A decomposição do dólar dos EUA

“Os dois nervos da guerra são gente e dinheiro.

Pe. Antônio Vieira

Desde que as moedas mundiais passaram a ser meramente fiduciárias, sem lastro em ouro (o mineral precioso já não podia mesmo ser descoberto na natureza e armazenado num volume do crescimento monetário mundial), ou seja, quando as ditas cujas passaram a ser baseadas apenas na credibilidade dada aos países emissores, as economias dominantes passaram a se beneficiar deste mecanismo em face do seu poderio econômico.

A partir do tratado de Breton Woods, New Hampshire, EUA, no final da segunda guerra, que estabeleceu o dólar estadunidense como moeda internacional, houve uma viragem pró-Estados Unidos na economia mundial.

Com a Europa destroçada pela guerra; na Ásia o Japão derrotado e a China rural fazendo a revolução maoísta; a Rússia com suas ruínas deixadas pelos nazistas e mais de duas dezenas de milhões de mortos; os Estados Unidos, que saíram com sua infraestrutura de produção ilesa e credor do espólio dos derrotados, passou a dar as cartas.  

Tal situação melhorou substancialmente em 1971quando, sob o Governo Nixon,  foi estabelecida a dispensa da conversibilidade da moeda em ouro, e os Estados Unidos passaram a produzir moeda sem lastro e exportá-la para as negociações mundiais sob tal parâmetro monetário dolarizado.  

Sem produzir inflação interna pela emissão desenfreada de USD, os Estados Unidos podiam tudo comprar do mundo sem ter correspondência de lastro comercial entre importações e exportações, e isto explica em grande parte a pujança econômica do Tio Sam, que se tornou a meca do capitalismo mundial.

Para se ter uma ideia monetária do que representa para os Estados Unidos a possibilidade de cobrir o déficit comercial anual com dólar sem lastro, e continuar comprando com a mesma capacidade sem que isto abale a sua economia interna, basta dizermos que em 2020 houve um saldo negativo de US$ 676,7 bilhões, e em 2021 cresceu para US$ 859,1 bilhões. Isto é a metade de todo o PIB brasileiro!!!  

Passou-se a ter os Estados Unidos como exemplo de prosperidade capitalista virtuosa a ser seguido (tanto pelos incautos analistas leigos, como mesmo por outros interesseiros letrados em economia), ou seja, passou-se a ter, sem contestação e como verdade absoluta, o seguinte conceito: “como o capitalismo é bom! Vejam os Estados Unidos, e sua economia liberal de mercado!”

Agora os ventos não mais sopram a favor dos Estados Unidos, e tudo por conta das contradições intrínsecas do próprio capitalismo, que se constitui como uma equação irresolúvel de tentativa de prosperidade permanente, e muito menos de prosperidade mundial linear.

Bastou a China passar a produzir mercadorias a preços baixos, conciliando baixo valor do trabalho abstrato escravo abundante (trouxe grande parte da população rurícola de mais de 1 bilhão para as áreas industriais urbanas);

 mecanização da produção tecnológica, computadorizada e eletrônica;

aceitação sem restrições do capital industrial e comercial internacional ávido por necessária expansão;  

endividamento gigantesco capaz de formar um parque industrial do seu tamanho (territorial e populacional);

e com isto conquistar grande parte do mercado mundial, para que o apregoado liberalismo de mercado fosse abandonado pelos Estados Unidos com a adoção de medidas protecionistas à sua produção e consumo interno.

Ao ver as suas indústrias migrarem para as regiões mais pobres do mundo em busca de mão de obra barata (trabalho abstrato produtor de mais valia) como forma de sobrevivência econômica na guerra concorrencial mundial de mercado, os Estados Unidos viram sua economia entrar em depressão e se viram forçados a criar bolhas financeiras surreais.

Exemplo marcante do desemprego do dinheiro e de sua vital necessidade de reprodução aumentada, sem a qual ele fenece, temos na bolha imobiliária do sub-prime de 2008/2009, que estourou por falta de consistência de tal mecanismo e que abalou todo o sistema bancário mundial, salvo pela emissão de moedas sem lastro pelos Bancos Centrais euro/estadunidenses.

Tal fato se constituiu como remédio paliativo de curto prazo cujas consequências ora se verificam como desastrosas, graças à perda de credibilidade de suas moedas, por estarem dissociadas de valor intrínseco advindo da produção de mercadorias, única fonte de valor válido sob o critério monetário capitalista.

As criptomoedas e suas valorizações meramente especulativas também caminham para o mesmo desfecho e de uma forma ridiculamente aceitascomo válidas. Como dizia um samba antigo; “não duvido porque neste mundo tem bobo pra tudo.”

Agora o tema do abandono do dólar como moeda internacional toma importância no noticiário, em razão das escaramuças da Rússia e da índia na defesa de uma moeda continental que promova a junção da rúpia com o rublo, e que viabilize suas relações comerciais (capitalistas, não se esqueçam).

Diante de tal perspectiva, não tardou para que Washington manifestasse seu temor e fizesse as ameaças próprias a quem se considera (mas é, facciosamente) polícia do mundo.

A Casa Branca afirmouo que não queremos é uma rápida aceleração das importações indianas da Rússia em termos de recursos energéticos ou outras exportações atualmente proibidas pelos EUA. Não criem mecanismos que apoiem o rublo e tentem minar o sistema financeiro baseado no dólar americano, pois haverá consequências para os países que tentarem ativamente contornar assanções impostas à Rússia”.

Por sua vez o Vice-Conselheiro da Presidência dos Estados Unidos disse que a visita à Índia se dá num espírito de amizade para ‘explicar’mecânica de nossas sanções”.

Desapontado, Biden chamou de “trêmula” a posição da Índia sobre as sanções contra a Rússia, em contraste com os demais aliados dos EUA na Europa e na Ásia. A pressão de Washington foi secundada pela ida, no mesmo dia, da ministra das Relações Exteriores inglesa, Liss Truss, à Índia.

A diplomacia da Rússia classificou como “chantagem” as ameaças dos Estados Unidos, e afirmou: a parceria [Rússia-Índia] não depende de considerações conjunturais. Mais ainda, não depende de métodos ilegais de diktats e chantagem. Usar tais práticas contra países como a Rússia, Índia, China, é fútil e apenas significa que essas pessoas que promovem, propõem e impõem tal visão sobre todos mais, não entendem completamente a natureza da identidade nacional desses países, com os quais eles tentam se comunicar usando a linguagem da chantagem e dos ultimatos”.

O sistema de intercâmbio rublos-rúpias pretende usar o sistema de pagamentos russo SPFS, com ambos os lados abrindo contas em rublos e rúpias, e com a referência para a taxa de conversão em processo de definição.

Em resposta a Washington a ministra indiana das Finanças, Nirmala Sitharaman, confirmou que o país começou a comprar petróleo russo. “Ponho nossa segurança energética e os interesses do meu país em primeiro lugar. Se o fornecimento está disponível com um desconto, por que não comprá-lo?”

O mesmo procedimento está sendo usado pela Rússia para a venda de mercadorias para a União Europeia, ou seja, exigindo o pagamento em rublos, como forma de fortalecimento de sua moeda.

Por sua vez a China, que vende suas mercadorias para o mundo em dólar e tem dependência econômica e financeira a esta moeda internacional, fica neste conflito de interesses mesquinhos com um pé lá e outro cá, ainda que o coração chinês bata mais forte por se aproveitar da decomposição orgânica do dólar e do euro para firmar o seu Yuan como moeda fiduciária de aceitação global para impor com mais força sua pretendida hegemonia econômica capitalista.

Nada disto, entretanto, autoriza Vladimir Putin a cometer os crimes de guerra que vem cometendo contra a Ucrânia, país que quer manter vínculos com o ocidente capitalista, ao invés de se aliar ao bloco russo/indiano/chinês igualmente capitalista.

A guerra da Ucrânia é muito mais monetária do que militar, ainda que sejam os seres humanos as vítimas mais diretas e imediatas da crueldade desta ordem mundial capitalista que tem nos padrões monetários nacionais, as moedas, o mecanismo sofisticado de segregação social, que neste momento de depressão econômica mundial já nem mesmo corresponde à representação fidedigna do valor, tais como foram concebidas nos primórdios.            

A humanidade não pode ser dirigida por tais interesses desumanos, numericamente abstratos pelo valor de troca, mas tornados reais sob a forma de valor de uso pelo consumo (as mercadorias), ecologicamente predadores da natureza, artificialmente manipulados, sociologicamente conceituados como classistas e segregacionistas, violentamente belicistas, e reificados ditatorialmente como coisas que dão ordens ao nosso agir e pensar.

O humanismo que reside em nós no mais recôndito espaço das nossas consciências tem que brotar revolucionariamente como as flores na primavera anunciando o bem e a virtude, em contraposição a todos os tipos de maldades estruturais e seus interesses mesquinhos!

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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