A COISA, por Capablanca

Ninguém sabe bem quando a Coisa começou a ganhar dimensão. Para alguns, surgiu do nada, tão discretamente atuava, para outros foi um processo lento, de décadas. Fazia seus movimentos de forma desajeitada e fora de qualquer padrão, mas não atraía a atenção. Era verde, depois amarelou, antes de ficar verde-amarelo, sem azulejar. Caminhou entre os outros por anos e anos a sua insignificância, dizendo ora obviedades, ora insanidades. Improvável que fosse um dia  levada a sério.

A Coisa parecia destinada a uma espécie de mediocridade bem posta, uma nulidade bem resolvida, tipo uma tão espaçosa quanto insossa paisagem.  Compunha, mas não era notada. Havia suficiente espaço para si e para os seus descendentes, os saudáveis filhotes, ágeis, corados e bem nutridos. Não era preciso dizer ou realizar qualquer palavra ou ato de valor, nada fazer já era uma aventura. Tudo ia se resolvendo de um jeito ou de outro, fosse em matéria de dinheiro, fosse em outros assuntos. Muito raramente alguém se aproximava em busca de compreender aquele nada ambulante. E afastava-se,  sem nada concluir.

No lugar onde mora, costumava ser vista em atitudes reveladoras. Gostava do gramado, lá permanecia por horas, não raro aproximava dele o seu rosto e, não fosse tão estranho, a dinâmica de suas mandíbulas poderia sugerir que ele estava mastigando algo. Bem… podia ser o churrasco, devia ser o churrasco, mesmo que perto da sua bochecha houvesse pedacinhos de um vegetal verde. Carregava um livro, mas não o lia, não o abria, sequer.

Falava pouco a Coisa. Se fosse um animal, diria-se que apenas rosnava. Dizia frases curtas. Repetia muitas delas, como se economizasse esforço, como se não tivesse de onde tirar ideias novas ou fôlego para pronunciar dois parágrafos. Sujeito, verbo e objeto, quando muito seguidos de uma interrogação, uma exclamação ou o clássico pedido de confirmação.

O fato é que a Coisa prosperou num ritmo incomum nos últimos dois anos. Os filhotes cresceram, abriram caminhos, montaram parcerias. A movimentação alcançou novos territórios, novos esquemas. Apareceram no entorno figuras mais, digamos, espertas, mais ousadas, para alguns amedrontadoras,  perigosas, quem sabe, e daí? Alguma coisa nova e importante rompeu a bolha do latifúndio territorial familiar, dizem que foi uma tecnologia nova, perfeita para alargar os horizontes de quem não tinha nenhum, alavancas do zero-um. No caso, a Coisa fez conexões em rede, sua presença nula avançou de forma exponencial. Gente ainda mais esperta e ousada aproximou-se.  A Coisa saiu de controle, começou a pensar e a avaliar. E descobriu que tudo, tudo mesmo, era possível.

E a Coisa cresceu, subiu e chegou lá. Foi como um foguete, um fenômeno, evento nada científico, nada lógico, acima de tudo, acima de todos. Tinha tudo para dar errado e deu mais errado ainda. A Coisa venceu. Foi acontecendo, assim mesmo, às vistas de todos, todos de boca aberta, inútil explicar, impossível entender.

A Coisa está posta. Fazer o que?

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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