A Fortaleza em Preto e Branco

Caminhar pelo centro da cidade é um passeio por veias e artérias comerciais que nos confundem pelo numeroso fluxo humano e pela incessante atividade de compra e venda cotidianas, mas pode ser também – se assim você se permitir – um mergulho no passado.

Uma pitada de nostalgia é necessária para que possamos nos entregar às lembranças de uma cidade que não foi vivenciada.

De fato, Fortaleza é outra. A imaginação também é uma boa companheira. A essa viagem combinamos, é claro, uma generosa dose de relatos, fatos históricos e registros do que um dia foi.

Entre tantos modos de abordar a cidade, eu me deleito sobre a mecanicidade imagética que é a fotografia. Desde sempre sua presença é avassaladora e intrigante. Primeiro, ela é simplesmente mecânica – “sem cor ou expressão”. Depois, ela é comunicado, é referência e é criação. 

O fato é que a fotografia conta histórias sobre a nossa cidade. Não aquela história apresentada através de palavras, sejam elas contadas ou escritas, porque sua linguagem é a da expressão, do gestual, das formas, dos fluxos, das cores e das “não cores”. 

Inicia-se a relação de Fortaleza com a fotografia. Através do monocromático a cidade passa a ser enquadrada nas lentes do fotógrafo. E é na belle époque, no flerte da cidade do sol com a atmosfera parisiense, que os cearenses da capital passam a interagir com a imagem fotográfica. 

Nossa história ganha vida através da representação dos indivíduos e dos espaços. Mas isso uma velha conhecida já fazia! Que originalidade haveria na produção realizada por uma máquina e não pelas mãos de um artista?

Sua maior desavença travou com a pintura. Esta desceu de seu pedestal para julgar como imprópria a fotografia para o meio artístico. 

A recusa não foi de todo negativa para a fotografia, com uma popularidade que só crescia no meio comercial, passou também a disputar espaço entre os artistas dissidentes de seu campo. Após pouco tempo da chegada das câmeras surgiram os estúdios fotográficos, onde se produzia a mágica.

À revelia do consentimento da pintura, a fotografia com sua poética e seu mistério se tornou registro fidedigno da vida, mas também fantasia dela. Se por um lado ela é cópia inconteste da realidade, ela pode mentir ou exagerar e criar naquele que vê mera ilusão. 

O preto e branco, a escala cromática possibilitada pelas primeiras câmeras, tinha a capacidade de tornar nostálgico mesmo o acontecimento mais recente. O que estava ali impresso como resultado das marcas da luz no papel fotográfico era sempre uma narrativa, nunca o acontecimento em si.

E se do preto e do branco foi possível tanta criação, podemos afirmar que Fortaleza se beneficiou desse olhar abdutor de cores e realidades.

Ao examinar fotografias do passado da nossa cidade vemos a liberdade criativa dos cliques e sentimos uma fluidez na imaginação. O limiar entre realidade e ficção se apaga, criamos não só uma Fortaleza, mas nos deleitamos na possibilidade de sua multiplicidade. 

Ah, minha Fortaleza antiga! Tu fostes cruel, mas também bela em tuas construções e esquinas.

Se uma imagem fotográfica é mentira ou é verdade, não cabe à fotografia responder. Ela não se faz em compromisso com a verdade ou é a representação de contingência com a realidade. Ela é muito mais forma de ver o mundo, se apropriar dele e mostrar como o vê. Ela pode ser linguagem sem língua, porque é uma expressão que já se encontra difusa nas nossas vidas.    

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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