A “DOUTORA”, O “APÓSTOLO” E A ESCOLHA PELA INTOLERÂNCIA (parte 1) – Emanuel Freitas

Volto, por meio deste texto, à polêmica em torno do projeto da bancada do PT na Assembleia do Ceará.

O tema, que repercutira antes na Câmara Municipal de Fortaleza (voltarei a isso nos próximos textos), chegou à ALCE na quarta-feira, por meio do discurso da deputada Dra Silvana (PR) que, logo de início, tratou de reafirmar que tanto ela quando outros parlamentares (Luiz Henrique, David Durand, Walter Cavalcante) estão ali “para combater” qualquer projeto que, segundo pense, “possa se levantar contra” o “povo de Deus”.

Dizendo estar recebendo “pressão” por conta do projeto, que nomeou como “inegociável” – uma vez que, por conta dele, a “igreja de Jesus se sente ofendida” – a deputada defendeu a pregação feita nas igrejas quando se diz “que pessoas vão para o inferno, que é maldição” como  consequência do “estado laico”, que lhes garante a liberdade de pregar.

“Se um pastor chegar num lugar que tem um afrodescendente ou um católico que não queira o crescimento do Evangelho”, “se a pessoa não quer alugar algo para ele, intolerante é quem ainda quiser alugar”. Duas ideias se destacam aí: a primeira é que seu discurso aciona, inconscientemente ou não, católicos e afros no mesmo patamar, o dos que não querem o crescimento do evangelho, ou seja, a propagação de igrejas evangélicas; depois, há uma defesa explícita da liberdade de discriminar, por motivos religiosos.

Enquanto Elmano tentava justificar, humanamente, a necessidade de tal projeto para coibir atos discriminatórios, a deputada sugeriu uma saída divina: “se a igreja for perseguida, ela ora, e o comerciante vira crente”. Que bom, mas deputados, enquanto deputados, não estão ali para decidir sobre quem se deve orar. Talvez, pela sugestão da deputada, justifica-se que um adepto das religiões afro, caso seja importunado por um “crente”, faça um “trabalho” e ele, o crente, se “converta”, não?

O deputado Luiz Henrique, autodenominado “apóstolo”, reafirmou o quarteto de deputados que ali está “para defender a igreja”, devendo fazer “tudo para que um projeto como esse não fira a igreja”.  Relendo o texto da Carta aos Romanos, que condena práticas homossexuais, indagou se qualquer comerciante, fazendo uso de tal trecho, seria condenado, deixando assim explícito que não vê problemas na intolerância em nome de seus princípios.

Retomando a palavra, a deputada, ao afirmar que o projeto pretende “silenciar, punir e obrigar” a que alguém se conduza “conforme o que não acredita”, deu mostras do que parece ter como um direito que a fé lhe assegura: discriminar, se assim for o que “diz” o (seu) evangelho.

Logo, se o projeto busca coibir discriminações, e a deputada alega que isso calará a igreja, estará ela assumindo que o que se faz nos templos, e a partir deles, é discriminar?

Dali a deputada foi às redes sociais dizer que “agora é a hora da batalha”, afirmando que os deputados do PT apresentaram “projeto que irá criminalizar nossa fé”, convocando padres e pastores a publicarem vídeos contra o projeto, “em nome de Jesus”.

No século XVIII, Voltaire se indagava, em seu “Tratado sobre a Tolerância”, se seria Jesus o primeiro dos intolerantes. A resposta, por óbvio, era negativa, mas concluía o capítulo dedicado a essa discussão com um conselho aos cristãos: “Se quereis vos assemelhar a Jesus Cristo, sede mártires, e não carrascos”.

Talvez seja o caso de recomendar-se tal leitura à deputada

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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