A despolitização da luta, por Alexandre Aragão de Albuquerque

​​
O Golpe de 2016 dialeticamente tem contribuído para trazer à emergência de forma mais radical as contradições ocultas na sociedade brasileira mascaradas pela onda positiva de crescimento do mercado interno de consumo promovido pela política desenvolvimentista do PT ao longo dos seus três mandatos presidenciais 2003-2014. Uma das excelentes obras que analisam este período é o livro “Os Sentidos do Lulismo”, do cientista político André Singer, no qual o autor explica como a manutenção da estabilidade econômica e as ações distributivas patrocinadas pelos governos petistas estiveram na raiz do massivo apoio das classes populares a LULA: um projeto político complexo, baseado no apoio da massa de excluídos e voltado para a superação da miséria; um projeto moderado, em função da correlação de forças, mas orientado decididamente na direção da mudança do país.

Ocorre que o Mercado é voraz. Nunca se satisfaz com uma parte do bolo, sempre quer tudo. Mesmo se esse tudo tenha de ser conquistado por meio da destruição das políticas afirmativas e distributivas de renda, pelo crescimento exponencial do desemprego, por uma forte depressão econômica levando pequenas e médias empresas comerciais e produtivas à perda de seus patrimônios para as Instituições Financeiras, bem como pela entrega das riquezas nacionais ao Capital Financeiro Internacional aumentando ainda mais nossa dependência. Marx chamava isso de ampliação contínua dos automatismos do capital: o mundo configurado como um grande mercado mundial. Essa configuração faz prevalecer uma homogeneização abstrata. Tudo o que circula é quantificado monetariamente, ou seja, vale quem tem dinheiro; quem não tem, dança. E essa é a razão do Golpe de 2016: os ricos destruindo a distribuição de renda e apoderando-se ainda mais de fatias de bolo.

Mas existe uma imbricação nesta dinâmica. Se por um lado o Mercado uniformiza, por outro lado fragmenta identidades para poder explorá-las ainda mais. Gilles Deleuze, autor de “O Anti-Édipo”, dizia exatamente isto: a fragmentação provocada pelo capitalismo implica a formação de novas homogeneizações. O capitalismo exige, para o seu automatismo crescente o ressurgimento de identidades territoriais e subjetivas, as quais reivindicam o “direito” de serem expostas com suas marcas como mercadorias na dinâmica capitalista. Nada mais interessante para uma Rede Globo, por exemplo, do que o surgimento de novas histórias, de novos figurinos, de novas comunidades, de novas ong’s; isto gera reportagens, ampliação de audiência televisiva, fidelização de telespectadores, produção de novos produtos, como revistas especializadas, publicidades dirigidas a alvos específicos até com programas de debates nos horários de grande audiência na televisão: uma nova imagem social sempre autoriza a comercialização de novos produtos rentáveis. E infelizmente é o que estamos assistindo dia após dia: lideranças populares, representantes de ongs e de grupos religiosos, todos ávidos de serem iluminados pelas luzes da mídia, com uma falsa percepção de que com esta assimilação pelo Mercado estariam desenvolvendo suas lutas.
Mas o que é uma luta, em sentido político?

Luta política é uma disputa sobre um recurso escasso que confere poder a quem o detém. Uma luta política se caracteriza pela sua “especificidade”, ou seja, na radicalidade do empenho em perseguir o objetivo; pela “sua natureza”, isto é, uma disputa entre grupos sociais organizados em função de ocuparem lugares opostos em face da exploração do Trabalho e pelos seus objetivos incompatíveis enquanto visão de sociedade: capitalista (voltada para o Capital) ou socialista (voltada para o Trabalho). Além disso, com a ampliação da complexidade das sociedades industriais, surgiu o termo “novos movimentos sociais” para dar conta de novos atores políticos organizados em outras lutas segundo outros critérios de agregação que não somente a classe. Esta ampliação alargou o conceito de luta social incluindo a ideia de resistência o qual designava todos os grupos inconformados com o estatuto de vítima: é resistente todo aquele e aquela que se recusa a ser vítima, que não está com pires na mão a pedir, mas está de forma organizada a lutar.

É bom acrescentar que as narrativas da grande mídia se especializam e intensificam a publicidade de violências despolitizadas, com o intuito de prender a atenção das mentes em torno dessas pautas: crimes diários, pontuais, de indivíduos, geralmente de natureza física. Jamais apresentam e nem tampouco aprofundam a violência estrutural, cultural, simbólica e psicológica que estão na base das outras violências. Com o Golpe de 2016, o caráter ideológico dos discursos midiáticos aprofundarão ainda mais estas narrativas despolitizadas como forma de cooptar telespectadores e lideranças, ongs, grupos religiosos e comunidades para o mercado comercial.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.