A CULTURA DA CIDADE E O DESAPARECIMENTO DO FLÂNEUR – José Flôr de Medeiros Júnior

Em meio à turbulência em que reside a sociedade do tempo presente reforça a necessidade de pensarmos nas cidades e seus espaços nem sempre citadinos, democráticos e urbanos. Pode, em tese, parecer paradoxal, sim. Ocorre que as atuais cidades estão cada vez mais parecidas com áreas feudais com ausência de espaços democráticos na coexistência com o urbano.

Os gregos narraram a importância dos espaços citadinos a partir da pólis denominando os territórios ao exercício da prática política, da vida social e da cultura representada no teatro vivenciado na tragédia e na comédia. A Roma Antiga, cantada e decantada por historiadores, cientistas políticos, sociólogos e filósofos somente foi possível a partir da demarcação da área urbana. A plebe ocupava sua área à margem do Senado e do mundo imperial.

A cultura renascentista somente ocorre devido ao processo crescente de urbanização na Europa possibilitando através das rotas comerciais o intercâmbio cultural e, assim, tornou possível Thomas More e Erasmo de Roterdam conversarem sobre tolerância de forma a propiciar o nascimento de A Utopia e de O Elogio da Loucura, respectivamente.

James Joyce em seu Ulisses narrou, como nenhum autor até o presente, a importância do espaço urbano através de personagens que conversam entre si pelas ruas de Dublin. O leitor de James Joyce, especificamente da obra Ulisses, sabe ser impossível entender as mais de mil páginas do escritor irlandês sem antes contemplar o mapa da cidade posto nas primeiras páginas do escrito. É necessário caminhar por Dublin para compreender Ulisses. 

Os pontos até o momento narrados carregam consigo que os autores das épocas postas tinham consigo o caminhar pela cidade e contemplá-la. A importância do olhar da personagem para a rua X ou Y é crucial ao entendimento de como a cultura política, literária e artística de forma geral se desenvolveu. Sem a contemplação não existe a arte. Sem a contemplação das ruas da cidade não existe a possibilidade de pensar a cidade e, posteriormente, descrevê-la.

Algum tempo depois… 

Walter Benjamin afirmou que “a cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto.” (BENJAMIN, 1989, p. 203) Espaço onde todos que a ele adentram não mais conseguem sair. A imagem pintada por Benjamin carrega o signo do espaço onde o homem sonha com a liberdade para, ao adentrar, morrer aprisionado ou viver amedrontado pelo Minotauro oriundo da mitologia grega. A simbologia posta por Benjamin é a narrativa da morte da razão, da emoção e do pensar.

O homem a residir no tempo presente não mais habita a cidade, mas reside fora dela. Está a habitar à margem das cidades para, de forma “segura” contemplar o processo de pauperização da sociedade e de seus habitantes. Condomínios horizontais ou verticais (isto pouco nos interessa) são erguidos fora dos limites da cidade que passou a ser símbolo de aprisionamento à vítima da pauperização. As áreas condominiais não respeitam a lógica do caminhante, do flâneur. Na realidade são áreas não urbanas distintas e diversas à lógica, à razão, à emoção e ao pensar. São signos do isolamento das grandes, médias e pequenas cidades.

O leitor se conseguiu caminhar até esta linha pode (na realidade deve) se perguntar qual o sentido do caminhar nos dias de hoje. Realmente, hoje todos caminham buscando uma melhora à saúde, inclusive. Um caminhar irracional que é incapaz de contemplar a paisagem por onde perpassa o caminhante. Um caminhar distinto, e distante, da emoção das personagens de James Joyce e de todos os escritores que narraram suas obras em espaços urbanos. Um caminhar sem pensar porque a capacidade de pensar de muito está posta à margem pela sociedade. O pensar é um ato de loucura.

Que loucura caminhar “perdendo tempo” olhando por onde passa. Talvez o leitor tenha razão. Ocorre ser o caminhar um ato racional, emocional e pensado repleto de contemplação. Ninguém viaja de um lugar a outro (pode-se viajar estando em casa pelas páginas de um livro, por um site na internet, através de uma novela ou filme) se não for para contemplar novas paisagens onde o olhar busca o novo, aquilo nunca antes visto, nunca antes contemplado. 

Quando se retorna da viagem a narrativa sobre lugares vistos, bem como a lamentação pelos lugares que não se foi possível visualizar, é realizada por todos aqueles que retornam ao lugar onde é estrangeiro: a cidade onde habita. A incapacidade humana de retornar ao caminhar, de se emocionar e de pensar no local em que é habitante torna o mesmo um estrangeiro em sua própria terra. Maximus, do filme O Gladiador, antes de cada luta apanhava um pouco da terra do local onde estava e punha às mãos esfregando-as. Estava conhecendo a terra. Ritual repetido quando volta à Roma. Maximus não queria ser estrangeiro em terra nenhuma. 

Hoje, quando falamos de cidadania global e de cidadão do mundo se faz imperioso pensar o que conhecemos como caminhantes. Ou será que seremos sempre estrangeiros na terra que habitamos? Caso a sociedade não retorne o hábito do caminhar será, num tempo não muito distante, uma sociedade sem memória. Os incapazes de narrar por onde andaram são incapazes de demonstrarem lembranças, razões, sentimentos, emoções e, principalmente, memória.

Antes que adentrem os críticos com suas críticas firmo ser defensor do espaço urbano e da cultura da cidade, desde que com o hábito de contemplação do caminhante nas áreas por onde firma o passo. A cultura, o culto, da cidade não pode ser a morte do caminhante. Deve, sim, ser o motivo da existência deste. Reside em minha pessoa a esperança do retorno do caminhante. 

   

 

Medeiros Júnior

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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