A chegada a Licânia

— Esta odisseia parece que não tem fim!

Quando levantei o rosto para identificar quem emitira aquela sentença, dei com a figura do amigo Lourenço à minha frente. Um riso de felicidade escapou-me ao ouvir aquela voz.

— Como você soube desta nossa viagem, Lourenço?

— Por sua Biscuí, amigo Clauder Arcanjo. Ela me avisou que você seguia para Licânia na Margarida do Uélsson. E eu pensei: aquela Rural colocará o meu amigo e sua turma em maus lençóis! Estou aqui com meu jipe 79 à sua disposição.

Não perdi tempo, solicitando-lhe:

— Desça então a serra e vá resgatar Uélsson e a Rural. Eles precisam da sua ajuda.

Lourenço pulou para o interior do jipe e acelerou. Ficamos à espera.

Ao retirar o celular do bolso — graças a Deus que não o perdera naquela minha operação de resgate do Nabuco — vi que havia sinal onde nos encontrávamos. Com pouco, uma ligação de Biscuí.

— Já estão em Sobral? — indagou-me.

— Ainda não, Biscuí. Mas, de certa forma, perto. Aliás, antes que me esqueça de lhe dizer, encontramos Lourenço no caminho. Está tudo bem, não se preocupe. Assim que chegarmos a Licânia, prometo, eu lhe avisarei. Beijos.

Resolvi não entrar em detalhes sobre os últimos acontecimentos. Só lhe causaria preocupação.

Nabuco e Carlos Meireles, sentados no acostamento, eram a própria imagem da desolação. Aproximei-me, a injetar-lhes otimismo:

— A vida exige renúncia e obstinação, senhores. Aquilo que nos chega de forma difícil traz-nos sempre um sentido mais pleno e sublime. Esta missão, que nós próprios resolvemos abraçar, nos exigirá muito. De cada um de nós. Se nos mantivermos unidos…

Companheiro Acácio, até então afastado, resolveu se achegar.

— Nas redes sociais, já despontam notícias acerca da nossa odisseia — informou-nos Acácio.

Pus no Companheiro os meus olhos injetados ainda de ira, dando-lhe as costas. Não sem antes informar-lhe:

— Escutei muito bem o que tu propuseste a Uélsson, cabra desgraçado: “— Salvemos Nabuco, minha gente. Quanto ao Clauder Arcanjo, este já era!” Muito bonito da tua parte. Nunca esperei isso de ti!

Acácio não me deu atenção, a ler para nós uma mensagem que recebera:

— Vejam o teor da nota: “Não é fácil nem confortável assistir a dois amigos estarem a ponto de se desentenderem e se agredirem, indo além das palavras, em especial quando a amizade é antiga, construída em conversas amenas no ambiente sereno de livrarias, entre capuccinos e bolinhos. Ver um escritor da estatura, da qualidade e da elegância de Clauder Arcanjo sendo surpreendentemente traído é doloroso, sobretudo porque ele não merece. O personagem do ato é o Companheiro Acácio. Nem chegam a ser razões as diferentes e conflitantes preferências literárias e de opinião sobre versos e a política. Acácio saiu dos contornos do que é aceitável na vida e na ficção. Pressão do momento em que vive o País, talvez. A ameaça da Covid, quem sabe? Já chegou à delegacia de polícia o drama, pasmem. O renomado escritor não esconde os fatos e os relata cruamente a quem interessar possa. Eu tenho lado nessa querela.” Enviada e compartilhada por Osvaldo Araújo, do Segunda Opinião.

— Assino embaixo! — solidarizou-se Carlos Meireles.

Confesso, leitor amigo, que gostei de saber que Osvaldo tinha lado naquela disputa. Sabia da elevada integridade moral e ética do mestre jornalista.

Com o meu silêncio, Acácio disparou, colérico:

— Sem falar nas notinhas de solidariedade a você, Arcanjo. Como se eu fosse um canalha, um ingrato. Um traidor!

— Como se fosse, não, você é! — pronunciei-me.

— Miau, mi, au, miau — aparteou-me Nabuco.

— Muito bonito, senhor Nabuco. Lindo, lindo. Até você me abandona. Até tu, Brutus? — alardeou Acácio, ao ouvir a declaração nabuquiana.

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— Vejam, vejam, é o jipe do Lourenço! E a Margarida!… Graças ao bom Deus!

Sim, era Lourenço no seu jipão 79, seguido de Uélsson, na brava Margarida.

— Resgatei-os quase dois quilômetros serra abaixo — disse-nos Lourenço. — Melhor seguirmos viagem, a noite já vai alta. Devagar e com cuidado, chegaremos a Licânia pouco depois da meia-noite. Irei atrás, caso a Rural apresente outro problema.

Nesse momento, um ronco de protesto eclodiu do escape da Margarida.

Uélsson consolou-a, filosofando:

— Deixe estar, querida. A estrada é a senhora da razão!

Surgiu um imbróglio. Diria até uma espécie de motim, de insurreição. Ninguém queria seguir no mesmo veículo com Acácio. Nem Carlos Meireles, nem Nabuco, nem Uélsson… muito menos eu.

Lourenço, diplomático, encontrou a solução:

— O senhor Acácio seguirá comigo!

E ganhamos a estrada, serra abaixo. Margarida, conosco, à frente; e Lourenço, a levar o enjeitado Acácio no jipe, logo atrás.

Nada melhor do que aquela provocação de Lourenço quanto à saúde motora de Margarida para fazer com que a Rural ganhasse potência. A Willys passou a apresentar um desempenho digno de corrida, deixando bem longe o jipão do Lourenço.

A noite passava lá fora. Uélsson, concentrado na direção, porém ainda a mordiscar descontentamento quanto à desconfiança de Lourenço no que se referia à robustez de seu carango — “Vamos ver! Vai comer poeira, seu presunçoso de uma figa! Você e esse seu 79 metido a potente! Não é, Margarida?!” —; os passageiros, recolhidos, a vagarem em pensamentos confusos. Carlos Meireles, pueril e poético, a querer escandir um verso arisco, todavia a musa não o socorria; Nabuco, interesseiro, a se imaginar sempre na condição de protagonista no combate à pandemia que infestava Licânia; eu, com os bagos ardidos, a direcionar um pouco de vento para refrescar os meus documentos. Entre um ai e um ui, surgia em mim um alento, entremeado por uma preocupação. O alento em forma de convicção do nobre objetivo que nos movia: salvar os licanienses. A preocupação — desculpe-me, leitor, pela minha fraqueza — é que nunca conduzi nada muito bem sem a presença do Acácio. E, brigados, como se daria esta nova missão?

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— Licânia à vista! — anunciou, à Cabral, Uélsson.

Carlos Meireles resolveu, ao seu modo pessoano, saudar a província:

— Ó Licânia, de tanto mal, quanto do teu sal são lágrimas desta Rural?

Uélsson, sem papas na língua, devolveu, não sem antes buzinar, festivamente:

— Aí dentro, “ruma” de chifre!

Nabuco, até então dormitando em meu colo, acordou, esticou-se todo, passando a lamber o pelo, como se se penteasse para a entrada.

Margarida diminuiu sua marcha, aguardando pelo jipe do Lourenço. Então, lado a lado, os dois veículos foram saudados pelas doze badaladas do relógio da Matriz de Senhora Sant’Anna.

Era meia-noite.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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