À FALTA DE BENGALAS E DAS BENGALADAS REPUBLICANAS DE OUTRORA, VAMOS DE VAIAS CIDADÃS

Em período eleitoral, o forte dos discursos e das falas é a retórica. Por retórica poder-se-ia entender artifícios de linguagem para o convencimento de quem procura uma resposta para as suas dúvidas e hesitações. Não se encaixa necessariamente nos registros da dialética, instrumento de discussão e contraposição de argumentos contrários. O discurso eleitoral não recorre, ao contrário, a contraditórios.

Prevalecem na fala eleitoral a dissimulação e a omissão de fatos e circunstâncias, em favor da relativização de culpas ou responsabilidades. Vale mais do que a mentira, a meia-verdade, a versão crível, testemunhos de ocasião.

A retórica eleitoral não tem compromissos com a verdade, mas verbera a mentira, subterfúgio para o qual foi encontrada uma expressão convincente, em inglês — “fake news”.

A 100 dias do pleito, a mídia regurgita de notícias infundadas, povoam o que restou da mídia impressa engenhosas versões trazidas por um jornalismo a soldo e pesquisas de opinião suspeitas e por essa razão, questionadas.

A metodologia empregada e as mostras selecionadas das quais serão extraídas “evidências” completam o quadro. Mas não esgotam as possibilidades de serem construídas novas e convenientes conclusões.

A mídia já não ocupa o espaço que lhe reservavam os pleitos antigos, falta-lhe credibilidade. Os candidatos a cargos majoritários temem o povo, e o que, apesar das urnas eletrônicas, ele é capaz de fazer, dissentindo, arengando e protestando.

A vaia é a única arma que restou ao povo, aos cidadãos, para fugirem da armação na qual pode qualquer indivíduo incauto pode cair pela esperteza dos políticos.

Antigamente, no tempo da “belle époque”, aos cidadãos bem nascidos e até mesmo o povo, a massa, era dado recorrer a outras armas cidadãs — a bengala. Bengaladas heroicas, creditadas à excitação republicana de alguns brasileiros mais impulsivos, passaram à história. À falta de bengalas, as bengaladas perderam a sua função social e política.

Restaram-nos as vaias.

Usamo-las, como liberdade de expressão, toda ela constitucionalmente assegurada, em nossa defesa e das nossas necessidades morais e cívicas.

Vaias são de multi-uso. Nos aviões, contra parlamentares viageiros, não ameaçam a segurança do vôo. Nas ruas de New York contra juristas em desobriga, a ensinarem teoria jurídica aos ímpios de Manhattan, não põrm em tisco o estado democrático de direito dos Fundadores. Nos restaurantes, por onde despendem as suas diárias e ajudas-de-custo, parlamentares e agentes públicos a serviço da civilização ocidental, a vaia não compromete o ponto do assado, tampouco salga o roastbeef.

Pois bem, por temerem o povo, os candidatos queimam o querosene que desequilibra o meio-ambiente para percorrer este imenso Brasil sem fronteiras. Reinventaram, agora, o comício em ambiente fechado, a exemplo dos eventos que Dilma realizava no Palácio do Planalto.

As laifes de Boldonaro arrancam bocejos até mesmo dos pastores aliados, almas contritas e patrióticas. Parecem leituras da ordem-do-dia, são previsíveis, prenhes de autoridade. São aborrecidas de ouvir, embora necessárias, como todas as regras, até mesmo os regimentos internos das Cortes.

Já as falas de Lula, com a armação pesada de um corpanzil irrequieto, conseguiram montar um espetáculo canhestro, o candidato a rodopiar no palco improvisado, expelindo perdigotos e insultos, enrouquecido de ódio essencial contra a classe média e os liberais que ainda imaginam estarem a viver em uma democracia.

O que nos restaria fazer?

Talvez pudéssemos comprar uma urna eletrônica para a exaltação dos nossos sentimentos patrióticos mais íntimos. Para mostrá-la pedagogicamente aos filhos e netos curiosos, impacientes por aprender e exercitar o patriotismo como já foi moda um dia.

Tê-la-íamos (a indignação não me poupou do uso da mesóclise!) como souvenir de um dos momentos decisivos da política brasileira — a evolução do voto artesanal para o voto cyber. A saída dos traços rupestres primitivos para a digitação e os downloads definitivos da modernidade.

Seremos,politicamente, senhores do nosso tempo.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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