, em tonalidade de azul escuro, no peito a vistosa logo em amarelo de empresa especializada em motos, comercialização e manutenção – é o que sugere –, altura mediana, a pele pardacenta, a cabeça ovalada e desprovida de proteção capilar por moto próprio, o olhar ameaçador.
E é exatamente a conversa que ele mantém com o seu Zé que me chama a atenção, embora o meu propósito atual – em face do grave momento que ora vivencio, em plena “dê-erre” com o meu amigo de todas as horas (o diabetes), sob tratamento de coquetel medicamentoso, via oral, que não raras vezes me desconcerta, me fragiliza – consista em não envolvimento em discussões, em especial as que abrangem religião, futebol ou política. E sobre o que eles conversam? Política, obviamente.
– Ô Zé, você está assim meio distante das coisas, parece que já não mais acredita na vitória do bem contra o mal…
– Pois é, Cacá. O homem não reage. O tempo passa, o dia está chegando e nas pesquisas ele não avança. Mantém-se na casa dos 30…
– Você já esqueceu de como ganhamos a última…?
– Mas ali o adversário era outro… um poste…
– Rapaz, se eles não fizerem nada de anormal nesta reta final, se as urnas não nos roubarem, são favas contadas. O capitão será reeleito no primeiro turno. – E aí ele quis me meter no colóquio por mim indesejado. – E aí, o que o senhor acha de tudo isso?
– Amigo, não acho nada, até porque não estou sequer procurando…
– Já sei. – Concluiu o quarentão de azul. – É lulista…aposto todas as minhas fichas.
– Já fui. – Respondi com a calma que jamais acreditei ter. – Votei nele em todas as oportunidades. Perdi várias. Collor, FHC. Hoje já não voto mais.
– Se não é lulista, não pode negar que é petista…
– Também não, amigo. Sou apenas um cidadão comum, contribuinte indefeso e apartidário.
– Com esta camisa!

De imediato, lembrei-me da minha camisa azul de gola polo, com dois botões, um deles crítico ferrenho de mim, quando pratico atos que, ao sentir dele, me desabonam como Homo sapiens. Na verdade, ali estava com camisa de gola polo, cor vermelha tendendo a escarlate, o que o fez entender que tal uso nada tinha a ver com o meu razoável e defensável gosto pessoal, mas com alguma admiração a uma específica estrela. Assim reagi:
– Amigo, hoje à tarde, a seleção brasileira em preparação para a Copa do Qatar faz amistoso contra Gana. Como de costume, vou vestir a camisa amarela com listas verdes na gola e nas mangas. Aí, sob seu conceito sobre cores, eu terei deixado de ser “petista” para ser “bolsonarista”. É assim que, a seu ver, as coisas funcionam? Entendo que não…
– O senhor é, no mínimo, engraçado… – Diz isso, fuzilando-me com um olhar de desprezo. E a sensação que então me invade me faz ouvir “desgraçado”. Engulo a seco.
Com um “bom dia” sincero, amistoso, deixo o recinto e me dirijo ao caixa. A moça que me atende veste-se com a camisa de um azul esmaecido, na altura do peito o triangular e tricolor escudo do Leão do Pici. E, mais uma vez, lembrei-me dos conselhos do meu velho pai, quando dizia, por exemplo, “Boa romaria faz, quem em sua casa fica em paz”. É pra lá que vou…
(…)
Hoje, sábado, nas compras no Assaí e Mercado São Sebastião, cumpro, com um olho nas necessidades e outro na já combalida capacidade do orçamento doméstico, com as mesmas obrigações de arrimo de família responsável, incluindo a dos pãezinhos, da tapioquinha e do minicuscuz. A moça do caixa, agora sem indumentária que a identifique com alguma entidade – do futebol ou da política –, com voz quase inaudível, indaga-me, revelando um certo intereresse:
– Em quem o senhor vai votar, hein?
– Amiga, perdoe-me se sou indelicado. Mas, pra mim, o voto é secreto…
– Pois, doutor, sou bolsonarista… com muito orgulho e fé!
Sorri um sorriso meio murcho, recolhi as moedinhas do troco e saí. Antes, obviamente, eu lhe desejei uma boa sorte. Não só pra ela, mas pra mim e pra todos nós que, de alguma forma, seremos chamados a pagar a conta. Como sói acontecer, desde sempre.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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