A CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO SOCIAL NA EXECUÇÃO DO GOLPE – Alexandre Aragão de Albuquerque

Para entender o comportamento da sociedade brasileira moderna é preciso antes de tudo obter uma profunda compreensão da fundação histórica e estrutural sobre a qual se alicerça nossa formação como nação, cuja matriz colonizadora foi moldada por uma devastadora exploração do meio ambiente e dos habitantes originários do Brasil, para gestar em seguida uma economia escravista centrada no latifúndio e no tráfico de pessoas nativas da África, tratando-as cínica e legalmente como “coisa”, propriedades do senhor branco português e de seus descendentes. Desde então, todas as elaborações da superestrutura brasileira tiveram como motivo consolidar, expandir e atualizar essa forma de exploração social até os dias de hoje, em benefício da classe dominante.

No tempo moderno, uma das ferramentas potentes de atualização dessa dominação é a televisão. Desde o seu nascedouro funciona como uma espécie de “ente familiar” nacional. Entre as suas diversas aplicações, ela oferece a difusão de informações acessíveis a todos sem distinção de pertencimento social, classe ou região, disseminando a propaganda e orientando o consumo que inspira “a formação de identidades”. Nesse sentido ela é emblemática do surgimento de um novo espaço público, no qual o controle da formação e dos repertórios disponíveis mudou de mãos, deixando de ser privilégio da Escola, da Igreja e do Estado.

A televisão faz parte da vida dos brasileiros e brasileiras. Ela é ainda o meio bastante utilizado para se transmitir as informações às quais a população tem direito. Porém, se o poder de informar torna-se exclusivo de certa classe, é óbvio que esta casta social vai deter o monopólio da informação de massa. Consequentemente, o conteúdo e a forma transmitidos por esses órgãos cada vez mais poderão ser “filtrados”, “selecionados” e “distorcidos” para atender a interesses de classe.

No Brasil a televisão criou algo que não se conhece em outros países, principalmente em virtude da forte concentração de poder nas mãos das Organizações Globo. Segundo Renato Ortiz e outros autores, em sua obra “Telenovela: história e produção”, publicada pela Editora Brasiliense, ao analisar o fenômeno “Odete Roitman”, fenômeno novelístico no qual em dezembro de 1988 os índices de audiência atingiram cerca de 90%, com uma repercussão social fora de controle, a Globo conseguiu parar, modificar e até mesmo criar o pensamento da maior parte da população brasileira, como resultado sociológico e cultural. Portanto, há um domínio e uma expertise acumulados ao longo das décadas concentrados nas mãos desse oligopólio midiático que lhe permitem manipular com maestria o imaginário social segundo os seus interesses políticos e econômicos.

Na quinta-feira, dia 29/08, foi ao ar pela Rede TVT a entrevista concedida pelo jornalista e bacharel em direito Glenn Greenwald ao programa “Entre Vistas”, de Juca Kfouri. Três aspectos desta entrevista nós gostaríamos de assinalar aqui nesta reflexão.

Primeiramente a construção midiática da figura do desconhecido Sérgio Moro na opinião pública. Desde o início da Lava Jato, Moro teve sua imagem sendo fortemente construída pela Rede Globo como sendo um verdadeiro “herói nacional”. Este processo foi intensificado nos últimos 05 anos, sem contraposição, sem contraditório da mídia brasileira. Estudos mostram que, num período de um ano, o Jornal Nacional exultou a figura do ex-juiz Sérgio Moro em 200 reportagens seguidas, enquanto simultaneamente detratava a imagem pública do Presidente Lula.

Diante desta manipulação midiática, o desafio que as reportagens do The Intercept Brasil enfrentam ao revelar as condutas criminosas do ex-juiz torna-se enorme. Glenn aponta para o fato de que se essas revelações fossem feitas nos EUA em relação a crimes cometidos por um juiz (agora ocupando um cargo de ministro de Estado), seria impossível ele manter-se no cargo: “Se qualquer juiz fizesse nos EUA o que Sérgio Moro fez aqui no Brasil, perderia o seu cargo de juiz (e de ministro) de forma sumária”.

Em segundo lugar, Glenn acusa que o lucro da Rede Globo foi muito grande, ao longo desses anos com a parceria que estabeleceu com os operadores da Lava Jato para a publicação sistemática e quase exclusiva dos vazamentos, “quase todos ilegais”, como bem lembrou o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Glenn destaca que “a Globo estava aliada a Moro nos últimos cinco anos, não só pela ideologia, mas também porque o modelo de lucro era o de receber vazamentos sem gastar nada, sem fazer investigação, e para ampliar exponencialmente a audiência com os espetáculos produzidos pelos vazamentos“.

Por fim, o jornalista denuncia que esta mídia brasileira mostrou predileção por projetos políticos específicos, escolhendo a quem atacar e a quem defender. O mesmo ocorrendo com setores do judiciário. Glenn relembrou um capítulo da “Vaza Jato”, publicado pelo The Intercept Brasil, no qual Moro protegeu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB – SP), por ser um aliado importante do ex-juiz: “Para mim, isso é um crime; escolher quem vai processar e quem vai proteger. Já provamos isso. Mostramos que eles tinham uma obsessão em condenar o Presidente Lula e, ao mesmo tempo, de proteger FHC”, disse.

A televisão não é neutra. No Brasil, em função da fortíssima concentração de poder, ela manipula e promove o ódio, como estamos constatando nos últimos tempos. E isso é muito grave. Todo poder concentrado torna-se tirânico. Urge repensar um modelo de comunicação televisiva ampla, livre e honesta, que alimente de forma saudável a vida democrática brasileira. Para o nosso bem e o bem de nossos filhos e filhas.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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