A ESSÊNCIA DA VIDA (3)

“O Homo sapiens é um animal contador de histórias, que pensa em narrativas e não em número ou gráficos, e acredita que o próprio universo funciona como uma narrativa, repleta de heróis e vilões, conflitos e soluções, clímaces¹ e finais felizes. Quando buscamos o sentido da vida, queremos uma narrativa que explique o que quer dizer realidade e qual é meu papel particular no drama cósmico.” (Yuval Noah Harari, em 21 lições para o século 21. Tradução: Paulo Geiger).

 

“Senhor, rarissimamente alguém, dentre as muitas pessoas que nos visitam – e olhe que nós as recebemos todo santo dia –, revela algum interesse pelas nossas origens, indaga-nos sobre os motivos que nos levaram a abraçar esta causa, qual seja a de oferecer acolhimento respeitoso, responsável e, principalmente, saudável a idosos e idosas que, por razões as mais diversas – cada um ou uma carrega consigo a sua história bem peculiar, narrativas construídas no curso do insensível, imperturbável e inexorável tempo, algumas que nos inquietam e outras que até nos exasperam, em face da natureza humana e suas especificidades, suas circunstâncias –, se veem em pleno abandono, destituídos da convivência familiar, naus desprovidas de instrumentos de navegação, à deriva em mares procelosos, numa crítica e crucial fase da vida que, naturalmente, se lhes impõe tanta fragilidade, tanta dependência, tanta carência, tanta desesperança, além de, por isso e não raras vezes, mostrar-se tão deprimente. Quando, quanto mais se precisa, menos se tem. E isso é apavorante.

“Vou abusar da sua atenção, se o senhor me permite. Vou aproveitar este momento para abrir, no quanto for possível, recomendável para uma aparentemente despretensiosa conversa a dois, as portas do meu armário mental ou sentimental ou emocional, onde guardo boa parte da minha história de vida. Ei-la.”

Ela, então, procurou acomodar-se mais confortavelmente na cadeira de braços, espaldar alto e rodízios, afastou-se um pouco de sua mesa de trabalho, sobre cujo tampo de madeira apenas havia, à esquerda, uma pequena pilha de papéis sob casa construída, numa base quadrilátera, de poucos centímetros quadrados, em mármore branco, com miniaturas em cerâmica de um único tijolo de oito furos coberto por uma única telha; à minha direita, um notebook cinza fechado; e, ao centro, uma pequena réplica da Pietà de Michelangelo, em bronze. Cruzou as medianas e torneadas pernas, apoiou os cotovelos nos braços da cadeira, descansou suavemente as mãos sobre o colo, recostou-se no espaldar, fitou-me com olhos de um negror ímpar e com ar de muita confiança, e retomou a narrativa sobre fatos que, a meu estrito perceber, há muito sentia necessidade de relatar; talvez só lhe faltasse alguém disposto a ouvi-la. Para isso, ali eu permanecia, silente e atento; afinal, fui eu que a provoquei.

“Nós compúnhamos, senhor, uma família tradicional – pai, mãe e filhas: éramos três, as três Marias, as estrelas do avô: de Fátima, eu, a primogênita; da Glória, a do meio; e de Lourdes, a caçula. Os nomes, por si sós, já revelam as nossas raízes religiosas, cristãs, católicas. Levávamos uma vida tranquila, sob todos os aspectos – o pai, analista de finanças do Erário estadual, provedor incondicional e conservador ortodoxo, rigoroso, e chefe de família exemplar; a mãe, serventuária da Justiça estadual, proficiente e perfeccionista em tudo o que fazia, zelosa com a formação das filhas, nós que estudávamos em colégios de renome no universo educacional fortalezense.

“Até que adveio o inesperado. O destino deu uma guinada de cento e oitenta graus, jogando-nos para o polo diametralmente oposto. Surpreendeu-nos – e éramos apenas adolescentes – a tempestuosa separação dos pais, como consequência do até então imponderável: o pai apaixonou-se por uma colega de trabalho, advogada, bem mais nova que ele, recentemente admitida no serviço público. O vendaval abalou as estruturas da família, pôs por terra o farol que iluminava o caminho que devíamos percorrer em busca do nosso Norte, destroçou a tranquilidade que nos envolvia como uma capa protetora, supostamente irremovível, e deixou marcas profundas e indeléveis no que restou de cada uma de nós. A mãe passou a sofrer de recorrentes surtos depressivos que a faziam mergulhar num inexpressivo recolhimento, numa degradante fuga à vida, num pálido acabrunhamento que ameaçava desbordar para um inevitável aniquilamento. Esse quadro tendente à morbidez abreviou a aposentação, o que concorreu, em face da consequente redução da mobilidade, para o agravamento da situação que a todas nós envolvia, a exigir-nos resiliência… isso mesmo… resiliência… esta é a palavra que exprime, com exatidão, o que o destino então nos cobrava. A bem da verdade, não fosse a decisiva participação do avô materno, ceramista na zona rural de município da região metropolitana, e nós teríamos perdido a luminosidade estelar e sucumbido à catástrofe. O certo é que, de batalha em batalha, uma mais renhida que a outra, conseguimos vencer a guerra, da qual saímos – como fênix das cinzas – revigoradas, com outro entendimento sobre o que seja a vida. E isso, repito, graças ao avô que assumiu o grave controle da situação, a nobre função de timoneiro do barco à deriva, perdido em mar proceloso, o sempre difícil papel de pai, preenchendo o ruinoso e lesivo vazio deixado pelo titular que simplesmente decidiu sumir. Coisas da vida, diziam-nos as pessoas mais achegadas, próximas.

“Alguns anos se passaram no mesmo diapasão, no mesmo ritmo. Dona Eugênia, a mãe, sentiu-se agraciada por um milagre divino, segundo ela, com uma sensível recuperação. Suspendeu a ingestão de medicamentos, o tratamento excruciante, penoso. Juntou-se a nós na nova caminhada, a que até então só assistia alheada, desinteressada, descompromissada. Enlevou-se com as vitórias das filhas, em especial quando obtivemos a tão sonhada graduação, as três em cursos da área da saúde: duas em enfermagem e a caçula em fisioterapia.

“Quanto a mim, particularmente, eis que surgiu a oportunidade de cursar a especialização… Em quê?! Adivinhe, o senhor, se puder. Em gerontologia. Inconscientemente talvez, pressenti nessa generosa oferta do destino, tão cruel até então, abrir-se uma porta para o futuro. Decidi aproveitá-la. A vida de todas nós – mãe e filhas – ia, aos poucos, readquirindo o curso normal, a tão incansavelmente perseguida normalidade.

“Quando tive de desenvolver a exigida dissertação, lembrei-me de colega da graduação que, na apresentação do TCC, o famoso trabalho de conclusão de curso, trouxera à avaliação da banca examinadora alguns estudos de caso, com um deles logo despertando o meu interesse. Tratava de um idoso, abandonado pelos familiares e entregue aos cuidados de alguém que sustentava ser auxiliar de enfermagem, contratada para mantê-lo vivo, nada mais que isso, o qual contraíra grave enfermidade, afetando a já engelhada pele e fazendo-o carecer de atenção especial.

“Idoso e abandonado.

“Esse perfil se ajustava como uma luva às minhas pretensões acadêmicas. E isso daria um bom estudo de caso, assegurou-me a minha orientadora, tão logo tomou conhecimento do meu esboço de projeto.

“Fui à luta. Mantive contato com a colega, de quem obtive todas as coordenadas, cabendo a mim, naquele momento, torcer para que a situação objeto de análise ainda se mantivesse em plena ocorrência. Meus pressentimentos me convenciam de que, em breve, se abririam as portas da esperança para uma disposta, embora ainda titubeante, pesquisadora da sempre complexa área do relacionamento humano.

“E o destino, mais uma vez, cuidou de me surpreender. O local, na periferia da cidade, se me apresentou como uma viela de casas modestas, todas de frente voltada para longo muro, alto e descolorido, que as separava da via férrea, com um vão de passagem e fluidez tão estreito que impossibilitava o acesso de veículos, garantido apenas o trânsito de motos e bicicletas. Estacionei o carro na via principal – quase na esquina –, rua preponderantemente habitacional, de unidades residenciais de classe média, guarnecida nas laterais por dupla fileira de verdes nins indianos que a tornavam sombreada, de um silêncio sonífero, aqui e acolá quebrado com o chilreio de pequenos pássaros na caça de alimento nas calçadas e no leito asfaltado da via ou com o espaçado vento morno a agitar as copas do arvoredo. Adentrei aquele mundo que não me pareceu ser hostil. Segui, em alerta e sem pressa, embora a ansiedade me deixasse levemente ofegante, pela viela que parecia não ter fim. Crianças traquinas e barulhentas brincavam, corriam, jogavam bola, andavam de bicicleta; jovens e adultos conversavam em grupos distintos; pessoas sentadas em bancos rústicos, fixos, com o muro servindo de encosto, pareciam não dar a menor importância à vida, ao que acontecia no mundo lá fora, certamente entretidos com algo de maior interesse. Percebi que não atraía a atenção de nenhum deles, de ninguém; era como se fosse invisível, translúcida, diáfana. Prossegui. Fui em frente.

“Parei diante do número que procurava. Revelou-se-me, de imediato, a extrema simploriedade de uma casinha baixa, frente de caiação já bem envelhecida, descascada, telhado enegrecido e biqueiras voltadas para a calçada, porta de duas peças, fechada apenas a de baixo, e janelinha de duas bandas, ambas abertas. Quis me anunciar… chamar por alguém… com um bater de palmas… com um tradicional ‘ô de casa!’. Mas nada disso fiz. O que vi travou-me.

“Numa minúscula sala, arejada e com razoável iluminação natural, piso e paredes revelando-se necessitadas de uma boa limpeza, havia uma solitária rede armada no canto ao fundo, no lado da janela, precisando urgentemente de uma boa lavada, e, nela sentado, um idoso, os pés descalços apoiados no chão sujo, cabelos brancos despenteados, barba por fazer de alguns dias, o olhar perdido e sem brilho, a roupa – camisa de mangas curtas e calção – imunda… tão imunda que não permitia a quem quer que olhasse à distância mediana discernir suas cores originais. Envolvia todo esse horror, esse desbrio, um forte odor de abandono, de descaso, de mofo, de suor, de urina… de merda. Era o meu pai.

“Invadiu-me o espírito, enrijeceu-me o corpo um tsunami de variadas emoções em sequência – raiva, de ninguém especificamente… talvez de mim mesma; tristeza, em relação ao que os meus olhos recolhiam e em que eu insistia em não acreditar; incompreensão, em face do tortuoso caminho por que ele optara; incredulidade, a respeito do que é capaz o ser humano. Petrificada, senti gélido o vento que sacudiu os meus cabelos e arrastou-se viela afora… ou adentro… não sei bem. Ia sucumbir ao atordoamento, quando uma voz de mulher adulta me fez voltar à realidade, resgatando-me daquele pesadelo:

“– A senhora está procurando alguma coisa… alguém?

“– Ah, sim! Perdoe-me. Ele é o meu pai.

“– Quem, senhora? – Indagou-me com ar de perplexidade.

“– Ele. – E apontei para o idoso sujo e ausente. – E eu vim buscá-lo. – Percebi, naquele momento, que recuperara o meu jeito peculiar de ser, de constante disposição para a luta, em qualquer situação em que isso se tornasse inevitável. Como aquela já se prenunciava.

“– Mas a senhora não pode…

“– É você quem cuida… ou melhor, quem descuida dele?

“– Não. Apenas ajudo as pessoas que cuidam dele…

“– Quem?!

“– Uma senhora rica… que vem aqui sempre aos sábados, à tarde [era uma manhã de quinta-feira], com uma enfermeira… deve ser enfermeira, vem vestida de branco e traz uma maleta de primeiros socorros. Aí, nós fazemos uma limpeza na casa, damos um banho nele, vestimos ele com roupa limpa… Ele não reclama, não se maldiz, não fala, não chora, não ri. É sempre assim. Parece, com licença da má palavra, morto-vivo.

“Fiz de conta que não ouvi.

“– Você me ajudaria a fazer com ele a mesma coisa, agora?

“– Se a senhora me der um agrado… sabe como é, né… a gente precisa sempre…

“– Sim. Eu lhe darei um agrado.

“– Pois eu vou buscar o material que guardo aqui em casa… [era a vizinha do lado esquerdo] inclusive uma muda de roupa limpa… uma rede…

“– A rede não… pode ficar com ela… e com essa aí também… depois de lavada, pode ter ainda alguma serventia.

“– E a senhora pretende mesmo levar seu pai embora?

“– Sim. E vamos agir. Eu não disponho de muito tempo.

“E eu saí de lá com o meu pai. Eu o resgatei do inferno. De um tipo especial de inferno, onde as labaredas queimam, ardem, sem que se permitam vê-las. Trouxe-o comigo para casa, de onde ele nunca devia ter saído. Dei uma boa gratificação a quem me ajudou, deixando com ela o meu cartão de visita – enfermeira do IJF – e a orientação de que o repassasse à mulher rica, com o pedido de que entrasse em contato comigo, tão logo pudesse ou quisesse. Isso não me era importante, significativo. Nunca fora; nunca seria.

“Obviamente, tivemos – eu e minhas irmãs – de enfrentar alguns obstáculos, resolver alguns problemas, tão logo acomodamos o nosso pai no meu quarto de dormir. O primeiro deles se manifestou através da tranquila, segura e até natural reação da nossa mãe que, embora aplaudisse o meu ato, reconhecesse-o como próprio do amor filial, decidiu, de forma inquestionável, que jamais voltaria a dividir o mesmo teto com o ex-marido. E ela foi taxativa na sua escolha:

“’– Se é um pai pródigo, agora inválido, que volta para ser cuidado pelas filhas, eu sou a filha pródiga que volta para a casa do generoso pai, ainda lúcido, para dele cuidar. Eu acho que o avô de vocês já fez por merecer muito mais que isso. E vocês hão de entender. Nada mais adequado, portanto, a este momento de nossas vidas. E, mesmo distante fisicamente de vocês, em nada se modificará o meu papel de mãe. Contem sempre comigo.’

“E ela voltou a morar com o nosso avô, reassumindo o quarto que ele lhe houvera dado como presente na comemoração dos quinze anos. A vida é mesmo circular, espiralada. Se ninguém disse isso antes, eu o digo agora.

“Para que não prolonguemos mais ainda esta conversa, esta abertura de coração, este depoimento muito marcante pra mim, digo-lhe, senhor, que o meu pai se tornou o embrião ou, como diria Augusto dos Anjos, a epigênese de um projeto familiar que adquiriu forma, ganhou conteúdo, virou realidade e transformou-se nisto aqui que o senhor está vendo e, mesmo por pouco tempo, vivenciando. Acrescento que já são dois abrigos. Este aqui, a sede, atualmente com trinta e seis vidas sob os cuidados profissionais de pessoas habilitadas, que amam o que fazem. O outro, a subsede, em casa cedida pelo meu avô, lá no nosso interior, com idêntico propósito, com a mesma missão e o mesmo devotamento, onde dezessete vidas recebem o merecido acolhimento, sob o desvelo de outra equipe profissional tão qualificada quanto a que aqui atua e o gerenciamento firme e diuturno de nossa mãe.

“Meu pai e meu avô já fizeram a travessia derradeira. Viraram estrelas que brilham no nosso céu particular. Mas o nosso trabalho busca, na essência, torná-los imortais. Quando cuidamos de cada um desses idosos que conosco convivem, é como se cuidássemos deles. Obrigado, senhor, por me ter dispensado tão especial atenção.”

E duas lágrimas fortuitas, episódicas não se envergonharam de escorrer lentamente pela naturalidade do rosto daquela mulher de pele amorenada, de coração acolhedor, de espírito altruísta e valente. E eu, antes de despedir-me, recolhi-as, ao meu modo, pois nelas vi a verdadeira essência da vida.

 

“Para dar sentido à minha vida, uma narrativa precisa satisfazer apenas duas condições: primeiro, tem de dar a mim algum papel a desempenhar. (…) Segundo, uma boa narrativa, embora não precise se estender até o infinito, tem de se estender além de meus horizontes.” (Yuval Noah Harari, em 21 lições para o século 21. Tradução: Paulo Geiger).  

 

Nota do autor: ¹ Clímaces é o plural de clímace [Do latim climace], variação em desuso de clímax.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.