A cisma no mundo do Companheiro Acácio – CLAUDER ARCANJO

Tarde de domingo. Lá fora, o sol a ferver os miolos deste dia. Os homens esbaforidos e impacientes, ao cruzarem por mim, nem sequer respondem à minha saudação de “Boa tarde!”.

Entro numa cafeteria, peço um suco e, antes de pedir um café, resolvo abrir, e ler novamente, o bilhete que recebi da escritora Vera Lúcia, admiradora confessa das elucubrações acacianas. No pequeno papel, a letra cursiva e elegante:

Caro amigo Clauder,

Gostei muito do Companheiro Acácio metafísico! Baudelaire também adorava os gatos. Há um poema dele, em prosa, que diz que os chineses veem as horas nos olhos dos gatos… Muito lindo. O gato é um animal belíssimo, mas pouco confiável. Avisa isso ao Companheiro. Melhor o cão do Quincas Borba. Ficou com ele até o fim.

Texto excelente, adorável.

Grande abraço da leitora amiga.

Vera Lúcia de Oliveira

Brasília-DF

— Acácio metafísico! Essa é boa, muito boa! — Rumorejo, com um quê de mofa e riso.

— E você pensa que a metafísica é incompatível comigo? Não o sabia preconceituoso, Clauder Arcanjo!

Volto-me e dou de cara com Acácio, ao vivo e banhado de suor.

— Por aqui, Companheiro? Como você veio parar em Vitória? — Indaguei-lhe, prenhe de surpresa, mas repleto de alegria por rever o dileto amigo.

— Vim porque… Você sabe, porque… Como poderia lhe dizer… Vim… — Gaguejava e não conseguia articular uma resposta completa.

Resolvo, então, provocá-lo:

— Você veio para o Espírito Santo, Companheiro, porque não pode viver longe de mim!

Ao concluir tal afirmação, deixei uma risada espocar por entre os meus lábios.

Acácio, tímido como o quê, ficou rubro de vergonha. Para quebrar o gelo, continuei:

— Conheci aqui em Vitória, entre uma chuvarada e outra, uma pitonisa. Sim, uma dama que tem o dom sublime das profecias. Seu nome: Cristine. Pequena, longas madeixas, de olhos calmos, sempre a antever o que se desenrolaria nos dias seguintes. Certa tarde, entre uma xícara de café e outra numa lanchonete, ela me confidenciou: “Sinto que você terá uma grande surpresa na próxima semana. Alguém bem próximo, pude perceber num dos meus sonhos”. E quem mais próximo de mim, Acácio, se não você?

Acácio cofiou o bigodinho bem aparado, coçou a careca farta, meneou a cabeça, em estado de supremo de espanto, e… ficou a cismar. Calado, enfiado numa letargia, numa pasmaceira, quase em funda melancolia.

De pronto, arrependi-me das minhas últimas palavras. “Recebo a grata visita do meu melhor amigo cá em Vitória e, em vez de abraçá-lo e festejar-lhe a presença, pespego-lhe no colo o meu humor de segunda categoria.”

Entre um silêncio e outro, resolvi penitenciar-me:

— Não me leve tão a sério, nem muito menos a vida, Companheiro! Vamos brindar à nossa velha, revelha, e sólida, amizade.

Dirijo-me ao interior da cafeteria:

— Garota, sirva-nos dois cafés. E, Acácio, dê cá um abraço. Um amplexo, como diziam os antigos — levantei-me e, desajeitado, quase caí sobre o Companheiro. Não sem antes despejar-lhe, sobre a sua camisa nova de algodão egípcio, o resto de suco que ficara em meu copo.

Acácio não reagiu. Nem sequer atentou para o meu pedido de desculpas. Com pouco mais, afastou sua cadeira e saiu, cabisbaixo e sem se despedir de mim.

Foi o suficiente para me deixar em polvorosa. Paguei a conta e rumei ao seu encalço.

— Acácio, espere-me!

Na esquina seguinte, fomos surpreendidos por uma chuvarada de verão. Sem dispormos de guarda-chuvas, caminhávamos ensopados, lado a lado. Entre nós, a cisma de Acácio. Como uma presença muda, dessas incômodas.

Conhecendo-o muito bem, achei de bom tom respeitar-lhe o estado de recolhimento. Poucos metros depois, um veículo em alta velocidade jogou sobre nós a água fétida que se acumulara no meio-fio da avenida. Fedidos e cismados, deixamos escapar um desabafo impublicável. Daqueles de ruborizarem rematados pecadores.

Convidei-o a seguir comigo até o meu hotel, e fui atendido. Lá chegando, providenciei-lhe uma toalha limpa, a fim de que o amigo tomasse uma ducha higienizadora.

Enquanto o esperava, dei asas a divagações. “O que faz Companheiro tão cismado? Seria isso que o trouxe até a cidade de Vitória? E eu, afundado nas minhas tolices, me esqueci de lhe dar a devida atenção. Meu amigo deve estar sofrendo. Meu Deus!…”

Entre um pensamento e outro, percebi que Acácio, enquanto se banhava, entoava alguns versos. Apurei o ouvido e colhi estrofes de Augusto dos Anjos: “… Toma um fósforo. Acende teu cigarro! /O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja. //Se a alguém causa inda pena a tua chaga, /Apedreja essa mão vil que te afaga, /Escarra nessa boca que te beija!”

Quando Acácio saiu do banheiro, ofereci-lhe roupa limpa:

— Vista-as. Precisamos conversar.

Puxei uma cadeira para junto dele e esperei que ele se compusesse. Como temos igual porte físico, a calça comprida e a camisa caíram-lhe bem.

Sem perda de tempo, fui direto ao ponto:

— Algo me incomoda. E este algo, Companheiro, é saber o que o incomoda. Desde que o reencontrei pouco mais de uma hora atrás, algo de cisma recende em seu olhar. E não pense em fugir do assunto! Somos amigos, e estarei sempre ao seu dispor.

Acácio baixou a face, e uma lividez despontou-lhe no rosto. Em seguida, de início com tibieza e a medir as palavras, começou seu relato:

— Não se sinta convencido, seu filho de Licânia. Mas, sua vinda para seu trabalho aqui em Vitória deixou-me sobraçado com a saudade. Com pouco, aproximou-se a tristeza. E, na semana que passou, eis que me bateu à porta a senhorita Melancolia. Um dia depois, creia-me, flagrei-me nos braços da malévola Depressão.

Quis interrompê-lo, ele gesticulou, como a me clamar por atenção e silêncio.

— Nem a leitura me atraía; Cervantes me cansava, Machado me entediava, Drummond me aborrecia. Ao tentar as ruas, em busca de um refrigério na minha angústia, me entristecia ainda mais… Até o prazer da rubiácea, do famoso café donzelo nas alvoradas cearenses, me repugnava. E eu a sofrer e a cismar, amigo Clauder Arcanjo. O gato Nabuco, sob os meus cuidados, a miar a sua sapiência felina, como a me mordiscar: “Vá! Vocês nasceram um para o outro”. De início, atribuí o conselho dele à mofa da sua metafísica, tão comum em suas confidências felinas. Até que, certa noite, acordei com ânsias de…

Acácio embargou a voz, e os olhos se marejaram com lágrimas doridas.

— Companheiro, e por que não me ligou? — Argumentei.

Não obtive resposta. Ficamos quietos e mudos. Em certas ocasiões, o verbo constrange e só a voz do silêncio nos exprime, e basta.

— “Da saudade na campa enegrecida /Guardo a lembrança que me sangra o peito, / Mas que no entanto me alimenta a vida.”

— Você sempre recitou muito mal os versos de Augusto dos Anjos! — Arrematou Companheiro Acácio.

E fiquei a cismar. Um átimo depois, Companheiro Acácio me abraçou forte, entre risos e pilhérias.

Sob o céu chuvoso de Vitória, ganhamos a rua, a sondar, sem metafísica, pelas melhores cafeterias da capital capixaba. Entre uma xícara de café e outra, a declamação altissonante dos poemas de Augusto dos Anjos. “Para desvirginar o labirinto /Do velho e metafísico Mistério, /Comi meus olhos crus no cemitério, /Numa antropofagia de faminto!”

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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