A CEREJA DO BOLO

Ontem, 16/11, o Brasil teve a oportunidade de assistir ao debate político-eleitoral entre os dois vencedores do primeiro turno das eleições municipais para prefeito da cidade de São Paulo – Guilherme Boulos (PSOL) e Bruno Covas (PSDB) – promovido pela rede de televisão CNN, mediado pela jornalista Monalisa Perrone, demarcando o início da campanha do segundo turno. Nesta etapa, os candidatos terão a mesma disponibilidade de tempo midiático em sua propaganda eleitoral, além da oportunidade de debaterem frente a frente suas propostas em programas jornalísticos, o que permitirá ao candidato do PSOL um tempo maior, em relação à etapa passada, para apresentar-se mais amplamente para o eleitorado paulistano. Esta é uma das virtudes eleitorais brasileira ao estruturar o segundo turno das eleições nos municípios com população acima de 200 mil habitantes: a igualdade de tempo entre os candidatos para estabelecerem uma comunicação igual com o eleitorado soberano.

Vimos ontem dois políticos seguros em suas visões de mundo, hábeis no desenvolvimento de suas propostas, num confronto duro, mas fundado no respeito ético pela pessoa do adversário. Por um lado Bruno, a partir de uma disfarçada criminalização dos movimentos sociais,esforçou-se por categorizar Boulos como um político radical; por outro lado, Boulos procedeu um resgaste histórico do clima de ódio desenvolvido pelo prefeitoBolsodória em sua campanha para o governo do estado em2018, como forma de esclarecer o eleitorado do vínculo político íntimo de Bruno com Bolsodória, do qual foi vicena chapa em 2016 na eleição municipal.

De fato, PSOL e PSDB ocupam lugares bem distintos no campo ideológico. Por um lado o PSDB, um partido de centro-direita, notabilizou-se nos últimos anos pelos ataques à democracia brasileira, principalmente a partir do momento em que Aécio Neves deflagrou abertamente o processo golpista ao questionar, seis anos atrás, junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o resultado das urnas em 2014. Uma tática abjeta difundida amplamente pela extrema-direita mundial. Desde então o PSDB passou a ser um dos partidos coordenadores da construção espúriado impeachment de Dilma Rousseff, ao lado da Rede Globo e de Sérgio Moro. No dia 13 de setembro de 2018, ou seja, dois anos após o impeachment da presidente Dilma, vendo que não teria condições de eleger o seu candidato à presidência, Geraldo Alckmin, o senador Tasso Jereissati (PSDB – CE), então presidente do partido, publicou o histórico “Mea Culpa” do PSDB, no jornal O Estado de São Paulo, no qual fala de “erros memoráveis, um gesto que não foi digno de um partido que se dizia inscrito no processo democrático”.

Por outro lado o PSOL notabilizou-se nesse período por aprofundar o contato com suas bases sociais no sentido de conscientizar os segmentos da sociedade da importância do engajamento político-partidário como forma de luta eficaz de enfrentamento da truculência política, social e econômica aberta pelo Golpe de 2016 e aprofundada com o governo Bolsonaro-Guedes, com a eleição em 2018. O resultado desta ação política de base do PSOL é confirmado pela presença de Boulos no segundo turno daeleição municipal paulistana.

Ontem pela manhã, em conversa para saudar a companheira Jaqueline Manchein, candidata a vereadora mais votada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) do município de Palhoça–SC, ela me disse algo muito interessante: “Alexandre, no Brasil, quem quiser fazer política partidária no campo da esquerda, tem que colocar a mão na massa, tem que estar no meio do povo convivendo e comungando sua luta do dia a dia”. Já hoje, em conversa com outro grande amigo, importante quadro da política nacional, ele me disse: “Se Boulos ganhar a prefeitura de São Paulo, vai tornar-se a cereja do bolo. A chapa dos meus sonhos para 2022 é Guilherme Boulos e Ciro Gomes”, disse ele.

Uma coisa é certa, café com bolo logo cedo, ao amanhecer, é um cardápio excelente.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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