A cruz cedeu lugar à espada – EMANUEL FREITAS

Das reações extremadas que se seguiram, desde a semana passada, ao episódio de natal do grupo Porta dos Fundos, por parte de lideranças evangélicas e católicas, a primeira que chegou até mim, e me deixou temeroso, foi a do deputado carioca Otani de Paula, do Partido Social Cristão.

Nos quase seis minutos do vídeo publicado em suas redes sociais, e compartilhado aos montes, o episódio é denunciado como uma “aberração contra a fé cristã” produzida por “uma esquerda cristofóbica, que coloca na fé cristã a culpa por todas as misérias do mundo”.

Para o deputado, a liberdade com a qual os atores creem contar é a de que o cristianismo, como “religião do amor”, não permitiria que nenhum cristão viesse a “se levantar e atentar contra a vida deles”. “É fácil falar de Jesus”, diz ele, que espera que a “Porta dos fundos venha falar que Maomé é gay, que Alá é gay”. Porém, não o farão porque “os discípulos de Alá ou de Maomé não têm o mesmo comportamento dos discípulos de Cristo”.

Mas, encerra o deputado com um aviso: “todo lugar tem maluco, tem doido, até no meio de nós tem”.

Antes de tudo, se a esquerda (não sei qual) põe a culpa sobre tudo de ruim que existe no mundo na fé cristã (gostaria, como pesquisador da religião, que ele me diga como e onde), é mais verdade factual que lideranças religiosas têm, de há muito, o hábito voraz de, isso sim, semantizar a esquerda como o diabo, como as trevas, sobretudo em momentos eleitorais, que deve ser derrotado e estirpado do jogo político.

Depois, fica explícito, sobretudo quando se vê o vídeo, que o desejo do nobre irmão parlamentar é de que os atores paguem, muito bem pago, o que fizeram com o Cristo e, oxalá, pagassem como pagariam caso a ofensa fosse feita a Alá ou a Maomé.

Tiro, porrada e bomba.

Talvez ele lembre-se do caso dos chargistas do Charlie Hebdo, e, lamentavelmente, sinta um quê de inveja.

Por aqui, coube ao vereador Jorge Pinheiro, do PSDC, consagrado na Comunidade Católica Shalom, fazer referência ao episódio na Câmara Municipal e arregimentar seus pares numa moção de repúdio ao seriado e à Netflix. “A gente fica caladinho? Fica não”, disse o vereador.

Na Assembleia Legislativa, foi o deputado Apóstolo Luiz Henrique quem tratou do assunto e quem mobilizou seus pares, assim como fizera o vereador carismático.

Quando iniciou sua vida pública, Jesus tratou de enunciar as bem-aventuranças, das quais se destacam a mansidão e a “perseguição por causa de seu nome”. Hoje, esses que se dizem seus adeptos passam longe da mansidão, cada vez mais rangendo seus dentes, em cólera, contra aqueles que não rezam por seu catecismo. De perseguidos, como eram os da primeira hora, hoje gozam na figura do perseguidor.

Nada mais de oferecer a outra face, como disse o Cristo, esperando a recompensa na glória futura; agora, parte-se para o confronto, buscando-o nas diversas áreas, com destaque para o campo moral.

Repetem, hoje, a passional atitude de Pedro, narrada em Matheus 26, quando este lançou mão de uma espada para ferir de morte o soldado romano que viria a prender Jesus; lá, Pedro obedeceu à ordem do mestre e embainhou sua espada; hoje, seus discípulos lançam mãos de quantas espadas forem possíveis para fazerem valer os interesses de sua crença, não de seu Mestre.

Chegamos, pois, a este cristianismo que anseio em trocar a mansidão da cruz pela voracidade da espada. Nada de consolo no céu; bom mesmo é reinar, com espada em punho, aqui na terra!

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)