A “DOUTORA”, O “APÓSTOLO” E A ESCOLHA PELA INTOLERÂNCIA (PARTE II) – Emanuel Freitas

Tão logo a deputada Silvana deixou a tribuna da Assembleia, na última quarta (23/10), foi a vez de seu colega de Casa, o autoproclamado “apóstolo” Luiz Henrique (que chefia uma crescente igreja no Ceará) tomar a palavra para discursar, também, sobre o projeto 578/2019, de autoria da bancada do PT.

Sob o vocativo dirigido aos deputados – “vocês agora vão escutar a Bíblia” -,  tratou de anunciar, como se ali fosse o local para o fazer, que “alguns vão ressuscitar, mas para a condenação”, uma vez que Deus “também condena”. Segundo ele, o projeto de punição por discriminação religiosa é ruim porque se “um comerciante tem seu comércio, vai ler a Bíblia e dizer que os afeminados não vão herdar o reino dos céus e aí o empregado dele vai dizer que é discriminação”.  Assim, teríamos, segundo afirmou, “multa e punição para a pessoa religiosa, em vez de proteger a pessoa religiosa”.

Pronto, ao que parece, o cerne da contra-argumentação dos “irmãos” deputados, Silvana e Luiz, parece estar aí: a defesa da discriminação. Sim, ao que parece, é direito do cristianismo, do qual se dizem defensores – arautos? – a pregação “contra” uma série de coisas, inclusive contra “os afeminados”. Acusar, denunciar, anunciar a perdição eterna, a danação, o fogo eterno: eis um elemento do qual não abrem mão, mesmo que tome ares de perseguição ou discriminação.

Não só a pregação contra homossexuais, mas também contra “demônios, entidades do mal, que são invocadas por supostas religiões, por supostos sacerdotes”, emendou, referindo-se às religiões de matrizes africanas, que constam na justificativa do projeto como alvos par excellence de atos discriminatórios.

Observe, pois, o leitor que basta atentarmos para as palavras do deputado para percebermos que o cristianismo aí presente é muito distante daquele que idealizamos como “religião do amor”, ou mesmo daquele das “bem-aventuranças”, pois longe de regozijar-se como a perseguição trata de perseguir e de garantir o direito à perseguição: a acusar – gay, afeminado, cultuador do demônio etc – é bandeira inegociável.

Foi com extrema sabedoria que o alemão Nietzsche, no final do século XIX, publicou um livreto, “O Antricristo”, em que desenvolve a ideia da “criação” do céu como a maior “vingança” dos cristãos contra os que não adeririam à sua cosmologia. Guardando-o para os convertidos, continuava como “ameaça” e “inveja” aos “incrédulos”, sendo representado, durante o período medievo, como lugar do tormento. Sua conclusão é lapidar: “só existiu um cristão e ele morreu na cruz”.

Quando vemos tais sujeitos a defender a liberdade de crença, ouçamos bem suas palavras: é a liberdade da crença deles, da verdade deles, da divindade deles. Somente eles, que conhecem a suposta “Verdade”, com letra maiúscula, são bons – ao final de seu discurso, o deputado deixou escapar que até “pensa” que Elmano e Renato Roseno, ambos da esquerda, têm “coração bom”. Pensa!

Dali, o deputado foi às redes sociais, conclamando seus seguidores a compartilhar seu vídeo, em que se opôs ao projeto dos deputados, a quem considerou como guiados “pelas trevas”. Mais uma vez, replicou a tese de que o projeto visa “punir” religiosos. Citou o exemplo de um casal de lésbicas que, suspostamente, teriam se beijado na sua igreja, despertando a admoestação do pastor, o que, caso o projeto fosse aprovado, causaria punição ao sacerdote. Depois, dirige-se aos síndicos que, vendo “um despacho, um frango, uma cachaça, com vela, se você disser para tirar isso dali, você vai ser multado”.

Padres, pastores, síndicos, empresários, comerciantes e “cidadãos do bem” são convocados pelo deputado a se opor ao projeto. “Satanás, te repreendemos em nome do senhor”, é como ele encerra seu vídeo, no objetivo, claro, de representar a bancada petista às forças do mal, ação levada a cabo há muito tempo por diversos atores do campo religioso com compromissos reacionários e, por que não dizer, deturpadores.

Max Weber escreveu um importante texto, “As rejeições religiosas do mundo e suas direções”, em que analisa as formas de enfrentamento das religiões, sobretudo as de salvação (caso do Cristianismo), com as esferas, em particular a política. Quanto mais racionalizada a ordem política, mais enfrentamentos com as religiões soteriológicas. Uma de suas conclusões é que, segundo afirma o próprio Evangelho:

“Quem não pode hostilizar os membros da casa, o pai e a mãe, não pode ser discípulo de Jesus: ‘Não vim trazer a paz, mas a espada’ (Mt 10,34) está dito nesse contexto (e, notar bem: apenas nesse).”

O apóstolo-deputado, em seus discursos, costumar iniciar com “a paz do Senhor Jesus”. Agora sabemos que, no evangelho, é a espada que Jesus trouxe.

 

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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