Em algum momento recente, fazer cultura deixou de ser suficiente. Desde então, passou a exigir desempenho, visibilidade, entrega constante. Não basta produzir, é preciso provar valor em tempo real.
Convém esclarecer que não se trata de idealizar um passado supostamente livre do mercado. A cultura sempre negociou com ele. O que mudou, porém, é que essa negociação deixou de ser circunstancial e se tornou estrutural. Hoje, o trabalho cultural existe sob avaliação contínua. Não se mede apenas o que se faz, mas o quanto circula, o quanto reage, o quanto rende.
Nesse contexto, antes mesmo de uma ideia ganhar forma, ela já nasce submetida a filtros externos. Funciona? Em qual formato? Com que frequência? Para qual público? A pergunta sobre o sentido vem depois, quando vem. Assim, a lógica da plataforma antecede a do pensamento. Não há censura explícita, há direcionamento permanente. E, como consequência, direcionamento constante também molda comportamento.
É aí que surge o impasse. O problema não é vender. É quando vender se torna condição anterior à elaboração. Quando o gesto criativo passa a ser calibrado não pela necessidade interna do trabalho, mas pela expectativa de resposta. Nesse movimento, a cultura começa a se explicar demais, a se defender, a se justificar. Tudo precisa caber, tudo precisa convencer rápido.
Como resultado, formou-se um campo cultural tecnicamente competente e conceitualmente vigilante, mas operando no limite do esgotamento. Pessoas que sabem escrever, editar, pensar, criticar, e que passam boa parte do tempo traduzindo o próprio trabalho para formatos que não foram feitos para ele. O pensamento vira recorte. A crítica vira resumo. O conflito vira risco calculado.
Diante disso, não é o desaparecimento da cultura que está em jogo, mas sua redução a desempenho. A obra deixa de existir pelo que produz de sentido e passa a valer pelo que consegue sustentar como presença. Nessa lógica, o silêncio, a demora, a recusa em simplificar se tornam entraves. A inutilidade aparente, que sempre foi motor de criação, passa a soar como falha.
Pressionado, o campo cultural aprende a se adaptar. Ajusta o tom, encurta a frase, evita atrito excessivo. Não por falta de pensamento, mas por sobrevivência. Porque, quem não se adapta some. Quem some não circula. E quem não circula deixa de existir no debate.
Talvez, então, o gesto mais radical hoje não seja romper com o mercado, mas impedir que ele formule todas as perguntas. Produzir sem pedir licença para caber. Pensar sem antecipar a vitrine. Sustentar complexidade mesmo quando ela não performa bem.
Não há engano possível: não há heroísmo nisso. Há custo. Ainda assim, a cultura sempre avançou assim, pagando o preço de não ser imediatamente assimilável.
É justamente aí, por fim, que ela permanece necessária.
Imagem ilustrativa gerada por IA