“A GENTE NÃO SABEMOS ELEGER PRESIDENTE” II. “A GENTE [EU E ALGUMAS VERSÕES BEM POPULARES DE MIM MESMO] [NÃO] SOMOS INÚTEIS”

Antônia (a Toinha de Margô; a minha porção mais senciente, mais perceptível, mais sensível)
Sinto que a imaginária linha do horizonte da minha humana existência avança contra mim célere, em velocidade constante, e, assim, aproxima-se tanto de mim (já a percebo ali, a poucos passos da minha sombra a espreitar-me), à frente a quintessência da luminosidade pródiga, natural, que é luz, que é vida, embora, como tal, tudo cresta, tudo esturrica, tudo consome, deixando-me desnuda ante mim mesma. Invade-me, na exata medida, a inteira sensação da minha consciente individualidade; é nessa inteireza única, inviolável e crucial que me conscientizo da grande responsabilidade de ser eleitora – que sou! –, que me rendo ao real significado do ato de votar – que ora me acomete! –, que me preparo, física e psicologicamente, para o sublime gesto de, sob o comando da minha vontade incorruptível e essencialmente cidadã, fruto dos meus algoritmos altamente sofisticados (as sensações, as emoções e os desejos), decidir por dedilhar algumas teclas de uma maquininha fria, indócil e infalível – voto secreto e seguro, portanto –, onde e quando sofro as dores de parir o meu voto, mitigadas pela musiquinha característica do sucesso de cada etapa do processo. Os escolhidos para mim sorriem um sorriso de fotografia e, desconfiado, desgosto-me ante o afrontar de uma dúvida: por agradecimento ou por deboche?! O botão “Confirma” encerra qualquer suspeita. Vale o que penso, o em que creio, mesmo que as minhas expectativas não se confirmem, nem agora, nem no porvir. Vencer ou perder é apenas uma questão de ver as coisas com um outro olhar, mais criterioso, diverso do que pensam, divergentemente, os modernosos gregos e troianos que bem poderiam ter permanecido na ancestralidade. De certo, não sentiríamos as suas ausências. E que eu tenha um dia iluminado!

Antônio (o Tonho de Raimundinha; a minha porção crítico-analítica, nada afetiva e emotiva; a razão como fundamento basilar)
Se no desassossego pessoano aflora, entre incontáveis outros entendimentos que nos fazem pensar a vida mais profusa e profundamente, o de que “Não se pode comer um bolo sem o perder”, na crença ou descrença do cidadão comum nutre-se o adágio infame de que “Voto dado, voto perdido”. Assim, se o voto era útil, agora o eleitor é inútil?! Permito-me discordar de ambos. No caso do metafórico bolo, o ganho está, indiscutivelmente, na satisfação de degustá-lo (função básica do bolo: é para isso que o fazem; se não o comerem, ele fatalmente deixará de sê-lo) e de manter na memória, por mísero tempo que seja, o prazer do saboreio (Não se trata propriamente do saciar a fome, algo estritamente biológico, físico, mas de sentir o divinal gozo do que nos é apetecível, algo essencialmente transcendente, espiritual). Trata-se, pois, de um sentir não aprisionado pela matéria, pois vai bem além disso, alcança o ponto mais central do humano sistema sensorial. No caso do realismo do voto, não se perde ele no ato de dá-lo a outrem. Na verdade e a rigor, há mais depósito que dação. Nele se consubstancia a confiança que o eleitor deposita em quem escolheu para ser seu lídimo representante. Entre eles, então, firma-se um contrato não formalizado, em que, de um lado, há assunção de compromissos, e, do outro, há delegação de poderes. Perceptível está que o tempo é que vai revelar em que sentido se constrói a utilidade do voto, a depender das razões que o construíram. Ademais, negar uma autoridade posta, constituída pelo voto popular, também consiste em prática cidadã – o eleito que nos convença dos méritos da sua vitória; assim não fosse e a democracia se esfacelaria, o sentido basilar se esvaziaria. Ora soa-me aos ouvidos a sábia voz machadiana, propagandeando um fictício viés filosófico por Quincas Borba rotulado de Humanitas: “Aos vencedores, as batatas.” E que eles, os vencedores, demonstrem ter a necessária competência para transformá-las em saboroso e nutritivo purê, que não se perderá porque o degustaremos. Quanto aos perdedores, em vez da fúria, a compreensão e a resiliência. O resto, no dizer de quem não me lembro agora, perdoem-me por isso, é nada. Recomendável será acompanhar Horácio (em Odes): “Deixa aos deuses o resto”.

Francisco (o Xyko de dona Enedina; eu, simplesmente eu e as minhas idiossincrasias, sempre passíveis de crítica e revisões)
Ora salta-me da memória carcomida pelo uso, ou pelo tempo, ou por ambos, um sentir pessoano, poético ou filosófico e profundo tanto na singeleza da forma quanto na expressividade do conteúdo invisível e imperceptível para os que apenas olham e nada enxergam, veem, o qual, de quando em quando, avassala-me a pobre alma, ainda digna de manter vivo um corpo com indeléveis marcas do cotidiano envelhecimento, de que já não mais emana o mesmo calor de vivências anteriores, febricitantes e intimoratas, e a voz do celebrado vate lusitano ressoa, então, no âmago do que ainda pretendo ser, como se fora uma trombeta angelical a anunciar deuses inconstantes, inservíveis e inoportunos: “Invejo a todas as pessoas o não serem eu”. Pois bem. Invejo – eu também, sem qualquer vestígio de sentimento de culpa porque no limite do que me é dado sentir sem pecado cometer – todos os que se satisfazem defendendo frágeis e disfarçáveis lideranças que se nos vendem como senhores absolutos da verdade, estrelas cintilantes a seguir, líderes incontestes a servir, divindades impolutas e magníficas a quem devemos confiar o trono, símbolo humanizado do poder. Se invejo?! Invejo, sim! Resta-me, todavia, o rogo: Senhor, enquanto “procuro um homem [ou mulher, no caso]” que mereça o meu valioso voto, confiai-me, para que possa alumiar os caminhos a percorrer em trajeto de que se fazem frequentes a escuridão e as trevas, o candeeiro do filósofo grego Diógenes, o Cínico, para quem “A sabedoria serve de freio à juventude, de consolação à velhice, de riqueza aos pobres e de ornamento aos ricos”. Logo ali, uma crucial encruzilhada se me oferece sem atrativos que me convençam a seguir um ou outro caminho. Haverá uma veredinha que seja para que eu possa sair pela tangente, sem desculpas esfarrapadas? Quiçá, sim!

João (o Joãozinho do seu Zuca; a minha porção à Sêneca, célebre orador romano, ícone da retórica)
A constituição incorpórea, única e incomparável do indivíduo consiste no resultado cumulativo dos profícuos fazimentos que, no curso inexorável do tempo vivido, dispôs-se ele a ser protagonista. (Ao corpo físico, visível, tocável, cabe o encapsulamento de tudo isso, dando-lhe forma de matéria, enquanto tal encargo lhe for de todo possível). Quem nada fez, nada é. Os atos que pratiquei e pratico em vida é que me projetam e projetarão pela minha eternidade, exuberante ou sofrível. As vitórias me fortalecem; as derrotas me redimensionam. Viver é lutar sempre a favor ou contra o invisível do amanhã, com armas e estratégias recolhidas no ontem e readequadas às exigências impostas pelo hoje. Não há como fugir disso, sem se perder em descaminhos que ao Nada levam. O agir não me cansa; ao contrário, me revigora, faz-me sentir útil. O meu êxito tem de ser compartilhado para adquirir validez, mesmo que momentânea, efêmera e, portanto, não reconhecida pelos céus dos meus ancestrais. Não me encastelo; jamais serei omisso. Assim, um gesto aparentemente simples – e útil! – como, por exemplo, o acionar de teclas de uma urna eleitoral, reconhecida cientificamente como indevassável e inexpugnável na sua esplendorosa agilidade algorítmica (algo incompreensível para mentes medíocres que, a respeito, regurgitam infundadas e perigosas desinteligências), revelará muito de mim: do que fui, do que sou, do que serei. E, se ilha não sou – não quero ser! –, os efeitos de tal ato solitário e magnânimo afetará não apenas a mim, o ator, mas a todos que comigo constroem, direta ou indiretamente, a narrativa que cotidianamente me é dado interpretar, protagonizar. Cônscio estou de que me alcançarão, de uma forma ou de outra, os efeitos, oportunos ou tardios, do cometimento do sublime ato de votar. Não fugirei à responsabilidade. Também não votarei apenas por votar; tampouco me disponho a escolher o “menos pior”, até por encerrar sentença eivada de agramaticalidade (Língua minha, que acinte!). E que o meu dedo indicador siga rigorosamente as ordens emanadas das minhas convicções acerca dos sonhos que ainda nutro porque me fazem crer ser membro eficaz de uma sociedade justa e promissora. Pretender mais que isso equivale a cometer erro de estratégia e de meta. Longe de mim tal dissabor.

José (o Zeca de Faustina; a minha porção leitora e, por extensão, afeita a referências, a citações)
Permitam-me, incansáveis leitoras e leitores, concluir essas andanças revigorantes – algo que em mim se faz necessário, mormente em momentos de importantes decisões e de significativas revelações – pelo universo pessoano, tão rico de introspecções, de advertências do espírito acerca do que pretende o corpo no agir inconsequente e certamente desprovido de lógica, com este “pedaço de fragmento” de uma das mais instigantes obras da lavra do consagrado vate português, o Livro do desassossego, tida como microcosmo de Fernando Pessoa (ou Bernardo Soares, seu quase-heterônimo): “Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque artista [creio eu que também sou!], entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.” Já em Homo Deus: Uma breve história do amanhã, do festejado pensador israelense Yuval Noah Harari, recolho, às vésperas das eleições democráticas, estaduais e nacionais, quando decidiremos, na suprema condição de eleitor, a quem devemos entregar as rédeas do poder republicano, este oportuno excerto: “Mas o eleitor saberá o que escolher? Ao menos teoricamente, supõe-se que ele consulte seus sentimentos mais íntimos e siga sua orientação. (…) Para entrar em contato com meus sentimentos, eu preciso filtrar e eliminar slogans vazios de propaganda, as mentiras intermináveis de políticos empedernidos, os ruídos que desviam a atenção criados por marqueteiros, além das opiniões criteriosas de gurus contratados. Preciso ignorar toda essa algazarra e só dar atenção a minha autêntica voz interior.” Ora, isso não é fácil. Isso não se faz de afogadilho, às pressas, com precipitação nem afobação. Nem tampouco é recomendável fechar questão e pronto! A minha decisão poderá até me custar muito caro. Portanto, muita calma nesta hora. Além de bom senso, é óbvio. E o amanhã será um novo dia. De sol ou de trevas, conforme fizermos por merecê-lo. E, se “A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro”, cabe-me, na plenitude do sossego que as minhas vivências e a minha experiência me abonam, rogar ao Ser Supremo, criador do sol e das trevas, do ouro e do vidro, que não me permita deixar de ser criança (nunca, jamais!), embora envelhecendo natural e cotidianamente. Sopra-me ao ouvido o ensaísta Montaigne: “Se o homem fosse sensato, a cada coisa daria um valor segundo sua utilidade e sua adequação à vida”. Pois é.

José (o Zequinha de Porfírio; a minha porção mais observadora, mais crítica, às vezes onipresente, e contadora de “causos”)
Amarílio, um jovem economista, analista de mercados em instituição financeira, casado com pedagoga, professora em colégio da rede particular de ensino fundamental, pais de um casal de crianças em idade pré-escolar (compõem, por assim dizer, uma clássica unidade familiar), decidiu, recentemente, por graduar-se também em Direito. Conseguiu, com o aval da jovem mulher, ajustar o seu já intenso cotidiano com a inserção dessa nova obrigação. Ora vamos encontrá-lo em sala de aula de tradicional faculdade da rede pública de ensino superior. Logo no primeiro momento, ao ouvir as rigorosas condições impostas à turma por professor de uma das mais importantes – e, por isso, concorridas – disciplinas do currículo, Amarílio pressentiu que, em função da sua agenda cotidiana repleta de compromissos e afazeres, não iria cumprir tão exigente rito. Com discurso que prendeu a atenção de todos e argumentação que já antecipava o “levar jeito para a coisa”, ou seja, dispor da competência sempre requerida de um bom causídico, convenceu o mestre quanto a merecer tratamento diferenciado, desde que correspondesse, em termos de aprendizagem e de cumprimento das atividades curriculares ou extracurriculares, no mínimo exigido pelas normas então postas no âmbito da faculdade. Amarílio, certamente em face do seu desempenho, do estilo que revelava bom senso, inteligência e capacidade interpretativa no encaminhamento das questões fáticas que lhe cobravam soluções práticas, factíveis e, mais ainda, sob o império da lei, foi, às vésperas do pleito eleitoral, indagado sobre as suas preferências de eleitor consciente das suas responsabilidades. E ele assim se posicionou: “Mestre, colegas, há em mim uma latente indignação quanto a três fenômenos específicos que acabam desbordando para o meu peculiar processo de escolha, quais sejam: primeiro, a incapacidade que demonstra ter um país com mais de duzentos milhões de habitantes, dos quais não menos de setenta por cento detêm o poder e o dever legais de votar, com mais de meio século de formação sociopolítica, de produzir um verdadeiro líder – um único que seja! –, com potencial para estadista, em que pudéssemos confiar a gestão da coisa pública; segundo, a incompreensível tendência do brasileiro, em especial o conservador, em defender, consciente ou inconscientemente, o retorno ao ‘status quo ante’, ou seja, ao estado das coisas anterior à crise, no caso, mesmo que isso resulte em atraso, em retrocesso; terceiro, a polarização, na forma como se dá, não pelo confronto natural de direita e esquerda, dualidade com berço francês, não pela disputa entre republicanos e democratas com simbologia do elefante versus o burro, gestado em berço estadunidense, mas entre o Bem e o Mal, que digladiam com as armas de que dispõem, cujo desbordo sugere ao grosso da população votante a escolha do ‘menos pior’. E isso empobrece o pleito, à medida que abandona o campo das virtudes, das ideias, das propostas, e se instala na arena da refrega insana dos defeitos, dos desarranjos verborrágicos. Concluo, senhores, afirmando que, se a política nacional se preocupasse com o futuro do país, a disputa se restringiria a Ciro e Tebet. Em um deles, votaria; ou melhor, votarei. Até porque, para mim, mudança e transformação só ocorrem com o novo; mas necessariamente com um ‘novo’ competente. E se o Ciro, para muitos, especialmente profissionais da imprensa, é estouvado, ele já demonstrou ser conhecedor da matéria. Eu prefiro ser enganado por quem demonstra inteligência, capacidade, conhecimento, a ser por um ignorante, incapaz, incompetente. E isso era o que tinha a dizer, desculpando-me por ter-me alongado demasiadamente.”

Maria (a Zinha da Dasdôr de Jesus; a minha porção poética, certamente a de menor expressividade)
Não sou poeta; nunca pretendi sê-lo. Talvez não vá além de filha de repentista, sertanejo produtor de versos matutos que se encaixam em toadas de maviosa e deleitável viola. Não produzo Poesia; talvez porque careça de longanimidade, no sentido de ousadia, coragem; e, mais que isso, por faltar-me, uma perfeccionista incorrigível, a paciência de um João Cabral de Melo Neto, o arquiteto das estruturas poéticas, na busca do apuro e da precisão das palavras em uso. Cometo (é válido dizer), aqui e acolá, poemas e poemetos sem muita pretensão; certamente, nesse agir, movem-me as pressões da irrequieta e, então, irrefletida alma. Assim ajo para satisfazê-la; e, se publico o produto dess’arte, estimula-me a natural preocupação de todo autor, ou seja, dar-lhe materialidade e – quem sabe! – a pretendida eternidade. Apesar de tudo isso, peço-lhes, ó amáveis leitoras e leitores, que apreciem alguns dos meus arroubos artísticos que, a meu exclusivo sentir, mantêm alguma relação com o decisivo momento por todos nós ora vivenciado.
I. POEMETO DA REFLEXÃO:
Já se impõe que, / Em tempos de escolhas cruciais, / Sejamos, no mínimo, sensatos.
Já não nos cabe mais que, / Cega e surdamente, sigamos / As nossas venetas vãs e rotas.
Já não mais razoável é / Pôr sobre retos e inflexíveis trilhos / Os nossos injustificáveis desideratos.
Já bastante recomendável é / Que, de forma responsável, / Optemos por trilhas outras.
II. A QUEM INTERESSAR POSSA… [… e ao senhor presidente que, infelizmente, não sabe o que é ser Presidente.]
Quase nada mesmo me confrange, me abespinha mais / Que palavrão enodoando a candidez dos lábios de mulher; / Que ter de recorrer a quem se mostra de todo incapaz; / Que aconselhar-me com quem não professa qualquer fé.
Incomodam-me proposta indecorosa de quem quer que seja; / Convite impertinente para que apoie idolatrias indigestas; / Rosais deveras exibidos sobre os quais nem borboleta adeja; / Intelectual descortês cujo discurso nefando a tudo infesta.
Inquieta-me saber que há inteligência servindo a marginal; / Que a incompetência se empodera (e isto em mim soa mal!); / Que já reverberam ameaças à ordem com práticas ruinosas.
O que fazer? Não sei. Será que quem sabe ora se acovarda?! / Pois, se tudo já reclama urgência, aí é que tudo se retarda… / E é assim que o futuro vai se construindo em bases ominosas.
III. POEMETO DA POLARIZAÇÃO
Um idiota e um bêbado se esbarram numa esquina qualquer. / Para um, com seu deus no comando, a medíocre arrogância; / Para o outro, honestidade sem igual, o retrocesso. Haja fé!
IV. EIS A QUESTÃO…
Amigas e amigos, há um lado em mim – há sim! – , / para onde credulamente o coração mais pende / e ininterruptamente gotas de romantismo instila, / que me incita, nest’hora tão crucial: – Não vote!
Um outro lado em mim também há, enfim, / por onde sensivelmente a razão mais se estende / e apropriadamente gotas de realismo destila, / que me adverte, nest’hora mais crucial: – Vote!
Assim, entre u’a razão realista e um coração romântico, / o meu eu político, tão criterioso, exigente e rigoroso, / acompanha o escorrer da manipueira, pano a pano;
Segrega, para a colheita, o trigo bom do joio maléfico; / acautela-se, pois seu voto rebenta de parto doloroso… / forjado em atos bem mais divinais do que humanos.

Pedro (o Pepeu de Macambira; a minha porção mais “cascuda”, “elétrica”, pau pra toda obra; o que não leva desaforo pra casa, nem manda recado; nem sempre o meu “eu” nuclear, gerencial, a quem compete o comando de todos os outros “eus”, de todas as porções, consegue exercer controle sobre ele)
Calar-me?! Nem pensar! Se sou produto do meio e ele me estupidifica, não me submeto a refreios. É o que vivencio agora. À minha esquerda, ouço a voz rouca do discurso que a muitos convence, embora impregnado de bolor, de naftalina, de decadência, de ressaca, a reverberar a mesmice do outrora, merecedora de aplausos de quem não admite correr riscos, de quem acredita em mudança e transformação através do mesmo enredo e com os mesmos atores. Até os entendo e respeito; mas deles discordo. Valho-me de Gaspari que, em recente coluna em jornal local, sustenta que “O conservadorismo brasileiro colocou Lula na porta do palácio porque atou-se ao atraso de forma inédita no período republicano.” À minha direita, invade o meu desprotegido pavilhão auricular a voz nada melódica ou cativante ou conquistadora do discurso que seduz e instiga pouco mais da terça parte do universo de eleitores, os incondicionais seguidores, apesar de desconexo por erigir-se em base frágil porque assentada num mix de ignorância, insensatez e incompetência. (Recorro aos ensinamentos do meu velho pai, para quem “Numa discussão, se alguém alteia a voz ou parte para a agressão, pra este se esgotaram os argumentos admissíveis”; lembra a fábula O leão e o cordeiro, de La Fontaine). Em ambos os discursos, não se percebe haver um plano de voo. E a nave levantará voo às cegas, sem destino definido, com o comandante e a tripulação de olhos vendados. Em ambas as narrativas, omite-se, de propósito, o que as torna indignas de aval, de crédito. Com efeito, se na do lulapetismo há esqueletos no armário (Zé Dirceu, Palocci, Genuíno, Delúbio, Geddel, entre estrelas outras de menor grandeza, sem brilho próprio), todos capazes de readquirir corpo e alma ou de se incorporar em versões humanas mais atuais, na do capitão mítico há, além das recorrentes inverdades, atitudes e fraseados que desafiam a compreensão e aceitação do cidadão comum, não afeito a seguir cegamente idolatrias inconsequentes; e, para validar a crítica que ora faço, entendo válido aqui citar apenas três, duas das quais, ele ainda na condição de legislador, me fizeram excluí-lo, em definitivo, do meu rol de possibilidades. Ei-las: Uma. Indagado em que aplicava o auxílio-moradia, se já era usufrutuário de apartamento funcional, ele escarneceu o repórter da forma mais indigna e picaresca: “Uso esse dinheiro para comer gente”. Duas. Concluindo áspera discussão com colega detentora de idêntico cargo, ele a desrespeitou publicamente, porque diante de câmeras televisivas e em ambiente não restrito na casa legislativa, destratando-a com ameaça abjeta e ignóbil: “Só não a estupro porque você é feia”. (En passant, não compreendo como ainda existem mulheres que votam em Jair, o misógino). Três: Mais recentemente, já em pleno exercício do mandato presidencial, entre tantos outros impertinentes e imperdoáveis, com afrontamento à liturgia do cargo, o arroto pútrido, mefítico, repugnante: “O Brasil precisa deixar de ser o país de maricas”. Volto a valer-me de Gaspari, para quem “De esperança em 2018 (…), Bolsonaro tornou-se pesadelo para boa parte dos conservadores em 2020”. Quanto ao comportamento de seus mais dedicados seguidores, em Montaigne encontro alguma explicação, como esta: “Qualquer ideia pode apoderar-se de nós com força bastante para que a sustentemos até a morte”. Compreensível. Insisto: não há como votar nessa gente; não há como ungi-los na condição de chefe de Estado e de Governo. Eles não fizeram e não fazem por merecer. Prefiro a verborragia, a arrogância e o descontrole do Ciro, cuja experiência, principalmente em cargos do Executivo, não há quem a questione; cujas inteligência e competência não há quem se mostre capaz de contestá-las ou negá-las; e eu já não mais preciso de genros. O país é que precisa de comando; que seja de quem se mostra capaz para o crucial mister. Ah, antes que eu me esqueça, registro duas observações de desfecho: sofrível e até lamentável foi o debate entre os candidatos ao governo do Ceará, os três birrentos mais bem ranqueados nas pesquisas; lastimável o que o sistema político nacional costuma presentear-nos, pois, se um dia gestou e pariu – certamente para realçar o espírito cômico, irônico e debochado do cidadão brasileiro – um Macaco Simão, um Juruna, um Cabral e outros que tais, ora expõe em vitrina nacional um padre (epa!) da igreja ortodoxa, non sense, com discurso desprovido de lógica e de coerência, com recurso de proteção (escudo) no sacerdócio, com linguajar e reações incompatíveis com o papel de apóstolo de Cristo (embora não chegue sequer a um Iscariotes traidor e suicida), olhar inquisitorial sobre óculos arreados a meio nariz, dedo em riste, rosto carente de polimento à base de óleo de peroba, personagem amorfo e não afeito a cumprir regras e merecedor das antonomásias atribuídas por Soraia (o “cabo eleitoral de Bolsonaro”, travestido de candidato nanico apenas para servir-lhe de “escada”) e por Míriam (o “avatar de Roberto Jéfferson”, aquele dos “nervos de aço”). Fosse diretor do programa, eu o teria agraciado com cartão amarelo logo na primeira intervenção e com vermelho na seguinte; a bem da continuidade dos debates. A coisa tinha de ser séria.

Outras porções há, obviamente, tais como a do desportista (o Paulinho de Doquinha, que torce, vibra, perde, sofre, vence, festeja, embriaga-se sempre), a do romântico (a Rosinha de Chica Moça, que sonha, encanta-se, apaixona-se, ama, poetiza, goza, sofre, chora) e a do cristão, ex-coroinha e agora católico não-praticante (o Valdim de Apolinário, que crê, reza, peca, penitencia-se, ama, perdoa), as quais ora preservo por entender que pouco ou nada têm a ver com política, tema de que ora me ocupo.
Convém, por fim, assinalar que, apesar dessas porções que entre si se entrelaçam e por naturais simbioses se complementam, eu, embora geminiano, sou um ser indivisível, uno na essência, versátil na existência. E é assim que consigo manter-me vivo… e pulsante… e pensante!

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.