“Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.”

Caetano Veloso

O capitalismo, desde a revolução francesa que deu formas jurídico-constitucionais ao mercantilismo nascente substituindo politicamente o absolutismo fisiocrata monárquico, tem se caracterizado pela beligerância genocida. 

Em nenhuma quadra da história se matou tantos seres humanos quanto nos últimos duzentos anos da república capitalista. Mal tinha sido derrubada a monarquia da Casa Real da Dinastia Bourbon no final do século XVIII com a Revolução Francesa eis que surge Napoleão Bonaparte no início do século XIX com as chamadas campanhas militares de conquistas (1804 a 1815) marcadas por invasões militares em nome de uma nova ordem antimonarquista que se pretendia iluminista.

O século XIX foi marcado por ebulições próprias ao desenvolvimento do mercantilismo da revolução industrial inglesa e surgimento da energia a vapor que transformava energia térmica em energia mecânica impulsionando máquinas, o transporte ferroviário, equipamentos industriais e gerando eletricidade. 

A queima do carvão ou da lenha que aquecia a água gerando vapor que acionava o pistão num movimento mecânico contínuo representou o embrião e despertar de uma revolução tecnológica que viria a seguir e com ela o desejo de hegemonia econômica e política tanto no continente europeu como na América estadunidense com a segunda revolução industrial fordista do início do século XX, das grandes guerras mundiais nas quais morreram cerca de 3% de toda a população mundial. 

Como se vê, a trajetória de implantação do capitalismo mercantilista que moldou uma forma política que lhe é imanente tem um rastro de sangue. O capital é assassino e a democracia burguesa uma farsa representativa que ora demonstra toda a sua incongruência política pari passu à derrocada dos seus fundamentos econômicos decadentes. 

Como se admitir que o povo dos Estados Unidos eleja um Donald Trump, notório golpista político patrono dos atentados ao Capitólio em 06 de janeiro de 2021 contra a eleição e posse de Joe Biden no qual morreram manifestantes e militares, além de ser um criminoso condenado por crimes sexuais e de sonegação, senão pela manipulação da vontade eleitoral por mecanismos estranhos à legítima e livre manifestação da vontade popular???

O resultado da influência do poder econômico na eleição de políticos de direita revela que na democracia burguesa os eleitores estão presos a um processo suicida de manipulação da vontade e convergem para o abatedouro tal como gado no corredor de abate, inconscientes e sem alternativas; escolhem dentre o que já foi previamente escolhido pelo capital. 

Agora o Chile e a Bolívia acabam de eleger governantes de direita que se somam a um Javier Milei da Argentina formando um cinturão conservador no cone Sul das Américas numa demonstração clara de um movimento pendular eleitoral entre direita e esquerda fruto da insatisfação popular que não se apercebe de que ambos os projetos representam apenas variações políticas que atuam sob uma mesma base de exploração social: o capitalismo.

A inconsciência social popular sobre si mesma atua como se se considerasse coletivamente que o capitalismo e suas relações de exploração e ordem política fosse algo tão natural e indiscutível como a necessidade se se beber água e se comer alimentos diariamente. 

A inconsciência coletiva corresponde a um torpor ensandecido, senão vejamos: 

– Elege-se Jair Bolsonaro, o terrorista planejador do atendado à represa do Guandu, no Rio de Janeiro, causa de seu afastamento do Exército quando ainda era tenente e declarado defensor de torturadores e assassinos como o Coronel Brilhante Ustra e apologista do arbítrio político de exceção;

– Elege-se tipos como Donald Trump, um genocida que quer receber o título Nobel da Paz Mundial, apesar de matar pessoas em barcos indefesos atingidos por poderosas bombas em nome de uma presunção não comprovada de que se trata de narcotraficantes;

– Mantém-se na Presidência o delinquente dos Estados Unidos que não apenas nega o aquecimento global causado pelo consumo de combustíveis fósseis que tem os Estados Unidos (e a China) como maiores emissores do gás carbônico na atmosfera pelo seu uso, como quer tomar na marra o petróleo venezuelano, fonte de riqueza daquele país numa ordem capitalista que não consegue equacionar o problema do ecocídio causado pela produção, consumo e venda dessa fonte energética predadora da vida;

– Aceita-se que um país invada o outro por terra e lance bombas contra civis inocentes como faz o ex-agente da KGB, Vladimir Putin na agressão assassina da população civil da Ucrânia;

– Aceita-se o genocídio em Gaza de mulheres, idosos e crianças praticado pelo governo sionista de Israel como se fosse admissível tal prática e o mundo fosse impotente para detê-la;

– Gasta-se mais dinheiro em armamentos do que no combate à fome que aumenta, apesar do desenvolvimento científico das técnicas agrárias;

– Aceita-se o pagamento extorsivo dos juros da dívida pública em detrimento do provimento de demandas sociais básicas como saúde, educação, alimentação, habitação e infraestrutura sanitária, transporte, abastecimento der água e energia, e outras necessidades como lazer e cultura;

– Aceita-se que se dê cerca de R$ 5 bilhões para o financiamento de partidos políticos em suas campanhas eleitorais e se esquecem da permanente influência do poder econômico do processo eleitoral;

– Naturalizam-se e existência de máfias do crime organizado em permanente competição como   o crime do colarinho branco numa disputa que enoja o cidadão comum explorado, ambos infiltrados no aparelho de estado parlamentar, esferas executivas e no judiciário, a exemplo que que se sucede permanentemente do Estado do Rio de Janeiro, transformando a outrora “cidade maravilhosa” no “coração das trevas, como alguém já apelidou;

– Campeia soltos e com exemplos que a cada dia populam mais volumosos e impunes no noticiário criminal os crimes de corrupção com o dinheiro público;

– não se explicam a irracionalidade da especulação financeira dos juros aos rentistas e nem se explica a pirâmide isenta de impostos das criptomoedas como bitcoin; 

– etc., etc., etc.

O retrato da barbárie social parcialmente aqui citado (há muitas outras) tem uma causa: o capitalismo e sua degeneração econômica e política; superá-lo é a palavra de ordem inadiável. 

Como fazê-lo? Isso somente é possível com a introdução de um novo modo de produção social capaz de negar todas as incongruências do sistema produtor de mercadorias e que viabilize uma ordem jurídico-constitucional que lhe seja correspondente. 

Repetir esse desfecho e formular apelo à conscientização do mal e na necessidade de sua superação como um mantra deve servir de incômodo como uma pedra no sapato de um caminhante que errou o caminho.