A FÁBULA DO INCONSCIENTE COLETIVO

“Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa.”

Carl Gustav Jung

Havia, numa grande aldeia, um meticuloso alquimista que certo dia descobriu um perfume com a capacidade de tornar a todos que sentissem aquele aroma inebriante imensamente felizes e de tal forma então dependentes dele que passassem a suplicar ao seu inventor o fornecimento de pelo menos um pouco daquela substância agora tornada indispensável.

Para a felicidade e infortúnio do velho alquimista, ao mesmo tempo em que passou a ter o poder sobre os que lhe imploravam para que fabricasse mais de sua substância perfumada, e com isso obtivesse poder sobre tais pessoas, observou que caso não as produzisse na necessidade do consumo, terminaria por ser violentamente agredido.

Como não havia possibilidade de se produzir tal substância dentro da necessidade de consumo que se propagava pela aldeia, e considerando a necessidade de todos e a inevitável cobiça que isso causava, certo dia um ladrão invadiu a sua oficina química para roubar o que ainda restava no estoque do tal perfume e matou o velho alquimista, que, morto, levou para o túmulo a fórmula que descobrira e com a qual se tornara poderoso, mas de tal forma vulnerável a ponto de lhe custar a vida.

A população da aldeia, totalmente dependente daquele aroma inebriante, logo acorreu à oficina e constatou a morte de velho alquimista e passou a procurar desesperadamente por quem ainda detivesse um pouco daquilo de que necessitavam como forma de feliz sobrevivência.
Informada de que havia alguém que tinha estoque daquele produto químico, que era justamente o latrocida, concluíram que ali estava o assassino de tal precioso senhor, e trucidaram-no diante da chantagem para obtenção de dinheiro que o dito cujo fazia a todos para o fornecimento da tal substância de que passara a ser detentor.

Com as duas mortes ocorridas e diante da impossibilidade de obtenção do tal perfume, mesmo com a crise de abstinência, os moradores da aldeia tiveram que se adaptar à nova realidade e esquecer a felicidade inebriante e artificial que advinha do consumo daquela substância perfumada.

Descobriram, a duras penas, que a felicidade ilusória e fugaz de que estavam até então possuídos, poderia ser obtida por outros meios duradouros e abundantes, ainda que permeada pelas dificuldades e infortúnios próprios à existência humana, mas capazes de fazer pender a balança da vida para o lado bom da convivência social contributiva, solidária e sustentável.

A fábula do perfume da falsa felicidade por nos pensada e ilustrada é perfeitamente adaptável à realidade sob a qual vivemos atualmente, com todos os requintes de ilusão, crueldade e necessidade de superação a que estamos submetidos e desafiados.

Todos nós acordamos pela manhã dependentes de uma substância que presumivelmente nos é indispensável, posto que é (quase) a única capaz de satisfazer as nossas necessidades de consumo: o dinheiro.

Mas a alquimia do sistema de produção dessa substância da qual nos tornamos dependentes, tal qual o perfume da fábula que inebria concretamente pelo cheiro que se esvai na imensidão da atmosfera, o dinheiro inebria pelo artificialismo abstrato dos números de uma conta bancária (já quase não se usam as cédulas, mas somente cartões de crédito ou aplicativos).

Não nos é permitido pensar em outro modo de vida que seja:
– contributivo, ao invés de subtrativo da maioria, e que termina por atingir até aos acumuladores de capital, tal como o ladrão da fábula;
– solidário, ao invés de competitivamente destrutiva da fundamental virtude que nos trouxe até aqui como animais racionais em processo de crescimento de nossa segunda natureza, a solidariedade, tão bem expressa no arregaçar das mangas da maioria da população civil em socorro dos gaúchos (os aproveitadores são minorias asquerosas); e
– sustentável, posto que a natureza é pródiga em reproduzir o nosso sustento material, desde que a usemos racionalmente e com o saber acumulado pela humanidade.

Mas tal como na fábula, está chegando a hora de nos desapegarmos da falsa felicidade do dinheiro, que a todos escraviza, e entendermos que podemos viver sem a dependência que nós próprios criamos ao longo de milênios de escravismos por ela ditatorialmente estabelecidos, e deixarmos de lado o temor da perda de uma ilusória comodidade das posições que conquistamos.

Devemos fazê-lo porque estamos todos ameaçados pela insubsistência da produção de mercadorias (tal como ocorreu com a produção do perfume), em face de suas contradições internas que está travando o fluxo de abastecimento social e causando turbulências insuperáveis.

A forma valor (dinheiro e mercadorias) é o atual latrocida tal como o ladrão da fragrância da fábula, e é abstratamente incorpóreo na chantagem que a todos submete, por ser uma lógica abstrata que toma conta da vida real e que nos aprisiona pela mente.

Há uma presunção coletiva, e unanimemente burra, de que as mercadorias são tão naturais e necessárias como a água e os alimentos de que necessitamos no nosso organismo biológico.
Entretanto, aquilo que aparentemente nos dá a vida, ou seja, a forma-valor, que se expressa:
– nas mercadorias tangíveis (com valor de uso e de troca);
– nas mercadorias intangíveis, como o dinheiro das contas bancárias;
– na mercadoria serviços;
– no trabalho abstrato, ele próprio também uma mercadoria igualmente nociva, apesar do incenso irracional de tal condição por partidos trabalhistas e burgueses, além de políticos trabalhistas;
– no mercado, em toda a entourage que se lhe formata;

deve ser abandonado como forma destrutiva da vida, tal qual o fez a população da aldeia, e se não for por consciência de sua negatividade intrínseca, que seja por mera contingência circunstancial de colapso existencial daquilo que havia sido eleito ilusoriamente como expressão da felicidade.

A dependência ao velho que a cada dia se deteriora se consubstancia no medo do novo desconhecido e se torna reacionária e contrarrevolucionária.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;