A Covid no Caneco Amassado – CLAUDER ARCANJO

Enquanto a turma seguia na Virgulina, da Fazenda Eldorado para Licânia, em busca de desvendar o mistério da promessa do Lau, uma novidade despontara no curso da pandemia do coronavírus em solo licaniense.

O caso é o seguinte: quando levantaram os dados da contaminação em todo o município, analisando-os por idade, sexo, localidade e outros critérios, chegaram a uma conclusão que arrepiou os cabelos das pias Filhas de Maria. Que conclusão foi?

Calma, apressado leitor! Essa conclusão há de render algumas linhas a mais; caso contrário, o capítulo perderá a sua atenção, ou morrerá em poucas linhas. E isso atrairá a sanha e a ira dos escribas caudalosos, seres que medem a arte literária pelo número de páginas, e nunca pela qualidade do escrito.

Pois muito bem. Antes da divulgação, o senhor prefeito considerou o estudo um caso de “Segurança Municipal”, o que fez com que os estatísticos encarregados do tratamento das informações ficassem sob severa vigilância do Cabo Jacinto Gamão e seu renomado cacete de jucá.

Se houve tentativa de vazamento? Claro que sim, porém tudo foi guardado sob o império de cacetadas mil. As damas fuxiqueiras quiseram furar o cerco e foram recebidas com bordoadas no lombo, surra de tirar o choco. Os viciados em descobrir os podres da vida alheia, ao pularem os muros altos da residência que guardavam os citados analistas, sofreram mordidas de dois cachorros vira-latas (nunca vacinados contra a raiva e outras doenças caninas). Além de servirem de saco de pancadas ao Cabo Jacinto e seu feroz regimento de seguidores.

Como não há coisa bem guardada que nunca vaze, o padre Araquento foi o primeiro a capitular:

— Tal segredo, senhor prefeito, está me deixando maluco. As beatas estão todas em polvorosa, não conseguem sequer rezar um terço; ou acompanhar, de forma silenciosa, a Santa Missa. Sem falar nos crentes, eles estão querendo catalisar o “resultado” em favor da causa dos pentecostais.

E a sacristia?

Nem me fale, prefeito, a sacristia está em pé de guerra: uns, julgando que o resultado já estava escrito no Apocalipse; outros, ligando tudo aos elevados casos de mancebia em nossa paróquia. E é bom a gente encerrar logo com isso! Se não, aí sim, descobrindo os podres dos homens de Licânia, afirmo, perante Deus e Nosso Senhor, não ficará pedra sobre pedra. Digo, não restará uma família impune. O prefeito concorda comigo?

O alcaide, amancebado-mor, percebeu que o pároco, nesse caso, estava coberto de razão. Ou seja, aquele risco seria maior do que o mal do coronavírus. Depressa marcou um depoimento à imprensa.

À luz dos holofotes, e sob os olhares concupiscentes dos seus munícipes, anunciou, sem meias palavras:

O isolamento social no Caneco Amassado, conforme os dados oficiais, revelou-se o mais eficaz. Tivemos zero caso de Covid naquele “ambiente”.

Um silêncio pairou no ar, cortado por um grito assustador:

— Nomeie a puta Anastácia como secretária de saúde, seu prefeito! Com ela, não há coronavírus que resista. Essa praga só respeita o Caneco Amassado!

— Silêncio! Silêncio!… — gritavam os puxa-sacos.

O problema já caíra na conta do sem solução. Os amigos do puteiro fizeram coro ao brado anterior, e a coisa resvalou para a bagunça generalizada.

— E a minha mulher me pedindo para ficar em casa! Devia ter me prevenido contra a Covid nos braços da cabocla Matilde — lamentou-se o Maguinho do Zé Aguiar, com as carnes em fogo.

Meia hora depois, Cabo Jacinto teve que evacuar a coletiva, a zunir o cacete por entre os rebeldes presentes.

Relatam que metade deles dirigiu-se direto, de mala e cuia, para o Caneco Amassado; a outra, segundo a estatística oficial, passou primeiro em casa para dizer umas verdades às esposas e, após isso, juntarem-se aos primeiros.

O padre Araquento recolheu-se e foi pedir orientação ao santo bispo. No entanto as más línguas propagavam que o prelado nunca seria encontrado na sede da diocese, pois estava sob os cuidados de Anastácia há dias.

Fiquemos por aqui. Alguns, os negacionistas e os revisionistas, pedem acesso aos números oficiais, a fim de submetê-los a uma auditoria da Organização Mundial da Saúde (OMS). Outros, a grande maioria, aguardam o desenrolar da crise sob o amorável teto do puteiro de Licânia.

Divulgaram que o rábula Gil Vicente, antes de se entregar às damas do amor, discursou, altissonante:

— E morrer aqui, pode?!

E todos responderam-lhe, entre gaitadas e chamegos:

— Só se cura um mal com amor!

O Caneco Amassado virou terra de promissão; e a boa e velha Anastácia, a venerada (e aclamada) dama da nova ciência.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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