A EUROPA E O ESPAÇO VITAL – O QUE VALE PARA PÚTIN A DESTRUIÇÃO DA UCRÂNIA?

Provavelmente, o advento tardio dos Estados nacionais, na Europa, e nas áreas geográficas vizinhas da Ásia (a imagem de uma Eurásia um pouco imprecisa) explique a política expansionista pelos novos territórios dos países constituídos.

A maior parte dos países que constitui a Europa atual esteve, em passado recente ou remoto, envolvida com conquistas pelo “espaço vital”. Entre os seus objetivos nacionais essenciais e estratégicos incluía-se a anexação de territórios que lhe faltavam para a consolidação de uma ideia efetiva de “nacionalidade”. Terras, territórios e espaços que completassem a sua identidade como povo, nação e país.

A ideia expansionista das conquistas coloniais é a versão da apropriação de territórios sitiados fora da Europa, na Ásia, na África e nas Américas. Em lugares distantes por onde habitassem povos e sociedades rudimentares, ao largo da civilização europeia, ocidental e cristã, de preferência.

Sempre a reboque do espírito imperialista que imperou durante a vigência dos sistemas monárquicos, ou em contemporaneidade com o advento do modelo republicano de governo, a ampliação territorial, com o deslocamento das fronteiras tradicionais, objeto de porfias diplomáticas e militares árduas, impregnou todas as doutrinas de construção e consolidação dos Estados nacionais.

As disputas por território, no Leste europeu, com períodos transitórios de paz, e passageiros, foram uma constante nas relações entre os países dessa extensa região.

Ucrânia, Armênia Geórgia, Moldávia, Polônia, Hungria, Alemanha, Itália e Rússia nunca abandonaram de uma pauta guerreira, eventualmente diplomática, o propósito da conquista de territórios, desmembrados ou à moda dos Anchlus nazistas, anexados áreas e pedaços perdidos de territórios. De roldão, na engenharia da construção de novos Estados, nacionalidades foram fundidas ou apartadas e sobre esses vazios políticos preenchidos ergueram-se átomos de uma confederação centralizada, a exemplo da União Soviética. Ou organizações militares nas quais pactuaram-se alianças de defesa, segundo modelo adotado pela OTAN e o Pacto de Varsóvia.

O avanço da Rússia sobre a Ucrânia não é projeto recente. Mil anos de história contam quão conflituoso foi o convívio das duas nações. Horizonte tão duradouro de vida em comum não escondeu, nem pôde dissimular a sucessão de acordos, os rompimentos diplomáticos, as guerras, as ocupações e as anexações dos territórios ucranianos e de todas as nações periféricas, vizinhas da Rússia.

A Rússia tem como desejo não confessado as riquezas dos subsolo ucraniano, as jazidas de minérios e os potenciais agrícolas da Ucrânia. Mas não é só isso que mantém os russos de olho na vizinha indefesa. É um desejo de afirmação como potência mundial, a busca da reconstituição do poderio geopolítico da União Soviética, desestruturada pelos movimentos e convulsões internas advindas da queda do Muro de Berlim e da desestruturação incontrolável do império soviético.

Não devem ser esquecidos, entretanto, como fatores concorrentes desses desastres acumulados, os movimentos diplomáticos e estratégicos realizados pela OTAN, com apoio irrestrito dos Estados Unidos e da União Europeia, para expandir o cerco militar com bases bem localizadas nas fronteiras da Rússia.

Nesse caso, o ingresso da Ucrânia na OTAN caracterizaria a metáfora bem materializada do Cavalo de Tróia, diligentemente construído pelo Ocidente para o cerco e assalto da Rússia.

As controvérsias renovadas e uma diplomacia pouco diplomática escondem aspectos relevantes que podem, uma vez explicados e analisados, esclarecer o móvel real e verdadeiro das decisões de Pútin.

Aparentemente, a poucos implicantes interessaria aprofundar esse entendimento. As “fake News” fizeram sucesso na política porque nesses terrenos cheios de riscos a verdade é ameaça e revelação que todos temem e rejeitam.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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