A Floresta do Companheiro Acácio – CLAUDER ARCANJO

Semana passada, incomodado pelas notícias e pelos fuxicos violentos da grande cidade, tomei o rumo da província. É sempre bom, acredito piamente, mergulhar nas águas do rio da infância — padrão de leveza, sem figurações, sem os malsinados prenúncios do fim do mundo, sem a poluição da inveja e da sanguínea luta pelo poder —, quando me encontro incrédulo quanto ao futuro. Resolvido, arrumei minha maleta e segui para Licânia.
Mal arriei a mala, pedi a benção aos meus pais, bem como à Senhora Sant’Anna. Minutos depois, eis que resolvi visitar o nosso rio; para ver como se encontrava o leito de areia que me viu brincar, como se encontravam as vazantes, ricas de aluvião e das melancias maduras, vermelhas e doces, que ainda marcam o paladar e os meus olhos, outrora tão infantes.
Com pouco, a certeza: hoje, o rio da minha aldeia é tão só um triste retrato daquele do passado. Tristonho, não conseguia mais identificar o riso alegre dos pivetes a troçarem de si mesmos no remanso da Pedra da Luzia, muito menos as lavadeiras de Licânia, a enxaguarem os lençóis brancos dos mais aquinhoados, por sobre as suas coxas enegrecidas pelo inclemente sol sertanejo.
Cabisbaixo, sentei-me numa pedra, à sombra de uma oiticica frondosa, belo exemplar no entorno.
De repente, uma voz com timbre conhecido:
— Clauder Arcanjo?!…
Ao levantar a vista, a surpresa:
— Companheiro Acácio! Você por aqui? Para onde segue com uma enxada ao ombro e tantas mudas?
Antes de me responder, Acácio ajeitou as mudinhas ao chão, descansou a enxada no solo, limpou o suor da face rubra e elevou os olhos para o descampado das ribeiras. Em seguida, exortou-me, em tom messiânico:
— Junte-se à minha causa, Clauder! Estou a reflorestar as ribeiras do Acaraú. O antigo Rio das Garças sofreu demais com as queimadas e com o desmatamento sem critério algum. O antigo cinturão verde, pulmão da nossa Licânia, hoje é um triste desmatado. Olhe, veja com os seus olhos!
— Mas, Companheiro, nunca tivemos florestas por aqui, e…
— Não se deixe levar pelo discurso dos que querem nos transformar num deserto. É hora de reagir! Temos que agir depressa, antes que seja tarde demais — gritou-me Companheiro Acácio, a plenos pulmões, enquanto levava a enxada ao ombro direito e, com a mão esquerda, apanhava as mudas de oiticica e carnaubeira.
Acácio, incontinenti, entrou de ribeira adentro, a passos largos e decididos. Antes que ele sumisse da minha vista, gritei:
— Acácio, espere-me. Quero conversar com você, há outras formas de… — Tentei contê-lo. Tudo em vão.
A certa distância, Acácio ainda se virou em minha direção, e assacou-me:
— O futuro vai lhe cobrar, com juro e correção monetária, o dízimo desta sua tão iníqua omissão ecológica, Clauder Arcanjo.
— Companheiro, escute-me… volte aqui… eu…
Fiquei falando com o silêncio. Mergulhei na fundura de um remanso de pensamentos. Fui desperto, e salvo, pelo farfalhar distante das carnaubeiras e pelo trinar dos pássaros, a voltarem para os benjamins da Praça do Poeta. A tarde caíra.
Preocupado com a teimosia de Acácio, retornei a Licânia, com o intuito de colher mais informações acerca do acaciano projeto de reflorestamento.
Ao entrar na Bodega do Edir, epicentro de todos os terremotos conversacionais da pequena urbe, dei com a presença do mestre João Américo. Ele sorvia a sua pinga, enquanto um cigarro cobria-o com o halo de único proto-filósofo-analista-sociólogo, profeta ad hoc, das questões e causas licanienses.
Mal puxei o tamborete para me aproximar, ele deu um trago fundo no Continental, a disparar com sua voz tonitruante:
— Arcanjo, a cousa é preocupante. Ontem, apenas um cidadão tomado pela causa; hoje, um coitado com o corpo e a mente invadidos pelo fanatismo. Amanhã, ouso avisar-lhe, Acácio, o seu dileto amigo, será um case, um caso de estudo da moderna psiquiatria anarco-eco-freudiana.
Impressionado com o diagnóstico, eu tentei argumentar:
— Desculpe-me, João Américo, mas quem seria contra o reflorestamento de nossas ribeiras? Árvore demais nunca nos faria mal. Ou estarei errado?!
Com os olhos marcados pela ressaca e a mente turva pelo solar diagnóstico, ele pôs as mãos trêmulas sobre o balcão e soletrou-me, por entre os dentes marcados pela nicotina e pelo saber alcoólico, sua resposta:
— Escute-me… encoste-se um pouco mais. Aqui, em Licânia, até saber demais prejudica. E tenho dito!
Tentei arrancar-lhe mais informações, o homem mergulhou em fundas e silentes reflexões, só saindo de lá para bicar a pinga e respirar a fumaça do naco de cigarro.
Edir, ao constatar aquela minha ansiedade, avisou-me:
— Para romper um tenho dito de João Américo, Clauder, nem o Papa Francisco, o seu maior ídolo.
Com isso, fui para casa. Dormi pouco naquela primeira noite em Licânia. Antes da alvorada, despertei, cuidando de rumar, com o passaredo, para o ponto onde eu vira Acácio se enfiar. Meti-me por entre juremas, espinhos e espesso cipoal. Extenuado e picado pelos mosquitos, dei pela figura de Acácio a abaixar-se, a plantar as primeiras mudas no meio de um descampado.
Quando me aproximava, a gritaria:
— Seu maluco! Você está plantando mudas no nosso campo de futebol de várzea.
E Acácio, correndo em minha direção, a argumentar:
— Numa área desta podemos plantar muitas mudas de árvores nativas, gerando mais oxigênio para Licânia. E, quanto ao futebol, vocês bem poderiam trocar o esporte bretão pelo de subir em árvores, ou brincar de se balançar em cipós… É muito mais ecológico. A Natureza agradece…
Sem olhar para trás, corremos desabaladamente, pois desconfiamos, pela fúria das pedras arremessadas, que os acacianos argumentos não encontraram solo propício.
No caminho de volta (entre ferroadas de abelhas e de cabatão, sem mencionar das fugas dos cachorros do mato e das raposas loucas), mantivemos o ritmo de fundistas.
Hoje, passados alguns dias, vocês me perguntam: E a situação atual do Companheiro Acácio? Ele desistiu da causa?
Bem, ainda cá estou em Licânia; fiquei sabendo, por fontes fidedignas, que as duas mudinhas plantadas por Acácio na beirada do tal campinho de futebol deram muita sorte ao time local no primeiro jogo após aquele fatídico dia. Uma goleada antológica de 7 x 0. Após tal “milagre”, o capitão do time cuida de regá-las com esmero e carinho, em especial antes de cada embate. E, ao ficarem sabendo do nome do “lunático eco-invasor”, eles colocaram uma nova e bela placa servindo de placar, rebatizando o poeirento estádio para “Arena Floresta de Acácio”.
Quanto ao Companheiro Acácio, caro leitor, flagraram-no, logo no dia posterior, conversando, de forma bem interessada, com um discípulo licaniense da Teoria da Terra Plana.

Clauder Arcanjo
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Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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