A DESTRUIÇÃO PELO NÃO GOVERNO

NO DIA 16 DE JULHO tomou posse o quarto ministro da Educação, o pastor calvinista Milton Ribeiro, defensor do uso da “Vara” em crianças e adolescentes, para causar-lhes dor, como método eficaz para obtenção de fins disciplinares pedagógicos por meios violentos, conforme tratamos em nosso artigo “Pais que amam seus filhos” (https://segundaopiniao.jor.br/pais-que-amam-seus-filhos/). Ele vem dar seguimento à linha política educacional colocada em andamento pelo seu antecessor, que foi refugiar-se nos EUA, após haver ameaçado verbalmente de por na cadeia os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), chamando-os a todos de vagabundos na famosa reunião ministerial dos palavrões, em 22 de abril.

Entre os muitos episódios controversos, por exemplo, em agosto de 2019, o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, deu seu apoio público a uma postagem que ameaçava representantes de estudantes com uma imagem de tacos de baseball recobertos de arame farpado com os seguintes dizeres: “Pedindo a UNE para voltar com badernas, que há “docinhos” esperando por eles”. Em maio do mesmo ano, esse mesmo ministro já havia fechado questão contra a possibilidade de servidores públicos do MEC poderem defender suas opiniões políticas em manifestações públicas contra a redução dos gastos em educação, ameaçando cortar o ponto de todos os que participaram daqueles atos públicos. Por fim, em janeiro deste ano, em resposta à entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, quando perguntado sobre se o tema da ditadura militar deveria ter ficado de fora do ENEM, ele respondeu: “Aqui no Brasil existe uma coisa ainda não pacificada de como foi o período militar. O objetivo do ENEM não é polemizar, não é para ter questão polêmica”.

Um trecho do documentário “Privacidade Hackeada” (2019), dos diretores Jehane Noujaim e Karim Amer, em 27 de março de 2018 apresenta o inquérito sobre “fake news” instaurado no Parlamento Britânico por ocasião do resultado do referendum sobre o BREXIT. Um dos interrogados foi o jovem cientista de dados Christopher Wylie, um dos cérebros da construção da empresa Cambridge Analytica, de Steve Bannon, consultor internacional dos Bolsonaro. Wylie afirmou em seu depoimento: “É incorreto falar da Cambridge Analytica como uma empresa de dados. Ela é uma máquina completa de propaganda. Ela nasceu para viabilizar a tese fundamental de Bannon fundada na convicção de que se você quiser transformar uma sociedade, primeiro tem de destruí-la. Somente depois de destruí-la é que você pode remodelar os pedaços segundo sua visão de sociedade. Por isso Bannon dedica-se a fazer guerra cultural. Para tanto é necessário possuir os dados das pessoas e das sociedades. E as redes sociais servem para isso: coletar dados das personalidades. São manipulações extremamente imorais, brinca-se com a psicologia em países inteiros, sem a autorização nem o conhecimento das pessoas. Tudo isso acontecendo em contextos de países ditos democráticos. Mas se permitirmos trapaça em nosso processo democrático, tudo fica fora de controle”.

Por sua vez, em 17 de março de 2019, num jantar nos EUA com representantes da extrema-direita (https://www.youtube.com/watch?v=Q0GtNa-VHqM&feature=youtu.be), o assim chamado presidente Bolsonaro admitiu haver chegado ao poder para levar adiante um projeto de demolição e desconstrução nacional. Disse: “Um dos grandes inspiradores meus está aqui, o professor Olavo de Carvalho, inspirador de muitos jovens. “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos de desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa. Quis a vontade de Deus nos eleger para essa missão que nos foi dada”.

Portanto, as questões ideológicas estão indissociáveis da inépcia do governo na condução de políticas públicas. Um exemplo claro, entre muitos, dá-se quando o secretário nacional de cultura sente-se à vontade para protagonizar em comunicação oficial um infeliz plágio da propaganda nazista de Joseph Goebbels. Esse governo já deixou claro que não tem o menor interesse em construir nada em prol da população brasileira. Desde o desmatamento da mata amazônica ao descaso na coordenação do enfrentamento da pandemia do corona-vírus com um número de 80 mil óbitos até o presente momento, passando pelo ataque à ciência, à cultura e à educação, a truculência ideológica bolsonarista opera numa lógica de destruição das conquistas públicas e valores solidários conseguidos a duras lutas populares desde a Constituição de 1988.

No próximo dia 20 será votada na Câmara Federal a continuação do FUNDEB, uma política pública dos governos do Partido dos Trabalhadores visando à educação básica brasileira, desde 2007, em substituição do FUNDEF. Essa política precisa não apenas ser renovada, como também ampliada em termos de participação orçamentária do governo federal, bem como num aprofundamento que garanta o avanço na qualidade da educação pública básica para nossas crianças e adolescentes. Importante que cada um de nós faça contato direto com os representantes políticos de nossos estados cobrando deles uma posição firme e comprometida de proteção contra eventuais ameaças que esse desgoverno possa vir a cometer contra com a continuação e ampliação do FUNDEB.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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