A CRUZ DO PAPA

Desculpem, eu sei, ando meio em dívida com vocês leitores, mas os dias estão diferentes e tenho digerido a cada dia cada coisa, cada gota, cada sensação, com a licença do clichê: como se fosse a última vez. Talvez seja a última mesmo — curioso que também é a primeira —  e assim vamos vivendo, saboreando as primeiras e quem sabe últimas vezes de algumas coisas.

O relato que se segue é uma obra ficcional, um tanto real, pelo menos em mim foi. Eu, que não tenho proximidades com religiões e divindades, me deparei com uma imagem, destas que  provavelmente não irei mais ver igual. Na sexta o Papa Francisco realizou a celebração Urbi et Orbi (para a cidade e para o mundo), uma cerimônia sempre ao final do ano na simbólica praça de São Pedro tomada de fiés a louvar a presença divina, cantar, se emocionar, deixar escorrer lágrimas nos olhos, enfim. Uma cerimônia mais que tradicional para os católicos.

Pois bem, sexta passada, tal celebração ocorreu de maneira inusitada. Não estava dentro da sua tradicional data e não contava com a presença dos fiéis, embora todos o olhassem pelas lentes que transmitiam ao vivo para o mundo inteiro, Francisco estava só, no vazio da praça e talvez no seu próprio vazio diante do que passamos. A seu lado apenas as imagens de Nossa Senhora da Salvação do Povo Romano – Salus Populi Romani e a cruz sagrada, o Cristo no Crucifixo que durante a Peste Negra foi símbolo do fim da epidemia, após procissão realizada pelos católicos nas ruas da cidade de Roma durante quinze dias. Assim, tentando digerir o momento e a imagem fotográfica do Francisco isolado, talvez também desolado, escrevo enquanto me emociono, pensando como se sentira aquele “santo” homem de carne e osso.

– Eu estava só, pensei que Deus estaria comigo, mas o silêncio era absurdo e caótico.

Senti meus ombros arquearem, será o peso da cruz? Quanto peso teve ela durante a peste? Serei eu capaz de conduzi-la em procissão?

A cada passo, a cada gota de água tombada do céu em meu corpo, escorriam-me as lágrimas de tantos irmãos que hoje lamentam a presença invisível do vírus e a perda de seus familiares e amigos. Esta é a caminhada mais longa de minha vida e o peso que carrego é indescritível. Hoje tenho o mundo a me observar, pronto a me ouvir, será mesmo a mim que eles precisam ouvir, senhor?

Ao atravessar a praça, lembrei de quantas vezes estive naquele balcão logo à frente e quantas pessoas me olhavam, esperavam pelo conforto das palavras que o senhor me orientava a dizer. Praça de São Pedro, obra arquitetônica clássica de Bernini, sustentada por este obelisco do século I, trazido do Antigo Egito. Praça que, vista de cima, para ser a chave que abre as portas do céu à terra, a chave de São Pedro e sua imponente basílica. Praça dos cento e quarenta santos que neste momento me observam e se indagam, o que dirás ele ao povo? Eu, se pudesse lhes pediria conselhos. Mas como Deus, parece, eles me abandonarem.

Chegando ao Balcão, me dei conta que realmente seria apenas eu. Talvez na caminhada, houvesse a esperança de repentinamente surgirem os irmãos e irmãs como que fizessem uma brincadeira, uma galhofa para testar meu poder emocional. Assim, me segurava na caminhada, na fantasia de que tudo isso não passava de um sonho ruim. Mas, ao me virar para a entrada da praça, percebi, não havia ninguém. Digo isso, e… Confesso um pouco constrangido, nem a presença de Deus estava ali. Quer dizer, devia estar, ele sempre está! Mas eu não tive a capacidade de sentir, de ouvir seus conselhos. Olhei para mim e logo um filme veio à cabeça, lembranças de quando era pequeno, iam se entrepondo imagens a todas as fases que vivi até o presente. Nunca me ocorreu a menor possibilidade de um dia estar aqui, nestas circunstâncias.

Nunca imaginara ser eu papa, seria presunção minha querer ocupar este lugar. Cheguei aqui pelas mãos do senhor Deus e tenho isso como um presente, deste que não se recusa, destes que assusta, mas conforta. Antes da benção, eternos dez segundos de silêncio me habitaram. Sim, silêncio! Ao olhar para aquela imensidão de vazio, fiquei eu no meu próprio vazio, não sei o que pensei, não sei o que senti, apenas fiquei ali, inerte, um estado de coma passageiro.

Cumpri a missão! Falei ao mundo, mas principalmente falei a Deus, pedi que sua presença e seu amor nos cobrisse. Não me recordo se senti alívio, se ainda sentia o peso da cruz, se me incomodava o vazio do espaço e o silencio mórbido, meu corpo não estava mais ali, nem eu. As gotas de água que banhavam meu corpo no caminho de volta estavam frias, tão frias quanto aquela noite, tão frias quanto aquele momento, se ao menos escorressem pelo chão e levassem este caos junto, diria eu que foi a chuva divina de purificação.

Já nos meus aposentos pensei nas pessoas, no drama vivido e como nós humanos fomos capazes de chegar até ali. Diferente do que pensam alguns, não foi castigo de Deus. Ele é apenas amor! Mas nós homens criamos um modo de vida tão aberrante que nem nos demos conta do tamanho da catástrofe para onde caminhamos a passos largos. Lembrei do Mujica “se você não consegue ser feliz com poucas coisas, não conseguirá ser feliz com muitas coisas”. Por que queremos tanto e quanto mais temos mais queremos? Talvez o momento sirva para uma nova configuração das pessoas, para que sejam mais coletivas e menos egoístas.

Não tenho fome, não quero ficar nem fazer sala, não quero conversar, meus irmãos, deixem-me ir para meu quarto. Ainda estou anestesiado, mas vos digo “é preciso esperançar”! Isso mesmo “esperançar”! Foi uma palavra que certa vez escutei de um professor brasileiro, Paulo é como o conheciam. Vamos nos acolher nos braços de Deus e esperançar, boa noite.

Quando cheguei no quarto, tive vontade de chorar, mas primeiro indaguei, “senhor, me abandonastes”? (risos sem graça) Queria eu ser o filho do homem? Pedi perdão, sei que ele não me abandonou, estava ali a me olhar, a me encorajar como um bom pai deve fazer. Por perto, em silêncio, deixando o filho aprender por si, mas na prontidão para socorrê-lo se necessário.

Neste momento senti um frio, destes quando a janela abre e a friagem toma conta, invade a casa causando um pequeno tremor no corpo. Depois percebi que algo, alguém, ele, me cobria silenciosamente com seu manto. Nessa hora chorei deitado no chão como se no colo da mãe, como se fosse eu a representação da Pietá. Não sei a dimensão disso tudo, não sei que caminhos haverá de existir, mas esta noite dormirei em paz, pois nos braços do Senhor me aconcheguei. Amanhã terei ainda mais força para conduzir o povo, mesmo sentido a falta dos que tombarão enquanto adormeço nos braços do pai.

Bonum nocte.

Ackson Dantas

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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